Cais José Estelita: a praça Taksim do Recife

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Pessoas reunidas em evento cultural no Cais Estelita, região central de Recife

A praça Taksim, na Turquia, tornou-se símbolo de resistência desde junho do ano passado, quando milhares de pessoas a ocuparam em protesto contra um projeto do governo voltado fundamentalmente para abrir espaços para investimentos imobiliários. Para isso havia o projeto “Sulukule” que deslocava antigos moradores de áreas centrais para as periferias da cidade, como hoje acontece no Rio de Janeiro, além da privatização de espaços públicos.

A praça ficou famosa internacionalmente devido à mobilização popular e a truculência com que o Estado reprimiu as manifestações, e influenciou bastante as jornadas de protesto popular de junho/julho no Brasil.

O direito à cidade tem sido um tema bastante discutido em vários lugares do mundo, principalmente em cidades onde há um “desenvolvimento” desmedido e desligado da questão social, estritamente vinculado com a especulação imobiliária e, em decorrência disso, gerador de uma verticalização da cidade. No Recife, capital pernambucana, não é diferente. Mas desta vez a cidade ganhou destaque internacional.

Projeto “Novo” Recife

Quatro grandes construtoras (Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos) idealizaram um projeto que prevê a construção de 15 edifícios de até 45 andares numa área de 100 mil m², o Cais José Estelita. O terreno localiza-se numa área central e estratégica do Recife e pertencia à Rede Ferroviária Federal. Num leilão realizado em 2008 foi arrematado à União com proposta única e pelo lance inicial de 550 reais/m². As torres construídas servirão de estabelecimentos comerciais e residenciais de luxo.

Ativistas dos Direitos Urbanos manifestaram-se contra o projeto tendo em vista os impactos urbanísticos, ambientais e sociais que uma estrutura desse porte causaria na cidade. Assim como na praça Taksim, o objetivo fundamental do projeto Novo Recife é o lucro do capital monopolista e o avanço da especulação imobiliária, deixando de lado a conexão e ocupação dos espaços públicos pelas pessoas, lei fundamental no direito à cidade.

Ao menos três processos já há tempos estão encaminhados para avaliar a legalidade das obras, já que várias irregularidades foram notificadas. Porém, mesmo sem a autorização necessária para início das obras (na verdade com um alvará falsificado), a demolição dos antigos armazéns de açúcar começou na surdina da noite.

Um dos ativistas passou no local e tirou uma foto, mas os seguranças não gostaram muito da idéia, pois quebraram seu celular e o espancaram.

#OcupeEstelita

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PM cerca o Cais José Estelita

Rapidamente a notícia espalhou-se nas redes sociais, convocando todos para ocupar o Cais José Estelita, e antes do fim da noite uma centena de pessoas ocupou o local.

A cada dia de ocupação a adesão foi aumentando e também a participação e apoio de outros setores da sociedade civil. No dia 01 de junho houve uma mobilização de 10 mil pessoas num evento cultural que contou com participação de vários artistas pernambucanos que também apóiam o movimento. Karina Buhr chegou a pagar passagem dos músicos de sua banda para viajarem ao Recife.

O monopólio da imprensa, principalmente local, ataca a ocupação sem qualquer embasamento e tenta taxá-la de “uma minoria contra o desenvolvimento da cidade”. Mas vejamos um dos motivos: o Rio Mar, maior shopping center do Recife e um dos maiores do Brasil, terá uma ligação direta com as torres do Cais Estelita. Este shopping center pertence à JCPM, empresa que controla o jornal do Commercio, TV Jornal e JC News (rádio). Ademais, o financiamento destes meios através de campanhas publicitárias.

A imprensa ataca os artistas por defenderem uma causa porque vai contra seus interesses. Quer que cumpram seu “trabalho” de entretenimento e deixem para lá os debates políticos. Mas estes artistas estão demonstrando a importância de assumir uma posição no debate político que não esteja vinculada aos interesses (aí, sim!) de uma minoria atrelada ao capital estrangeiro.

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A gerência municipal, na pessoa de Geraldo Júlio/PSB, após pressão da ocupação a nível nacional, abriu diálogo com a sociedade e suspendeu o alvará de demolição. Porém os ativistas querem a anulação de todo o projeto já que este não serve à urbanização, ao desenvolvimento da cidade, à população. Apesar de Geraldo Júlio continuar com a cantilena de que nada pode fazer e limitar-se a culpar a gestão anterior que aprovou o projeto (PT, então aliado do PSB), cabe ao prefeito baseado no art. 196 da Lei de Edificações, o cancelamento de aprovação do projeto, desde que seja comprovado um erro. E são vários.

No centro da questão está a relação Público x Privado que as gerências de turno, tanto aqui quanto na Turquia, têm insistido em disfarçar a dicotomia. Em grande parte das obras recentes feitas não só na região metropolitana do Recife, mas em todo o país, realizaram-se as chamadas PPP’s (Parceria Público-Privada), que só tem aumentado o lucro do capital monopolista e, principalmente depois das obras da copa da Fifa, avançado a especulação imobiliária.

#ResisteEstelita

Da mesma forma que a praça Taksim começou com ativistas dos Direitos Urbanos e tomou proporções gigantescas, o Ocupe Estelita está ganhando cada vez mais ativistas na luta pelo direito à cidade. Assim os espaços públicos começam a ser ocupados e reivindicados pelo povo.

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