É o fim do “socialismo do século 21”?

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Milhares de manifestantes ocupam diversas ruas de Caracas

As revoltas do bairro oeste de Caracas e de Táchira, aguçadas pelas velhas oligarquias venezuelanas em ligação com o grupo midiático ianque CNN, e atrás deles os grupos midiáticos mais poderosos da América Latina, revelam uma tentativa de redesenhar ou restaurar o panorama da geopolítica latino-americana. Com isso, esperam que o imperialismo ianque possa retomar seu protagonismo na região, já que nos últimos anos esteve mais envolvido com seus negócios no Oriente Médio.

Esta tentativa de reestruturação da presença ianque em seu suposto “quintal” é produzida quase um ano depois da morte do caudilho venezuelano Hugo Chávez, também depois de um ano que Nicolás Maduro - seu sucessor – ganhasse as eleições sobre Henrique Capriles, no pleito eleitoral mais apertado da Venezuela nos últimos quinze anos.

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Guarda Nacional dispara contra a população

Os ianques, assim como a oligarquia venezuelana, sabem que os processos nacionalistas, também chamados populistas, nos quais se fortalece a burocracia nos países da região, respondem a ciclos cujo horizonte temporal não costuma passar de duas décadas. Assim como também são cientes de que estes processos são extremamente dependentes da figura do caudilho ou líder, ao qual praticamente são atados. Por todos estes motivos é que eles vêm fustigando Maduro – cujo carisma está muito aquém do de Chávez – através dos meios de comunicação de alto impacto, como a CNN e suas cadeias “irmãs” em toda a América Latina, no plano internacional. No plano nacional, estudantes venezuelanos e grande parte da população de San Cristóbal — em Táchira — são insuflados sob o jugo da chibata.

A engrenagem de Chávez se baseou na conformação de uma corte de burocratas aderidos ao Estado venezuelano, dentre os quais o exército jogava um papel importante. Toda a maquinaria populista do chavismo esteve sustentada no discurso do “socialismo do século 21”. Estabeleceu alianças em um grupo regional de pouca relevância econômica chamado Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), como contraposição à tentativa do imperialismo ianque de estabelecer um acordo de livre comércio com todos os países latino-americanos, a Alca, e paralelamente trabalhou para o ingresso da Venezuela no Mercosul, no plano econômico; e no plano político se empenhou em estimular o grupo de nações chamado Unasur (União de Nações Sul-Americanas).

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Bombas de gás são arremeçadas de volta

No que se refere à economia interna, em que pese o discurso supostamente emancipador, a Venezuela se tornou mais dependente do que nunca da sua renda petroleira, baseada no mais primário dos extrativismos. Desta forma, o país acabou não modificando um grama no padrão de exploração econômica, apesar dos cantos de sereia que gerava o populismo chavista na criação da Petro-América e Petro-Caribe, cuja relevância para a Venezuela e a região é mínima e irrelevante. Além disso, jamais pôde garantir segurança e soberania alimentar, já que grande parte dos alimentos consumidos pelos venezuelanos provinha dos países da região. 

Ainda durante o governo de Hugo Chávez, a escassez de alimentos foi tão crítica que rapidamente se formaram filas em todo o país para obter os produtos alimentícios básicos, que eram subsidiados pelo governo. Esta situação foi habilmente aproveitada pela oposição ianque que, há décadas, utiliza o tema das filas para a obtenção de alimentos como um fato que gera desgosto nos vastos setores populares e que, além disso, foi rapidamente associado com uma das deficiências e reminiscências do “socialismo cubano”. Do outro lado, como era de se esperar, foi criado um mercado especulativo que vinha sustentando o contrabando de alimentos com o auxílio de determinados setores econômicos colombianos.

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Morteiro improvisado é utilizado em confrontos

Por mais que a queda de Maduro tenha sido evitada – pelo menos em curto prazo – pelo trabalho da diplomacia venezuelana na região, apoiando-se principalmente sobre a ainda débil Unasur, não deixa de ser evidente a debilidade do que resta do regime chavista, em todos seus setores: internacional, nacional, político, econômico e ideológico.

Vislumbra-se um redesenho da geopolítica latino-americana, em médio prazo, que emerge do ronco do chamado “socialismo do século 21”, no qual o USA e todos os seus aliados tentam retomar posições perdidas.

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Bassil DaCosta foi baleado por militantes pró-governo

Para os revolucionários latino-americanos é a oportunidade de fortalecer suas convicções, enraizar os argumentos pelos quais Chávez foi criticado durante todo este ciclo que já parece acabar. Em perspectiva, o chamado “socialismo do século 21” caminha para seu fim e de alguma forma não afetará somente o processo venezuelano, mas também os processos boliviano, equatoriano e nicaraguense. Mas, acima de tudo, a tarefa principal dos revolucionários latino-americanos é não permitir que o fracasso da herança chavista seja associado ao socialismo, já que esta experiência em nada contribuiu para a construção de um mundo novo.

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