‘Rolezinho’: “A chegada de outro grupo social àquele local provoca pânico”

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Jovens foram alvo de repressão durante os 'rolezinhos'.

No início de janeiro, o shopping JK Iguatemi, de São Paulo, conseguiu na justiça uma liminar impedindo a realização de um “rolezinho” marcado pelas redes sociais na internet. Os rolezinhos são encontros de jovens de regiões pobres que, diante da falta de lazer para as massas e a massificação da cultura consumista, só têm a opção de ir aos shoppings. No entanto, os diretores desses centros do consumo exacerbado ou “cápsulas espaciais” condicionadas pela estética do mercado, segundo a definição de Beatriz Sarlo, sentiram-se no direito de regular os eventos e, assim sendo, regular também o acesso ao shopping de acordo com a classe social do consumidor.

No ano 2000, um grupo de sem-tetos e moradores de favelas fez um protesto no acesso ao shopping Rio Sul, na praia de Botafogo, zona Sul do Rio de Janeiro, com o intuito de escancarar a distinção social no acesso aos shoppings. Logo que chegaram ao local de ônibus e entoando a palavra de ordem “Ocupar! Resistir!”, os manifestantes foram reprimidos por policiais. Um PM entrou no ônibus e, antes que todos descessem, perguntou: “Vocês vieram fazer o quê aqui? Vão ficar pacíficos? Posso contar com isso?”.

Depois de uma breve negociação a entrada dos não-consumidores no shopping foi liberada. Sete anos depois, o documentarista Vladimir Seixas recuperou imagens de arquivo da manifestação e fez um filme com análises do episódio. O documentário Hiato participou de vários festivais e foi premiado em alguns deles.

— O que eles fazem? Algo completamente normal. Descem do ônibus e vão ao shopping. No entanto, a chegada de outro grupo social àquele local, provoca pânico. As portas sendo baixadas; a mobilização dos seguranças, da polícia; um aparato para reprimir um grupo que ultrapassou uma parede invisível. Por que eu tenho que me vestir de certa maneira para ir ao Rio Sul? Onde está escrito isso? Quais são essas regras invisíveis que fazem uma pessoa pobre ir a um lugar e ser discriminada? — pergunta a professora de comunicação da UFRJ, Ivana Bentes.

— Com suas próprias imagens de pobreza diante de todo aquele luxo, daquele consumo, eles denunciaram as perversidades desse mundo de globalização. Na verdade, a presença da imprensa ali era um salvo conduto para eles, porque intimidou a polícia. O que esse pessoal fez foi denunciar o consumo. Como quem diz: ‘olha, a gente vive à margem da sobrevivência, as nossas casas são barracos de madeira’. Enquanto isso, no shopping, um menino [cenas do filme] brinca em um carrinho de brinquedo que custava na época 230 reais, mais que um salário mínimo — disse o documentarista e parceiro de AND, Silvio Tendler, no filme Hiato.

O curioso dessa história é que, nos dias de hoje, os rolezinhos não foram uma iniciativa de protestar dos mais pobres, mas um recurso de quem não tem nem ao menos as praças públicas como opções de lazer, já que nos últimos vinte anos, a maioria dos cinemas, teatros e parques de diversão foram amontoados dentro dos shoppings. Contudo, a brincadeira dos jovens pobres terminou em novos episódios de violência policial. No shopping Itaquera, PMs chegaram a atirar bombas de efeito moral dentro do prédio, causando pânico e correria. Pessoas foram atacadas a golpes de cassetete e outras passaram mal.

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— Tem de proibir esse tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este — afirmou a empresária Helena de Assis Pregonezzi, 55, ao jornal “Folha de S. Paulo”.

A mulher disse ainda que jovens estariam furtando objetos das lojas e portando revólveres na praça de alimentação. No final do evento, 23 pessoas foram detidas e nenhuma delas estava armada. Além disso, nenhum objeto foi furtado.

A lamentável ação policial em São Paulo e, consecutivamente, a postura adotada pela direção dos shoppings de fechar as portas — como fez o Shopping Leblon no Rio, dia 19 de janeiro — atraiu a atenção dos movimentos populares e trouxe de volta o debate central do filme de Vladimir Seixas. Esses dois fatores foram certamente o fio condutor de toda a polêmica e, consequentemente, da indignação de milhares de democratas e progressistas que decidiram “comprar o barulho” das massas, como tem acontecido cada vez mais.

O desenfreado estímulo ao consumo que vemos nos dias de hoje é uma evidência do desespero de um capitalismo em seus suspiros derradeiros. Cada vez mais empobrecidas e entregues a sua própria sorte, as massas, por essas e outras, percebem sua insignificância para as classes dominantes. Percebem que trabalhar de sol a sol é sua única serventia e que não resta outro caminho, que não resistir.

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