Luta contra o aumento das passagens de ônibus no Rio: Ação da PM acaba com dois mortos

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Na manifestação de 10 de fevereiro, manifestantes incendiaram uma "catraca" simbólica

Na tarde do dia 6 de fevereiro, cerca de três mil pessoas tomaram as ruas do Centro do Rio de Janeiro em mais um protesto contra o aumento no preço das passagens de ônibus. O reajuste, que entrou em vigor no sábado, dia 8 de fevereiro, aumentou o valor da tarifa de 2,75 para 3 reais. O reajuste segue a orientação do contraditório relatório do Tribunal de Contas do Município, que aconselha o aumento com base em contratos e acordos com as empresas de ônibus que precisam ser cumpridos. Mas, ao mesmo tempo, no documento, o TCU admite que o correto, seguindo critérios de equivalência entre qualidade e preço, seria a redução no valor das tarifas, de 2,75, para 2,50. E mais, o próprio Tribunal de Contas admite que o relatório não possui dados precisos, devido à omissão de informações por parte das empresas citadas.

Essa foi a sexta manifestação contra o novo aumento no valor da tarifa. Nos atos anteriores, manifestantes promoveram o “catracaço” na estação de trens Central do Brasil, liberando as catracas de acesso à população. Dessa vez não foi diferente. O ato seguiu até a Central pacificamente e, apesar da tentativa de policiais de impedir o acesso de manifestantes à estação, muitos conseguiram entrar e, como nos atos anteriores, iniciaram o “catracaço”. A população, como sempre, vibrou com a iniciativa, engrossando ainda mais a manifestação.

No entanto, dessa vez a polícia decidiu intervir, distribuindo gás e golpes de cassetete gratuitamente, ferindo mulheres, gestantes, pessoas de idade, além de milhares de trabalhadores que passavam pelo local em plena hora do rush. AND divulgou vários vídeos na internet mostrando pessoas indefesas — muitas delas nem ao menos participavam do ato — sendo agredidas covardemente por policiais. Um homem aparece defendendo sua esposa com uma das mãos e se protegendo dos golpes de cassetete com a outra. Em outro momento de um dos vídeos de AND, um jornalista tem sua câmera atirada ao chão e, ao tentar recuperá-la, é covardemente espancado por PMs. Além disso, várias pessoas ficaram intoxicadas pelo gás lacrimogêneo, entre elas uma gestante e um jovem de 16 anos — ambos desmaiaram.

Depois que a estação foi evacuada, do lado de fora a tropa de choque iniciou um massacre, atirando bombas de gás e tiros de bala de borracha contra o terminal rodoviário e causando uma grande correria. Do outro lado da estação, na Avenida Presidente Vargas, PMs empurraram o ato para o meio da rua atirando bombas de efeito moral e gás. Na correria, o camelô Tasman Amaral Aciolly, de 65 anos, teve a sua perna esmagada por um ônibus e faleceu momentos depois no Hospital Estadual Souza Aguiar.

Manifestantes responderam com pedras e fogos de artifício e a praça da Central virou um campo de batalha. No momento, todos os fotógrafos e cinematógrafos que estavam no local correram das bombas, rojões e morteiros. O cinegrafista da Rede Bandeirantes de TV, Santiago Andrade, permaneceu parado no meio do confronto sem nenhum equipamento de proteção e foi atingido no ouvido esquerdo por um rojão. Santiago teve morte cerebral decretada dois dias depois, causando histeria no monopólio da imprensa.

No fim do ato, desorientados, PMs começaram a prender e revistar pessoas aleatoriamente. 31 pessoas foram detidas e liberadas depois de prestar esclarecimentos. As mortes de Santiago e do senhor Tasman somam-se a várias outras, como do jovem Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu de um viaduto ao correr das bombas atiradas pela PM durante protesto em Belo Horizonte. Ou senão da ativista e produtora cultural Gleise Nana, que teve sua casa incendiada depois de ser ameaçada por policiais. No entanto, o monopólio dos meios de comunicação — grande acionista da miséria do povo brasileiro — escolhe a morte de Santiago para iniciar uma odiosa campanha de criminalização dos movimentos que, desde junho do ano passado, tomaram as ruas do país.

