Cobras, jacarés e lagartos

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As diversas faces do movimento estudantil numa universidade do Rio de Janeiro

A greve dos servidores federais, deflagrada no dia 8 de julho, conseguiu unir, na medida do possível, estudantes, professores e funcionários da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói-RJ, contra o Projeto de Emenda Constitucional 40 — o famigerado PEC 40. Por trás desse aparente consenso (uma palavra com sentidos perigosos hoje em dia), muita divergência, todavia, tanto entre professores quanto entre estudantes. A maioria dos alunos, por exemplo, alienou-se e pouco participou: muitos estavam apenas interessados nas notas do final de período. No caso dos professores, o reacionarismo imperou em alguns casos e os famosos ‘fura-greves' podiam ser encontrados até mesmo no Departamento de História, um curso tradicionalmente mais politizado.

Mas será que a greve na universidade alcançou seus objetivos? “Não. Acho que a gente não se planejou da maneira adequada. Além disso, foi ruim ter acontecido no final do período, quando muitos alunos já se preparavam para entrar de férias”, diz Carla de Medeiros Silva, integrante do grupo UFF em Movimento, o mais votado nas últimas eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE).

Além de não conseguir barrar a reforma da Previdência, a greve não foi coesa. “No início, o único campus que parou quase todo foi o do Gragoatá. Cursos como Direito e Economia, pelo que sei, não aderiram à paralisação”, conta Marília Macedo, aluna do primeiro período de História. “A expectativa desde o começo não era boa. Comentava-se que a greve iria ser meio desmobilizada mesmo”, completa.

Apesar disso, algumas atividades de greve foram realizadas, como assembléias, aulões e sessões de vídeo (tendo em foco a oposição às reformas neoliberais em curso). Mas, como sempre, o clima foi mais quente no começo, esfriando à medida que a paralisação perdurava.

Movimento estudantil e governo

“Acho que o movimento estudantil na UFF está meio perdido. Como muitos representantes militam no PT, há bastante confusão quanto ao posicionamento frente ao governo federal: uns acreditam em mudança, outros já têm bem menos esperanças”, opina Róbson Wellington, estudante de História. “Particularmente, acho que o governo não muda o rumo. Serão quatro anos de populismo”, conclui.

O DCE, reunindo várias tendências, vive um panorama de debates e questionamentos. O crédito no “operário-presidente” está cada dia mais abalado, inclusive entre aqueles que (ainda) são filiados ao PT. Há bem pouco, a posição do grupo majoritário no DCE (UFF em Movimento, que se reelegeu para mais uma gestão) era bem menos conflitante, como se podia ver no editorial do jornal do diretório, em janeiro deste ano: “É com esperança que começamos 2003, já vendo nos primeiros atos do Governo Federal uma mudança brutal: enquanto FHC ia passear pelos países do ‘Primeiro Mundo', Lula vai para as favelas, comunidades e palafitas do país com sua equipe de governo, conhecer de perto a miséria de nosso povo para traçar ações que a combatam.”

Menos crédula, no entanto, era a visão do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), também presente entre as várias correntes que agitam os campi da UFF. No boletim do grupo, intitulado Estudantes do Povo, lançado em outubro de 2002, a “esperança das urnas” era encarada como farsa: “De olho no poder, o traidor Lula mima o milionário José de Alencar”, contava a legenda de uma foto em que os dois personagens apertam as mãos e esbanjam sorrisos.

UNE: união de estudantes?

Além dos temas nacionais, reflexões sobre o próprio ME tomam lugar no agitado dia-a-dia da UFF (antes da greve, obviamente). Questiona-se o papel da União Nacional dos Estudantes (UNE), do DCE, dos Centros Acadêmicos (CA's) e de outras instâncias do movimento — ele próprio também alvo de críticas.

A atual postura da UNE, por exemplo, desperta a ira de nove entre dez estudantes envolvidos (ou não) no movimento estudantil da UFF. Às vésperas do 48º Congresso da UNE (Conune), realizado em Goiás, em julho, pipocaram folhetos que pediam mudanças no direcionamento de suas políticas, mostrando que a instituição parece não mais refletir o desejo de boa parte dos estudantes brasileiros. “Concordo com as críticas de que a UNE virou uma fábrica de carteirinhas. Não a vejo com a postura de combatividade que deveria ter, lutando pelos nossos interesses. Hoje, está fechada e burocrática”, critica Róbson.

Em mais uma de suas intervenções ácidas — dessa vez em seu sítio (www.estudantesdopovo.hpg.ig.com.br) —, o MEPR solta mais farpas: “O MEPR convoca os estudantes combativos do Brasil para romper com a UNE. Essa é a única forma de desvencilhar-se de todo o oportunismo e velhacaria no movimento estudantil, e o único caminho para a construção de uma nova e verdadeira organização nacional dos estudantes combativa e independente!” Num contexto desses, a “União” da sigla parece não fazer mais sentido.

Eleições para o DCE: balaio de gatos

Antes do início da greve, a UFF viveu um clima de eleição: o novo comando do DCE foi escolhido por votação direta dos alunos. Cinco chapas buscavam conquistar o eleitorado —muitas vezes alienado, desiludido ou simplesmente insatisfeito com o processo eleitoral. A disputa mais acirrada foi entre as chapas 1 (UFF em Movimento, tentando a reeleição) e 2 (Inimigos do Rei).

Na plataforma das chapas, mais ou menos as mesmas reivindicações: moradia estudantil (apesar de cerca de 70% de seus estudantes serem de fora, a universidade não conta com um alojamento), transporte gratuito entre os campi, contratação de professores, construção de um colégio de aplicação, entre outras.

Como o clima era de eleição, os estudantes envolvidos fizeram questão de copiar os hábitos consagrados da politicagem mundial: pau no adversário e auto-exaltação de virtudes. A chapa 2, por exemplo, acusava a 1 de ser a “queridinha do reitor” e de fazer corpo mole nas críticas. Em resposta, a chapa 1 mostrava que conseguiu conquistas consideradas importantes em sua gestão, como a reabertura de um bandejão (restaurante universitário) e a republicação do jornal do DCE.

A chapa 1 saiu ganhando: terá maior representatividade no DCE. Mas as contendas continuam, já que as outras chapas, embora minoritárias, também possuem cadeiras no diretório. “Isso é bom democraticamente, mas é difícil administrar com tantos grupos diferentes”, admite Marília.

Há também quem conteste todo esse processo eleitoral e caia de críticas aos órgãos de representação, acusando-os de serem meros palanques de partidos políticos: “O movimento estudantil está atolado no aventureirismo e no oportunismo eleitoreiro. Estamos sendo atacados de fora para dentro”, é o que se lia num folheto da Frente Estudantil Revolucionária, de março deste ano.

E assim vai caminhando o movimento estudantil na Universidade Federal Fluminense...

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