Crianças índias "pegas a laço"

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Uma história de sequestros escondida desde os anos 1800

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Gravura de Debret: soldados escoltando índios na província de Curitiba

Quase sempre era nas noites gélidas do inverno curitibano, à beira do fogão de lenha, quando ali estavam apenas ela e eu, que a avó Maria falava do assunto. “Minha mãe era índia. Foi roubada pequena e criada como branca”. O tom de voz era triste, porém conformado, sem indignação.

Hoje percebo que nossa querida velha Maria Bueno Carneiro (a mestiça que conversava com passarinho no “bosque” da casa; que sabia tudo de ervas; que fabricava pequenas flechas para eu e meu irmão Rosnel brincarmos, e que mesmo idosa subia em árvores sem precisar de escada), talvez nunca tenha chegado a entender sua ancestralidade e nem que sua mãe fora vítima de um crime.

Mais uma vítima do sequestro de crianças indígenas, bastante comum no sul do Brasil no século 19 e que durou até várias décadas depois, plenos anos 1900, em diversos pontos do país. Decorrido pouco tempo do Dia do Índio, 19 de abril, achamos oportuno resgatar das sombras esses repulsivos e trágicos acontecimentos, na presente edição de AND.

No que toca ao período menos antigo do problema, século 20, um documento deixado pelo procurador federal Jader Figueiredo Correia é impactante. Conhecido como Relatório Figueiredo, apontou todo tipo de atrocidade cometida pelo Serviço de Proteção ao Índio (parte delas sob a gerência militar) e seus aliados, principalmente fazendeiros e/ou empregados destes. (Obs: O SPI foi criado em 1910 e substituído pela Funai em 1967.) O documento foi escrito em 1967/1968, ficou desaparecido por décadas nas gavetas da ditadura e só foi achado em 2012.

O Relatório cita alguns casos de roubo de meninas e meninos índios. Como os ocorridos na década de 1940, no PR, quando “várias crianças do povo Xetá foram sequestradas pelo Estado brasileiro, através do SPI, para serem adotadas por famílias não-indígenas” (impresso do CIMI; ver em fontes, no final desta matéria).

Ou como o acontecido com a indiazinha Rosa, de 11 anos, dos bororos do MT. Flávio de Abreu, chefe da Inspetoria do SPI local, vendeu a menina a um homem conhecido por Seabra, que a escolheu na escola, dentre uma fila de pequenas alunas indígenas. Rosa foi entregue por Abreu como pagamento pela construção de um fogão.

O procurador Jader não conteve sua revolta no Relatório: “É espantoso que exista na estrutura administrativa do país uma repartição (SPI) que haja descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos.”

As caçadas

Eu era menina no tempo das conversas ao pé do fogão, e lamento ter perdido a memória da grande maioria dos fatos narrados. Só recordo de fragmentos, e mesmo assim os guardo sob dúvida. Pois afinal já sou sexagenária e todos os entes familiares, que poderiam confirmar meus farrapos de lembranças, já faleceram há muito.

De qualquer modo, vamos a eles.

Se não estou enganada (repito), minha bisavó foi roubada por brancos quando tinha 8 ou 9 anos de idade. Criada por uma família igualmente branca como serviçal, mais tarde foi entregue em casamento a João Bueno, um paupérrimo agricultor de Itaperuçu (hoje município da região de Curitiba, antes pertencente a Rio Branco do Sul).

Faleceu após muitos partos seguidos, dos quais vingaram vivos apenas minha avó e três irmãos (duas meninas e um menino). Como vó Maria nasceu em dezembro de 1900, se pode supor que minha antepassada indiazinha nasceu por volta de 1880 e foi sequestrada em 1888/1889.    

E quem era ela, a que povo pertencia? Impossível saber. Porque membros de diversos grupos tribais encontravam-se nas vizinhanças da capital do PR naquela época.

Isso devido ao fato de que fazendas de gado dos arredores de Curitiba, estrategicamente instaladas no caminho tropeiro que ligava o RS a SP (feira de animais de Sorocaba), possuíam indígenas entre seus escravos. Eram homens, mulheres e crianças guaranis e jês (caingangs, xoklengs e outros) que tinham vivido livres em território gaúcho, catarinense e paranaense, até serem aprisionados/caçados no percurso das tropas e levados a fazendas para trabalhar. Estas podiam ser tanto as localizadas na zona de Curitiba quanto em outros pontos dos estados sulinos.

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