Um monólogo para milhões: Xenofobia, propaganda imperialista e culto ao grotesco

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Quinta-feira, 21 de agosto, aproximadamente 22h. A Rede Bandeirantes de Televisão exibe o programa “Boa noite, Brasil”, apresentado por Gilberto Barros, um desses já tradicionais programas de auditório, certos clones daqueles produzidos no USA — lixo tipo exportação. Na platéia, gente de todas as idades, mas as primeiras filas são preferencialmente dedicadas às jovens moças. 

O roteiro é uma verdadeira miscelânea, aparentemente acidental: música (sempre os mega-sucessos fabricados), entrevistas e tolices “polêmicas”. Como denominador comum, a vida de astros e estrelas televisivas. Um ou outro “especialista” — advogados, psicólogos, médicos — é chamado para opinar sobre temas vestidos com suposta seriedade.

No quadro “De cara com a fera”, por exemplo, uma espécie de detector de mentiras é operado pelo especialista. O “analisado” é um ex-ator de destaque no cinema nacional, ultimamente convertido, o evangélico Jece Valadão. O apresentador, lançando mão de recursos teatrais e de um suspense banal, faz perguntas sobre a vida pessoal do entrevistado, insistindo nos temas picantes. Ao final da resposta do astro, o apresentador animista pergunta: “Máquina, ele disse a verdade?”. Mas onde está a verdade de toda essa história?

A vida privada dos modelos de sucesso do sistema imperialista vira o totem maior do comportamento, padrões de consumo e sonhos voláteis dirigidos às classes dominadas com a esperança de que especialmente uma juventude pré-moldada possa transferir às gerações seguintes o entendimento que as corporações desejam.

O pensador francês Guy Debord, em 1967, já enunciava em seu livro A sociedade do espetáculo (Contraponto, Rio de Janeiro, 1997) a teoria do espetáculo. Quem são, na verdade, as personas midiáticas?

As telas dos televisores servem de legitimadoras da verdade: só é verdadeiro o que aparece na TV. Debord mostra que a população vem passando mais tempo diante da “máquina de fazer doido”, dedica mais tempo à hipnose da mídia — a população do USA, por exemplo, passa, em média, de três a seis horas por dia vendo TV. E o pouco tempo livre, a princípio voltado para o lazer e o descanso, vira tempo destinado ao consumo da evangelização imperialista.

Sociedade do espetáculo e da mentira

Na noite do dia 22 de agosto, o “Programa do Ratinho”, no SBT, conseguiu bater seu próprio recorde de atrair a repulsa ao ocupar-se da vida particular de pessoas humildes. São milhões gastos na produção do grotesco, de tecnologia e mão-de-obra mobilizadas para promover a humilhação e o deboche, a pretexto da discussão familiar, onde uma encenação ridícula de paternidade não reconhecida é compartilhada com o auditório repleto. Pão e circo, na roupagem pós-moderna se perpetuam: a TV é uma arena! Na legenda, “A vizinha diz que Jorge é o pai; e Lúcia diz que se for verdade a casa cai”. O nível do diálogo entre os envolvidos é lastimável e a platéia é estimulada a apupar cada insulto, quando atinge o clímax: uma das senhoras recorre à agressão física. O teatro bufão fecha as cortinas e pula para mais outra atração. É assim todos os dias.

American movies1: palco para a massificação ideológica

Há muito o cinema ianque, através dos chamados “enlatados”, opera com esmero a estratégia do domínio ideológico implementado pelo imperialismo. Palco privilegiado para essa operação, os movies são maciçamente semeados pela poderosa indústria cultural do USA em campos desprotegidos, as regiões semicolonizadas. O que antes era dominação quase que exclusivamente econômica invade o domínio da superestrutura — o conjunto de conceitos, de noções políticas, jurídicas, morais, estéticas, filosóficas, etc. Em resumo, os detentores do poder econômico detêm a posse dos meios de difusão ideológica, como dizia Marx.

Alguns exemplos mais explícitos da exaltação patriótica (e de naturalização da lógica militarista) dos ianques, recordistas da programação obrigatória e repetitiva na TV, podem ser encontrados no filme Nova York sitiada, de 1998, dirigido por Edward Zwick. É o típico folhetim patriótico imperialista em forma de película: terroristas de origem árabe assolam Nova York com uma onda de atentados (para variar, um exemplo da xenofobia ianque). Há dois personagens centrais. Um agente do FBI (interpretado por Denzel Washington) tenta manter a lei e o general linha dura (Bruce Willis) revela ardentes desejos de mandar todos os suspeitos pelos ares, de acordo com a etnia ou orientação religiosa a que pertencem as vítimas.

As semelhanças com a realidade e a lógica de tipos como W. Bush não espantam. Os valores que o USA gosta de exaltar estão lá: o patriotismo fascista, a tecnologia do militarismo, a eficiência dos aparelhos coercitivos; tudo recheado com efeitos pirotécnicos nas cenas de perseguições, de bombas ativadas, de helicópteros em vôos rasantes, etc., etc.

Crianças aparecem chorando (obviamente nenhuma criança palestina, vítima da ação USA-Israel-USA, é vista), os revolucionários (chamados de terroristas) invariavelmente feios e sujos, contrastam com a elegância e inteligência dos agentes (esses não são terroristas) da CIA2. O terror transparente é apenas um “justificado” endurecimento e o espectador se surpreende torcendo pelo promotor do enredo. Nenhuma menção à política genocida implementada pelo USA no Oriente Médio, ou ao seu fundamentalismo protestante. Já os árabes são fanáticos e atrasados. Os ianques podem matar aos milhares, a exemplo dos antigos filmes de bravatas com índios, com os alemães, etc., porque são civilizados e progressistas. “Caçaremos os inimigos e os mataremos”, diz o general interpretado por Willis. No fim, vence o valente da ficção, deixando a imagem de que o lado do “bem” é vizinho da Estátua da Liberdade.

