“Invadiram minha aula e exigiram que eu os acompanhasse”

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No dia 13 de maio de 2014 dois agentes da polícia reservada adentraram a sala de aula da UFFS – Universidade da Fronteira Sul, no Paraná, onde o professor Elemar Cezimbra ministrava aula de Realidade do Campo Brasileiro, e retiraram o professor da sala, o levando para sua casa, sem maiores explicações, com argumento que o processo corria em segredo de justiça.

Uma assembléia em repúdio à invasão da Universidade pela polícia e em solidariedade a Elemar foi realizada. O professor nos recebeu para uma entrevista, na qual esclareceu melhor a situação, bem como a realidade da luta pela terra na região.

SRG: O que aconteceu no dia 13 de maio?

Elemar: Neste dia dois agentes do serviço reservado da PM, conhecido como P2, adentraram a Universidade, invadiram, porque a polícia não pode entrar numa Universidade Federal sem autorização judicial, nem federal, muito menos da direção do campus, e se dirigiram à sala que eu estava dando aula para o curso de Agronomia, sobre a Realidade do Campo Brasileiro. Insistiram, exigiram que eu viesse acompanhando eles até minha casa, que eles tinham um mandado de busca e apreensão sobre armas, drogas e munição. E, qualquer outra coisa que pudesse caracterizar ligação com a retomada da luta pela terra, com um grande acampamento, que hoje já está chegando a duas mil e quinhentas famílias, próximo de um latifúndio aqui que é um dos maiores do Sul do Brasil.

Sou um militante da Reforma Agrária desde a época de estudante, continuo atuando no MST da região e a Universidade funciona dentro de um assentamento. A polícia e a hierarquia da região acharam por bem desencadear uma operação com pretexto ambiental, atrás de madeireiro e serrarias, mas o mandado era muito subjetivo. Aí me tiraram da sala de aula, vieram na minha casa, revistaram tudo, viraram peça por peça, gaveta por gaveta, tudo o que poderia ter indício de alguma coisa que procuravam, não achando nada. Essa operação também foi em outros assentamentos aqui. Agiram com muita violência, prenderam um casal idoso, acusado de porte ilegal de arma e nenhum tinha arma. Invadiram outras casas com mais de 150 policiais.

Entendo que essa operação também atingiu a Universidade onde eu hoje sou professor. O objetivo era desmoralizar e criminalizar o MST, mas na minha interpretação tinha objetivo de me atingir. Eles têm que achar um culpado e, como fui dirigente até esses dias, continuam achando que mesmo como professor da Universidade continuo militando na Reforma Agrária. Acompanho, faço assessoria, analiso, ajudo a fundar cooperativa. A Universidade faz extensão universitária, então eles queriam também atingi-la.

A polícia revirou toda minha casa, mas não conseguiu o que eles tinham projetado, que era uma grande manchete. E desconfio que poderiam plantar alguma coisa, que não é nada estranho em operações policiais. Mas não conseguiram porque eu tive acompanhamento de um advogado e também dois trabalhadores que estavam fazendo uma obra próximo da minha casa.

Uma operação que não deu em nada, uma articulação da oligarquia regional, um latifúndio, conhecido como Araupel, com o judiciário, todos esses setores.

Então você atribui essa operação a tua história de luta pela terra e ao compromisso que a UFFS tem com os movimentos sociais da região?

A Universidade foi criada pelo movimento social. Vários movimentos sociais, como sindicais, da reforma agrária, contra barragem, de mulheres e juventude. Houve uma participação suprapartidária, das pastorais sociais. Na sua carta fundante ela está lá como uma Universidade popular, pública, gratuita e ela tem que desenvolver a região. Mas o caráter popular dela ligado ao projeto de classe dos movimentos sociais é o que está gerando descontentamento nas oligarquias locais. E também porque sempre mandaram em tudo e agora a Universidade tem autonomia, eles não conseguem mandar, não conseguem botar professor, não conseguem tiram professor, não conseguem colocar diretor, nem tirar diretor, não conseguem controlar o conteúdo das aulas. Então isso está deixando a oligarquia local enraivecida. E a Universidade tem feito um esforço grande para se articular num trabalho com os indígenas. Temos muitos indígenas já estudando na Universidade. Aqui no nosso campus em Laranjeira do Sul noventa por cento dos alunos vem da escola pública.

Com essa operação policial não ficou evidente que o poder judiciário local tem ligação orgânica com a oligarquia local, com o latifúndio e com a própria Araupel?

Isso está evidente. O movimento fez as primeiras investidas contra a Araupel em 2006 com mais de três mil famílias e depois fez várias tentativas de tomá-lo. É um latifúndio com mais de cem mil hectares, todos grilados. E é uma empresa muito violenta na região. Mandava e manda em todo mundo. Manda no poder municipal, manda no judiciário, manda na polícia militar em Quedas do Iguaçu, onde fica sua sede, e tem uma ramificação na região. Eles tiraram toda a madeira de lei e agora estão plantando pinus, eucalipto. Eles ampliaram essa grilagem nos anos oitenta, expulsando muitos camponeses em Espigão do Iguaçu. A Araupel atinge cinco municípios da região: Rio Bonito, Nova Laranjeiras, Quedas do Iguaçu, Espigão do Iguaçu e Três Barras do Paraná. E hoje é sabido: lá em Quedas do Iguaçu a área de lazer da polícia militar foi feita pela Araupel. A área de festa do Fórum foi feita pela Araupel. Então é uma empresa que tem um poder. Eles sempre mandaram, sempre tiveram uma milícia poderosa.

Em 2006 eles chegaram a ter mais de sessenta homens fardados. Uma articulação muito próxima comandada por coronéis aposentados. Então é uma empresa poderosa, ela manda,  matou muita gente aqui na região. Eles começaram de fato a não ter mais toda aquela força que tinha aqui na região em função do Movimento Sem Terra ser forte, organizado. Esse latifúndio é o sonho de todo camponês. É importante entender que ele está no lado norte do rio Iguaçu. Ao sul, que é o Sudoeste do Paraná, houveram lutas importantes nos anos de 1950, como a guerra dos colonos, que também obrigou o governo da época, de Moisés Lupion, a fazer quase que uma reforma agrária. Do lado de cima do Iguaçu sobrou esse latifúndio enorme. Eles inclusive ampliaram isso no período da ditadura militar. O Incra fez um estudo da cadeia dominial e comprovou a grilagem de terra aí recentemente. Está no judiciário, já perderam algumas ações. Nessa região não tem como avançar processo democrático, avançar processo educacional, senão fazendo enfrentamento com o latifúndio.

Você acha que existe democracia enquanto a população não tem acesso aos meios de produção, principalmente a terra?

É, já historicamente o conceito de democracia que está difundido é um conceito na forma da lei. Ele existe formalmente, inclusive garantindo todas as funções burguesas como direitos universais, mas são aspectos formais. Sabemos que se quisermos dar um caráter substantivo para a democracia em toda a América Latina, sem exceção, passa por fazer a reforma agrária.

*Sebastião Rodrigues Gonçalves é professor de Filosofia e membro do conselho editorial de AND.

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