Apenas quatro dias depois, no dia 10 de fevereiro, novo protesto contra o aumento do preço das passagens tomou as ruas do Centro do Rio. Diante da incessante desinformação reacionária promovida pelo monopólio da imprensa, encabeçado pela Rede Globo, muitos pensaram que o ato nem ao menos iria acontecer. Contudo, cerca de mil pessoas compareceram à manifestação, mostrando que nem o cansativo blá-blá-blá da TV será capaz de calar as ruas.

A manifestação do dia 10 partiu da Central do Brasil e, ao se deparar com a estação de trens de portas fechadas, manifestantes seguiram para a Fetranspor — Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro —, ao lado da Assembleia Legislativa. O tempo todo, manifestantes lembraram o camelô Tasman Amaral, esquecido em meio ao mar de “notícias” sensacionalistas sobre a morte de Santiago.

Eu vi tudo. Ele estava correndo do gás lacrimogêneo e foi atropelado por um ônibus — diz um manifestante segurando um cartaz com fotos de Tasmam ferido seguidas da mensagem “Isso a TV não mostra!”.

Apesar de toda a repercussão do caso, a massa não perdeu o foco e em nenhum momento calou-se diante do numeroso contingente policial. As palavras de ordem eram contra o aumento no valor das tarifas, as eleições, a Rede Globo, a Copa e a carestia. De dentro dos coletivos, manifestantes recebiam palavras de apoio de passageiros.

Isso é um esculacho. A gente trabalha para caramba e ainda temos que sofrer dentro do ônibus. Parabéns para vocês estudantes, jornalistas que estão aí lutando contra isso — diz um jovem trabalhador.

É surreal esse aumento. Eu estou aqui passando um calor desgraçado. Nós pagamos caro por um serviço de péssima qualidade. O salário que a gente ganha não dá para isso! É um absurdo! — afirma uma senhora.

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É muito triste o quê eles fazem com a gente. Mas isso é Brasil, meu filho. A qualidade é péssima, o transporte é péssimo, é tudo péssimo. Pagamos um preço exorbitante por um transporte horroroso — diz um senhor.

 Quando manifestantes seguiam da Câmara Municipal em direção a Lapa, PMs iniciaram um ataque surpresa, com uma silenciosa arma que dispara balas de borracha e tinta. A reportagem de AND registrou inúmeros flagrantes da brutalidade policial contra manifestantes e até contra um jovem que esperava o ônibus em um ponto. Ignorando as lentes dos vários repórteres da mídia independente que estavam no local, PMs agrediram jornalistas e manifestantes indiscriminadamente, fatos omitidos pelo monopólio da imprensa.

O mesmo monopólio não enviou nenhum de seus jornalistas e cinegrafistas para a manifestação. Os poucos que compareceram não utilizavam equipamento de proteção individual, com exceção dos profissionais de veículos da mídia impressa. Um cinegrafista da Rede Globo que sempre filma as manifestações “a paisana” — sem identificação, colete, capacete ou máscara de gás — foi abordado por nossa equipe, que perguntou por que ele não usava proteção. O cinegrafista preferiu não responder a pergunta e ficou atrás do cordão policial filmando nossa equipe. O time de AND trabalha com máscaras de gás militares, capacetes, coletes a prova de balas de borracha e identificações no tamanho 10 x 7,5 centímetros.

Ao fim da manifestação, mais mensagens de apoio de pessoas que passavam pela rua revigoraram a esperança de que, como canta a palavra de ordem, “amanhã vai ser maior!”.

Os bobões ficam trabalhando debaixo de uma farda pesada, no sol, para reprimir pobre. Eu já vi aqui na Central, guardas dando na cara de camelô. Enquanto isso, o Sérgio Cabral está lá roubando e ninguém faz nada — diz um camelô.

Chega de hipocrisia! A PM mata pobre todo dia. Vocês têm o meu apoio! Eu sou professora e vocês são o meu orgulho — disse uma professora que acompanhava o ato.

Um dia antes do fechamento desta edição, 13/2, uma nova manifestação no Centro da cidade contou com a participação de milhares de pessoas.  Os manifestantes se concentraram na Candelária e caminharam até a prefeitura.

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