Em Armageddon, outra obra de igual forma desgraçadamente disponível na TV e em vídeo, a Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço do USA (Nasa) recebe o alerta de que a Terra, em apenas 18 dias, será atingida por um asteróide gigante. Claro, sendo os ianques os salvadores da espécie humana — e, mesmo, como se sabe, não há nem pode haver em nenhuma outra nacionalidade um grande cientista ou sábio —, a humanidade, embora nada tenha pedido, prontamente se vê protegida.

O argumento vazio e pouco original tem sucesso assegurado de bilheteria (como sempre, explicado pelos tratados e acordos militares, culturais, de “cooperação” técnica, etc., constantemente renovados entre o USA e os países da América Latina). O filme certamente produziu milhões em lucros nas semicolônias, além de ter conseguido reproduzir com eficiência os discursos do imperialismo no palanque da alienação mundial, como deixam antever trechos do pronunciamento de um fictício presidente ianque:

“Eu me dirijo a todos, hoje, não como presidente dos EUA, não como um líder de um país, mas como um cidadão da humanidade. Nós nos deparamos com o mais difícil dos desafios. A Bíblia chama esse dia de Armagedom, o fim de tudo. E pela primeira vez na história do planeta a espécie humana tem a tecnologia para prevenir sua própria extinção. Todos vocês rezando conosco devem saber que tudo que pode ser feito está sendo encarregado. A sede humana pela excelência e pelo conhecimento, cada passo da Ciência, cada alcance no espaço, todas as tecnologias e pensamentos modernos combinados, até mesmo as guerras que travamos, providenciaram as ferramentas para vencer essa terrível batalha. O homem é nossa arma. Os sonhos de todo o planeta estão concentrados hoje à noite nessas 14 bravas almas que viajarão aos céus. Que todos nós, cidadãos do mundo, vejamos esses acontecimentos. Boa sorte e que Deus os abençoe.”

É imensa a prepotência desses “sintetizadores” de megalomanias dos potentados: “cidadão da humanidade”; “os sonhos de todo o planeta estão concentrados hoje à noite nessas 14 bravas almas”. Ou a constante evocação da religião: “A Bíblia chama esse dia de Armagedom”; “todos vocês rezando conosco”; e a argumentação beligerante: “até mesmo as guerras que travamos providenciaram as ferramentas para vencer essa terrível batalha”.

Os monopólios da informação invadem mentes e corroboram o discurso único dos grandes magnatas. Cinema, televisão, meios impressos, moda — a indústria cultural inteira a serviço do fascismo, buscando controlar as mentes de toda a humanidade. A juventude, em especial, é um alvo certo no plano de injeção de valores universais do capitalismo, notadamente no aspecto da padronização dos consumidores ávidos, excitados por uma artificial fabricação de desejos. Pensam os potentados, a juventude se deixará levar pela sedutora indústria de sonhos do império, até serem apagados os últimos traços de dignidade humana.

Época da resistência internacional

Para Debord, que propõe a derrubada do mito burguês e o desmascarar do espetáculo alienante, os domadores de consciência, assim como apresentam às colônias “os pseudo-bens a desejar, também oferece aos revolucionários locais os falsos modelos de revolução”. O espetáculo tudo abarca e tudo transforma em mercadoria.

Revistas infanto-juvenis estimulam o consumo, a sexualidade cada vez mais precoce, empurrando crianças e adolescentes para um estado mental que afeta o sentido da realidade e a uma eterna ignorância frente às questões centrais da sociedade. A moda e o comportamento também cobram um tipo ideal, reduzindo o espaço da diversidade e do debate criativo. A juventude e seus signos de rebeldia de outrora são pasteurizados pelos mitos midiáticos, o que favorece a estratégia da alienação comandada pelo grande capital. O mundo “globalizado”, se não é desejável, aparenta ser inevitável. E isso é suficiente para o monólogo hipnotizante da democracia panótica3 dos potentados.

Um problema aparece, todavia. É a existência social que determina a consciência social dos homens e não o contrário. Portanto, não há como dominar a consciência dos povos, tanto mais são arrastados pela exploração. Por outro lado, a consciência social atua sobre a vida social que a engendrou e, ao enfrentar condições sociais adversas, as opiniões, idéias e teorias revolucionárias surgem produzidas e sistematizadas por milhões e milhões de homens. Justamente por não serem espontâneas, mas organizadas, as idéias se transformam em ação, força, tradição e finalmente em poder.

E só um tipo de ser humano não pode compreender isso: é justamente o explorador, aquele que pensa ser possível dominar o homem.


1 Filmes ianques
2 Central Intelligence Agency —Agência Central de Informação, do USA, organizada em 1947. É a maior e mais perversa organização terrorista do mundo. Recorre aos piores métodos de espionagem, de intriga, sabotagem, corrupção e assassinatos — disseminando o pavor, atos de agressão aos povos, ingerências, golpes de Estado, atentados.
3 Monitoração enlouquecedora que emprega o suplício, o castigo e a disciplina como mecanismo de controle social. Conjunto de métodos e procedimentos que busca transformar as massas em contingentes que produzem e obedecem, enriquecendo uns poucos cuja vida consiste em fugir do trabalho.

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