O legado da Copa das mortes

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Imagem do trágico desabamento

Eram aproximadamente 15 horas de 3 de julho quando o colaborador do AND e membro do Coletivo Mariachi, Rafael Barra, telefonou informando que um viaduto havia desabado em Belo Horizonte (MG) naquele exato momento. Um viaduto em construção desabou sobre veículos. Falava-se em duas mortes. O trânsito na Avenida Pedro I, próximo ao estádio Mineirão, estava totalmente engarrafado. As equipes de reportagem sequer haviam chegado ao local.

Essas foram as primeiras informações que recebemos sobre esse que foi mais um desastre anunciado da Copa das mortes. O viaduto em construção na Avenida Pedro I, que integra o Projeto da Copa e atenderia ao sistema BRT Move de transporte coletivo, cedeu e desabou soterrando sob toneladas de concreto dois caminhões, um carro de passeio e um ônibus.

O ônibus era guiado pela motorista Hanna Cristina Soares, de 25 anos, que naquele dia levara sua filha de 5 anos para acompanhá-la no trabalho. O viaduto desabou quando o ônibus estava prestes a iniciar seu cruzamento. Em atitude heroica a motorista Hanna acionou os freios e deu uma guinada no volante para a direita protegendo os passageiros e sacrificando sua própria vida. Os passageiros também relataram que Hanna ainda empurrou sua filha para que não fosse atingida. A morte de Hanna foi a primeira a ser anunciada naquele trágico dia. As imagens da agonia de seus últimos momentos causaram a comoção de milhares de pessoas que viram os vídeos compartilhados nas redes sociais.

Charlys Moreira do Nascimento, de 25 anos, trabalhador do setor da construção civil, dirigia seu carro para buscar a esposa que se encontrava próximo ao local do desabamento. Seu carro foi totalmente soterrado pelo viaduto. Preocupada com a demora de Charlys, sua esposa deslocou-se até o local da queda e reconheceu por uma foto da placa o carro do marido sob os escombros.

Dois jovens trabalhadores mortos, outros 23 passageiros do ônibus atingido ficaram feridos. E a tragédia só não causou mais mortes porque os operários que trabalhavam na construção do viaduto, ao ouvirem os estalos da estrutura, correram e distanciaram antes do viaduto ruir e os caminhões soterrados não estavam ocupados naquele momento. Vídeos do instante da queda mostram que segundos antes do desabamento, um ônibus do BRT repleto de passageiros passou sob o viaduto.

Por volta das 17 horas a polícia havia isolado toda a área do desabamento. Os operários que trabalhavam na construção do viaduto, revoltados, agitavam palavras de ordem contra a Fifa. Rapidamente, seguindo o exemplo do que tem ocorrido em todo o país, trabalhadores e moradores da região organizaram-se e iniciaram um protesto. “Esse é o país da Copa”, “Desastre na Copa – coloca na conta da Fifa”, “Melhoria é tirar vidas?”, protestavam através de cartazes.

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Omissão e corrupção

Em fevereiro deste ano, o inacabado viaduto Montese, localizado na mesma Avenida Pedro I, foi interditado após um deslocamento de aproximadamente 30 centímetros em sua estrutura. O fluxo de veículos das pistas mistas teve que ser suspenso por uma semana. Na ocasião, a Superintendência de Desenvolvimento da Capital  - Sudecap havia descartado o risco de queda da estrutura.

A obra dos viadutos é parte do pacote de mobilidade do Projeto Copa e contou com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC do governo federal e sua execução de responsabilidade da empreiteira Cowan. Aldo Rebelo (pecedobê), ministro dos esportes, em visita a Belo Horizonte, declarou entusiasmo pela cidade ter cronograma de obras para Copa da Fifa mais adiantado. Em solenidade com Marcio Lacerda, em 8 de junho desse ano, Dilma Rousseff comemorou o cumprimento de 96% das obras previstas na Matriz de Responsabilidades para a Copa do Mundo Fifa 2014 na cidade.

