Boicote, desinvestimento e sanções

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http://www.anovademocracia.com.br/133/16.jpgA campanha do BDS contra o Estado sionista de Israel com forte apoio na Europa e USA começa a se desenvolver também no Brasil. O que nasceu como uma forma de prestar solidariedade ao povo palestino, agora passa a ser também crucial para defender as liberdades de outros povos, especialmente do brasileiro.

Em entrevista concedida a AND, a jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, membro da Frente de Defesa do Povo Palestino, analisa o tema e nos traz importantes informações.

AND - Como se chegou a esta situação de saqueio e repressão aos palestinos?

Soraya Misleh - A criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948, se deu a partir de um plano deliberado de limpeza étnica do povo palestino. Hoje, já há acesso a documentação oficial que comprova isso. Foram expulsos 800 mil desses habitantes nativos de suas terras e destruídas cerca de 500 aldeias, mediante massacres, intimidação, prisões violentas. Entre os expulsos, meu pai, avós e tios. Portanto, Israel foi fundado como um Estado homogêneo, exclusivamente judeu, sob uma ideologia cuja lógica se assenta na usurpação de terras e repressão, com o apoio das grandes potências – para atender seus interesses estratégicos na região. E com o aval da ONU (Organização das Nações Unidas), uma vez que a recomendação em 29 de novembro de 1947 de sua Assembleia Geral – presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha - de partilha da Palestina em um Estado judeu e um árabe, sem consulta aos habitantes locais, foi o sinal verde para a execução desse plano de limpeza étnica. Para os palestinos, a nakba (catástrofe).

AND - Podemos dizer que Israel tem transformado os palestinos em cobaias para o desenvolvimento de armas e sistemas de repressão?

S.M. - De fato. Os palestinos são verdadeiros laboratórios humanos em que são testadas as tecnologias militares israelenses para posterior venda ao mundo. Sobretudo após os fracassados acordos de Oslo entre a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e Israel, em setembro de 1993, a potência que ocupa a Palestina voltou sua economia totalmente a esse tipo de tecnologia. Hoje, 70% do que desenvolve destina-se à exportação. O show room são os palestinos, exemplos são os ataques a Gaza, com veículos aéreos não tripulados vendidos depois ao mundo, inclusive ao Brasil, por acordos militares com o governo federal.

AND - Fale sobre a campanha BDS.

S.M. - A campanha de BDS (boicotes, desinvestimento e sanções) a Israel atende a um chamado da sociedade civil palestina feito em 2005. Traz entre as reivindicações fundamentais o fim da ocupação de terras palestinas e colonização; a derrubada do muro do apartheid; respeito ao direito de retorno dos milhares de refugiados as suas terras e propriedades; e a garantia de igualdade de direitos civis a todos os habitantes do território histórico da Palestina, independentemente de religião ou etnia. A campanha baseia-se no movimento que contribuiu para pôr fim ao apartheid na África do Sul nos anos 1990 e como tal propõe como forma de pressão o boicote econômico, cultural e esportivo. No Brasil, fortalecer esse chamado é fundamental, uma vez que o País se tornou o segundo maior importador de tecnologias militares de Israel e continua a ampliar os acordos militares com a potência que ocupa a Palestina. Muitas dessas tecnologias estarão a serviço da repressão às manifestações na Copa e ficarão como “legado”.

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AND - Que tipo de negócios e acordos?

S.M. - Contratos militares entre Israel e Brasil vêm sendo firmados. Tais contratos vêm sendo facilitados por um acordo de cooperação de segurança firmado entre a potência que ocupa a Palestina e o Executivo Federal em novembro de 2010. Fortalecendo essa parceria, as Forças Armadas brasileiras abriram um escritório em Tel Aviv, atualmente capital de Israel, em 2003. E tem havido constantes intercâmbios, com delegações daqui sendo enviadas para Israel e de lá sendo acolhidas no território nacional – o qual tem servido como ponte para que empresas israelenses entrem em contato com países latino-americanos, conforme declarações dadas publicamente por autoridades brasileiras. Complementa esse apoio a instalação no País de indústrias especializadas em tecnologia de defesa, como a israelense Elbit Systems em Porto Alegre (RS). A Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) mantém contratos com tal companhia, que constrói os famosos Vants (veículos aéreos não tripulados) utilizados nos ataques à faixa de Gaza. É uma das 12 companhias envolvidas na construção do muro do apartheid, na Cisjordânia, na Palestina ocupada militarmente por Israel. No Brasil, há 15 anos, a empresa se faz presente por meio das subsidiárias AEL, Periscópio Equipamentos Optrônicos S/A e Ares Aeroespacial. Através dessa última, recentemente, a Elbit ganhou dois novos contratos milionários com o exército brasileiro. E o governo do Rio Grande do Sul assinou um acordo com Israel em abril de 2013 para expandir sua presença no Brasil, com um projeto de centro aeroespacial baseado na AEL em Porto Alegre. Esse projeto conta com financiamento do governo brasileiro – estavam previstos R$ 19,4 milhões, via Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), dos quais até o momento foram liberados cerca de R$ 5 milhões. Essa expansão conta ainda com o aval da prefeitura de Porto Alegre. Com isso, a capital gaúcha pode vir a se tornar o polo de pesquisa militar israelense mais importante no exterior.

