Sobre estoquistas e cinegrafistas

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Fotógrafo perdeu a visão do olho esquerdo ao ser atacado por policiais militares

Acabo de ler a notícia sobre a morte do cinegrafista Santiago Andrade, atingido por um fogo de artifício no protesto de 6 de fevereiro no Rio. Vi suas fotos, de sua família, rostos e cores muito diferentes das que estamos acostumados a ver nas bancadas dos telejornais. Claro que fico muito triste com esta morte, ainda mais pela forma vil como está sendo utilizada pelo monopólio de imprensa, em particular a rede Globo, e pelos governantes de plantão. Querem se aproveitar da morte de um trabalhador para intensificar a sórdida campanha de criminalização da luta popular.

Santiago era pessoa de bastante coragem, pois na falsa democracia em que vivemos, cobrir uma manifestação é como estar na cobertura de uma guerra. Uma guerra não declarada do velho Estado reacionário, armado, contra o povo, em sua maioria jovens, desarmados. Santiago não recebeu da empresa para a qual trabalhava, rede Bandeirantes, os equipamentos de segurança indispensáveis para cobrir um protesto hoje no Brasil, isto é, capacete e máscara de gás. Se os portasse esta tragédia seria evitada.

Santiago não foi o primeiro repórter a se ferir em manifestações, mais de cem deles, mesmo das grandes emissoras, foram agredidos pela polícia no último ano. O fotógrafo Sérgio Silva ficou cego de um olho após ser atingido por uma bala borracha em São Paulo. Sem contar os inúmeros e corajosos profissionais da imprensa popular que foram agredidos e presos, justamente por fazer o trabalho de denunciar os crimes do aparato repressivo.

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Momento em que o rojão atingiu Santiago. RJ, 6/2/14

A rede Globo, comprometida com a Fifa e o governo Dilma, mais uma vez gasta todos seus recursos na manipulação da informação. No Jornal Nacional, Wiliam Bonner falou em “ataque a um jornalista” por parte dos manifestantes, sendo que as cenas repetidas a exaustão mostram que apenas por uma fatalidade o rojão atingiu a cabeça de Santiago, claro que ele não era um alvo da reação dos manifestantes.

Um perito da UFRJ apareceu durante toda a semana no Jornal Nacional. Cada dia se tornava especialista de alguma coisa. Primeiramente, perito em explosivos, afirmando categoricamente que aquele artefato não era utilizado pela polícia. Depois, perito em botânica, para afirmar que, pela sobreposição de diferentes cenas, os rapazes de camisa cinza eram os responsáveis pela explosão, tudo isto comprovado pela comparação da copa de uma árvore filmada por diferentes ângulos. Perito em criminalização de manifestação, isto sim ele é.

Intercalando a “prova técnica”, a rede Globo colhia o depoimento político de autoridades. Deu nojo assistir Sérgio Cabral cobrando a apuração rigorosa. Logo o Cabral, que por meses procurou esconder o assassinato do pedreiro Amarildo na sede da “polícia pacificadora” na Rocinha? Agora vejo a notícia de Dilma ordenando à Polícia Federal investigar o caso do cinegrafista. Poderia ter feito o mesmo com o pedreiro, não?

Ou para ficarmos num exemplo mais recente, comparemos a cobertura do monopólio de imprensa, o “rigor” e a pressa na investigação do acidente que vitimou o cinegrafista Santiago com a tentativa de homicídio do jovem Fabrício Chaves, 22 anos, no protesto do dia 25 de janeiro em São Paulo. No primeiro protesto contra a Copa da Fifa realizado em 2014, a PM paulista em perseguição a Fabrício disparou a queima roupa dois tiros de pistola .40, um no tórax outro em sua genitália. Fabrício passou quatro dias em coma e perdeu um testículo em decorrência do tiro. Onde estava o perito da rede Globo para analisar as imagens de vídeo que mostram os policias atirando neste jovem?

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Acontece que Fabrício foi atingido pela polícia e era um simples estoquista. Nestas condições e nesta classe não se merece uma cobertura tão ampla, nem dois blocos inteiros do Jornal Nacional. Onde estão as fotos dos dois policiais que tentaram matar Fabrício? Uma declaração do presidente nacional da OAB sobre a tentativa de assassinato de um jovem manifestante, um simples estoquista, seria impensável. Imaginem:

— Os tiros no jovem estoquista não atingiram apenas ele, mas toda a democracia. A profissão de estoquista é fundamental para mantermos o Estado Democrático de direito. O estilete, símbolo desta profissão, deve ser respeitado. A OAB exige investigação rigorosa e punição a estes policiais que tentam cercear a manifestação política desta categoria.

Ou será que Dilma, a mesma que disse na Europa que seu governo não reprime manifestações, iria mandar a PF investigar a PM paulista? Nem contra o PSDB ela faria isto, pois suas contradições com o povo em luta são muito maiores que as pequenas diferenças entre os tucanos e os petistas.

Nesta sociedade de classes, os trabalhadores não têm os mesmos direitos dos exploradores. O velho Estado não é neutro, é o guardião dos privilégios da grande burguesia e do latifúndio, minoria absoluta da população. Por isto, enquanto houver este sistema, nunca a violência contra os trabalhadores terá a mesma visibilidade.

Todos os brasileiros de bem sofrem com a morte de Santiago, como choraram as mortes dos jovens manifestantes assassinados nas jornadas de junho. Quem hoje, nos bastidores, sorri sobre o corpo de Santiago são os reacionários da imprensa, que veem nesta morte um meio para criminalizar as manifestações contra a Copa.

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