"Nem polícia, nem tráfico"

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Moradores do Complexo do Alemão exibiram cartazes contra a violência policial

No dia 27 de abril, a reportagem de AND foi ao Complexo do Alemão para conferir a denúncia de que uma pessoa havia sido baleada por PMs na localidade da Favela Nova Brasília conhecida como Largo da Vivi. Fotos publicadas na internet por moradores do Complexo davam conta de um grande protesto que começava em frente à sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do local. Quando nossa equipe chegou, a manifestação já havia tomado o asfalto e bloqueado a Estrada do Itararé, principal via do bairro.

A massa protestava em repúdio ao assassinato da aposentada Arlinda Bezerra das Chagas, de 72 anos. Ela saía para levar o neto de 10 anos até a casa da nora, quando foi baleada na barriga por um tiro que, segundo moradores, foi disparado por policiais. De acordo com a população, o PM que efetuou o disparo ainda teria lamentado: “O que foi que eu fiz, o que foi que eu fiz!?”. Um jovem que estava entre os manifestantes na Estrada do Itararé tinha suas roupas cobertas por muito sangue. Foi ele quem socorreu Dona Arlinda, ou Dona Dalva, como era conhecida, em seus últimos momentos de vida.

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PMs apontaram armas de fogo em direção aos moradores

— Ela estava nos meus braços. Ela era muito pesada e eu não consegui carregar direito. Era muito sangue. E ela dizia para não deixar ela morrer daquele jeito, que ela queria viver mais — disse o jovem não identificado.

Aos gritos de “Fora UPP!”, manifestantes seguiram em direção ao CPP — Comando de Polícia Pacificadora, que, por “coincidência”, está alocado na antiga fábrica da Coca-Cola. Antes de chegar ao local, os moradores foram atacadas com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. O protesto se dispersou e, no dia seguinte, nossa equipe voltou ao local para conversar com a família de Arlinda. Antes mesmo de chegarmos à Nova Brasília, lideranças comunitárias nos alertavam que um novo protesto estaria começando na Estrada do Itararé, a exemplo do ato no dia anterior.

O protesto teria começado em frente à antiga fábrica têxtil da Tuffy, hoje ocupada por cerca de 2 mil famílias. A violenta repressão policial que se desenrolou nos momentos seguintes resultou na morte de um rapaz de 21 anos, identificado como Carlos Alberto de Souza Marcolino, repositor de uma grande rede de supermercados do Rio, baleado por policiais com um tiro na barriga. Nossa equipe chegou ao local em meio ao que parecia ser um intenso tiroteio. No entanto, moradores nos alertavam que não se tratava de uma troca de tiros e que policiais estariam disparando munição letal contra as massas, que avançavam com paus, pedras e rojões.

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Ônibus incendiados durante os justos protestos

Ainda na Estrada Itaóca, o trânsito já estava bloqueado, visto que um pouco a frente, dois ônibus haviam sido incendiados. Nossa equipe avançou e foi interrompida por um policial, que nos apontou o fuzil e gritou “Volta, senão eu atiro!”. Em outro momento, quando nossa equipe se misturou à massa junto com midiativistas de dentro do Complexo do Alemão, PMs dispararam tiros de pistola em nossa direção. Por sorte ninguém ficou ferido.

Desesperados por conta do gás lacrimogêneo que invadiu a ocupação da Tuffy, moradores saíram revoltados engordando ainda mais a luta da população do Complexo do Alemão contra a violência policial. Mas a resposta do Estado era mais e mais repressão.

— Eu e meu primo [Carlinhos] só viemos para protestar. Ele quis descer para a Itaóca e o PM apontou o fuzil e disse para ele não ir. Ele continuou e o cara atirou na barriga dele. O próprio PM chegou perto do corpo e não deixou a gente socorrer. Isso foi do lado da UPA e eles demoraram uns dez minutos só para levar o garoto para dentro. Aí já viu, né? O que eles podem estar fazendo com o meu primo ali dentro? Isso é um absurdo. A gente desce o morro para pedir paz e toma tiro da polícia? — pergunta a jovem Rayane do Santos, de 18 anos, prima de Carlinhos.

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Ônibus incendiados durante os justos protestos

Na Unidade de Pronto-Atendimento, Carlinhos agonizava sem atendimento médico e sua família era impedida por PMs de ter acesso ao rapaz. Revoltados e receosos do que policiais poderiam estar fazendo com o jovem, moradores e parentes invadiram e reviraram a UPA em busca de Carlinhos.

Mais policiais chegaram e dispersaram a massa com bombas de gás e tiros para o alto. O jovem de 21 anos não resistiu aos ferimentos e morreu momentos depois no Hospital Geral de Bonsucesso. Na UPA, Adilson da Luz, 21 anos, e Matheus da Silva Soares, de 18 anos, foram presos por dano ao patrimônio, prestaram depoimento e foram liberados. Enquanto isso, nos arredores do Complexo do Alemão, as massas ganhavam cada vez mais posições e forçavam a polícia a recuar depois de quatro horas de intenso confronto. Nem mesmo os tiros de munição letal assustavam os manifestantes, que se multiplicavam a cada avanço.

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Mesmo depois que nossa equipe deixou o Complexo à meia-noite, outros quatro ônibus foram incendiados. Arlinda foi enterrada no dia seguinte, no cemitério de Inhaúma, sem a presença de nenhum profissional do monopólio dos meios de comunicação. Onde estavam, então? Amontoando-se na porta da UPA para fotografar, filmar e transmitir exaustivamente alguns computadores, TVs e aparelhos destruídos. Alguns jornais chegaram a noticiar a ação como um saque. No entanto, nada foi roubado. Já sobre dona Dalva, Carlinhos e a rotina de terror imposta pela UPP aos moradores do Complexo, pouco se falou.

— Como é que a gente vai viver aqui dentro só com polícia? A gente precisa é ocupar a cabeça dessa garotada. Onde estão as escolas, os hospitais? Só fizeram essa UPA que não tem nem um paracetamol para dar ao povo, que dirá um pediatra. Só fizeram maquiagem aqui. Na real, a vida do povo piorou, pois essa polícia acha que todos somos bandidos e nos tratam como tais. Chega! O Complexo do Alemão acordou e não vai mais aceitar esses assassinatos. Nem tráfico, nem polícia. Ninguém tem o direito de tirar vidas dessa forma. Televisão e computador quebrados, vidro quebrado, isso não é nada, meu filho. E as vidas das pessoas? Isso não é notícia? — pergunta o pastor Robert, liderança comunitária do Complexo do Alemão.

Os vídeos com as cenas desse intenso confronto entre a população do Complexo do Alemão e as tropas de repressão do Estado reacionário podem ser assistidos no blog de AND, em nossa fanpage no Facebook, ou diretamente no canal do jornal no Youtube (youtube.com/patrickgranja).

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