Mais outros três contratos militares foram firmados somente em 2013, para controle de fronteiras (Sisfron), drones e controle aéreo, com financiamento do governo federal.

Os governos paulista e fluminense também têm firmado acordos com Israel para compra de tecnologias militares. O Rio de Janeiro, por exemplo, comprou oito novos ‘caveirões’ (blindados usados pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais – Bope) e São Paulo negociou a aquisição de óculos com microcâmeras acopladas para envio de informações em tempo real ao banco de dados da polícia. Israel também tem oferecido treinamento às forças de repressão brasileiras. Tecnologias e “capacitação” que são utilizadas no genocídio da população pobre e negra no Brasil e na repressão diante das manifestações legítimas que têm tomado as ruas do País.

AND - Os militantes da campanha BDS mundo afora convocam para boicotar produtos de empresas israelenses, principalmente as diretamente implicadas na repressão e o saqueio, e as instaladas em assentamentos. Aqui no Brasil quais são essas empresas alvo?

S.M. - Entre os produtos encontrados no Brasil, estão os da marca Café Três Corações, cuja empresa firmou joint venture com a israelense Strauss Coffee, que teria divulgado em seu site em hebraico a cooperação com o exército sionista. Pela colaboração, a marca vem sendo boicotada em países da Europa. O mesmo tem ocorrido em relação à Sodastream, cuja fábrica está instalada em assentamento israelense na Cisjordânia. A marca produz máquina de gaseificação caseira, para os consumidores fazerem refrigerante em casa. A campanha contra a Sodastream tornou-se conhecida em janeiro último, quando a atriz estadunidense Scarlett Johansson anunciou que seria garota-propaganda da marca. Desde 2007, ela era embaixadora mundial da ONG de Direitos Humanos Oxfam, contrato que foi rompido mediante pressão do movimento BDS. No Brasil, a Sodastream é vendida nos principais shopping centers de luxo, nas lojas Spicy.

Nos serviços públicos, Israel também se faz presente. Em Campo Grande (MS), a Águas Guariroba, empresa privada responsável pelos serviços de água e de esgoto desde 2000, será a primeira companhia do setor no Brasil a utilizar um sistema desenvolvido pela empresa Israelense Ta Ka Du para monitorar e analisar a eficiência da distribuição de água, conforme contrato firmado em janeiro último. E em Porto Alegre, a prefeitura firmou acordo com a israelense Moovit no mesmo mês, lançando um aplicativo da empresa voltado à mobilidade urbana. Ainda como parte da investida do Estado de Israel no mercado brasileiro – e da cumplicidade do Executivo Federal com o apartheid a que estão submetidos os palestinos –, o governo Dilma está em tratativas com a empresa de abastecimento de água israelense Mekorot para convênios de cooperação via Ministério da Pesca e Aquicultura. A Mekorot é responsável por manter os palestinos praticamente sem acesso à água, enquanto em assentamentos israelenses luxuosos há abundância do bem essencial à vida. Em Gaza, pescadores são impedidos pelo bloqueio assassino de Israel de ter garantida subsistência, enquanto é negociada a cooperação entre Ministério responsável pelo desenvolvimento do setor no Brasil e a Mekorot.

E em 2007, o governo brasileiro ratificou o Tratado de Livre Comércio Israel-Mercosul, o qual inclui produtos e serviços de assentamentos em território palestino ocupado militarmente por Israel. Diante de tudo isso, o chamado é por fortalecer a campanha BDS no Brasil, cujo mote é embargo militar a Israel já.

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