Após o desabamento, o prefeito se apressou em defender a Cowan declarando que o projeto da obra “foi feito por uma empresa renomada que ganhou uma licitação. A empresa de construção também tem muita tradição e sucesso no mercado”. Assim como Edson Pelé afirmou ser a morte de um operário em obra de estádio da Copa “normal” e se mostrar mais preocupado com os atrasos nas obras dos aeroportos, o gerente municipal da capital mineira declarou que “acidentes como esse infelizmente acontecem”.

A mesma “renomada” empresa citada por Lacerda, em consórcio formado com a empreiteira Delta Construções, segundo denúncias veiculadas em diversos veículos da imprensa, também “ganhou uma licitação” em abril de 2012 em Belo Horizonte no valor de R$ 170 milhões antes mesmo de existir legalmente. Na ocasião, Márcio Lacera assinou contratos para “a ampliação das avenidas Antônio Carlos e Pedro I — onde o viaduto caiu — para a implantação do sistema BRT, três meses antes de o Consórcio Integração ser constituído e ter um CNPJ” [fonte: oglobo.globo.com em 3 de julho de 2014].

O mesmo dueto de empreiteiras ainda esteve envolvido em outro caso de concessões milionárias com os gerenciamentos Paes e Cabral no Rio de Janeiro.

Com toda a comoção nacional e internacional causada pelo desabamento do viaduto, ainda houve quem, como o gerente municipal Lacerda, pedisse pressa para a remoção dos escombros para permitir o tráfego na Avenida Pedro I que dá acesso ao Aeroporto de Confins e ao Mineirão, onde ocorreria no dia 8 o jogo da Copa entre as seleções do Brasil e Alemanha. O Ministério Público Estadual teve que intervir para impedir a remoção dos escombros e permitir a continuidade das investigações sobre o desabamento. Dilma Rousseff apenas “lamentou” o desastre. Não houve sequer um minuto de silêncio em memória dos mortos pelo desabamento antes do apito inicial do jogo que terminou com a vergonhosa derrota da seleção brasileira por 7 x 1.

As investigações e estudos seguem ocorrendo e não há prazo fixado para anúncio das conclusões. Teme-se que se repita a mesma impunidade do desabamento do Pavilhão da Gameleira, ocorrido em 1971, também em BH, que matou dezenas de operários (ver Desabamento da Gameleira: Criminosos à solta, em AND nº 30, julho de 2006).

A tragédia anunciada do desabamento do viaduto em Belo Horizonte soma-se às 14 mortes de operários nos estádios da Copa da Fifa, a morte do operário na obra do monotrilho em São Paulo; a morte de um operário em obra do aeroporto de Campinas; às mortes e mutilações não anunciadas, ocultadas pelos monopólios e construtoras, disfarçadas de “acidentes de trabalho”; aos milhares de desabrigados, agredidos, desaparecidos, torturados e mortos pelas UPPs; pelas ações de remoções contra milhares de famílias; e dos criminalizados, perseguidos, processados, presos, torturados e mortos nos protestos desencadeados com as jornadas de junho de 2013.

Dor, revolta e protestos

No dia 5 de julho, manifestantes protestaram em frente a sede da empresa Cowan, na rua General Aranha, na Pampulha. Com faixas e cartazes denunciando as mortes da Copa da Fifa, os manifestantes também agitaram palavras de ordem contra a repressão policial e contra a farsa eleitoral.

Na noite de 9 de julho, familiares e amigos da motorista Hanna Cristina realizaram uma passeata após a missa de sétimo dia em sua memória. Dezenas de pessoas, incluindo organizações populares solidárias às famílias de Hanna e Charlys, como o sindicato Marreta e a Liga Operária, participaram da manifestação que se dirigiu ao local do desabamento do viaduto.

Membros do comitê de apoio ao AND em Belo Horizonte acompanharam a passeata.

É um pedido de justiça. É para pedir que isso não fique impune – declarou Analisa Soares, mãe de Hanna.

O pai da jovem motorista tentou falar durante a missa. Emocionado, não conseguiu, mas foi aplaudido por todos.

Cartazes com mensagens de solidariedade e velas foram colocados no local do desabamento. Uma palavra de dor e revolta ecoou em uníssona repetida por todos: “Justiça! Justiça! Justiça!”.

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