Há muito tempo, nas águas do Ceará

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Há muito tempo, nas águas da Guanabara,
o Dragão do Mar reapareceu
na figura de um bravo feiticeiro...

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Poucos não conhecem estes versos de O mestre-sala dos mares, belíssima homenagem de Aldir Blanc e João Bosco a João Cândido e à Revolta da Chibata.

O que bem menos gente sabe é que Dragão do Mar se escreve com iniciais maiúsculas – e não minúsculas, como frequentemente se vê em sites e encartes de discos. Afinal, não se trata de nenhum réptil marinho aparentado com o monstro do Lago Ness, mas da alcunha pela qual ficou conhecido outro herói popular homenageado na letra de Aldir: Francisco José do Nascimento (1839-1914), cuja morte completou, há pouco, cem anos.

Esse jangadeiro mulato nascido em Canoa Quebrada (CE) liderou, em 1881, ao lado do capataz negro José Luis Napoleão, um bloqueio ao porto de Fortaleza para impedir a partida de navios carregados de homens e mulheres que seriam vendidos como escravos no centro-sul do Brasil. Seu gesto foi decisivo para que, respectivamente em 1883 e 1884, Fortaleza primeiro e o Ceará depois se tornassem a primeira capital e o primeiro estado (ou província, pelo nome da época) do país a abolir a escravidão.

A vida do Dragão do Mar foi marcada por todas as adversidades que comumente atingem os homens simples que compõem a maioria trabalhadora da população brasileira. Aos 8 anos, perdeu o pai, Manoel, morto nos seringais da Amazônia, para onde partira em busca de uma vida menos árdua que a de pescador. Quem o criou foi a mãe, rendeira, originando a outra alcunha pela qual ficaria conhecido: Chico da Matilde.

Trabalhando desde criança nas lides do mar, Francisco só pôde aprender a ler aos 20 anos. Foi pescador e marinheiro, enveredando também pela construção quando das obras do porto de Fortaleza, em 1859. Em 1874, foi nomeado prático, o profissional que atraca os navios no porto. Isso lhe trouxe algum conforto material, já que, por sua importância na atividade portuária e grau de especialização, a praticagem sempre foi bem remunerada.

Mas essa capacidade de superação não era o maior dos méritos de Francisco nem o que o levou a figurar na letra de O mestre-sala dos mares. Ele era, antes de tudo, um homem de princípios. E na hora de escolher entre o cargo obtido por mérito a duras penas e a lealdade a suas convicções, não hesitou: em 1881, quando os latifundiários cearenses, impossibilitados de manter seus escravos em razão da seca de 1877-79, passaram a vendê-los para Minas, Rio e São Paulo, fechou o porto aos navios que vinham embarcá-los ou desembarcá-los.

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