Legado mortal da Copa do Mundo*

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Pelo menos duas pessoas morreram e dezenove ficaram feridas em Belo Horizonte, uma das cidades-sede da Copa do Mundo, após o colapso repentino de um viaduto inacabado. O viaduto foi construído para operar as linhas de ônibus para os jogos da Copa do Mundo que seriam realizados no estádio de futebol Mineirão, localizado a menos de três quilômetros de distância. Em vez disso, inacabado, o viaduto caiu sobre dois caminhões de construção, um ônibus urbano e um automóvel.

Esta tragédia agora lança uma sombra sobre o restante do torneio. É uma tragédia não só porque aconteceu, mas porque não tinha necessidade de acontecer. Políticos do Brasil e, assumidamente, a FIFA também, tinham sido avisados desde janeiro passado que esta era uma possibilidade, de acordo com Leonardo Bertozzi, da ESPN. Não se enganem sobre isso: esse sangue está nas mãos do corpo diretivo do futebol internacional da FIFA e do governista Partido dos Trabalhadores, do Brasil. Concluir de outra forma seria um ato de cegueira, não só por causa do alerta precoce. Seria um ato de cegueira pela maneira que projetos de infraestrutura foram levados às pressas, com pouca consideração pela segurança da periferia ou pelos direitos dos trabalhadores.

No período que antecedeu a Copa do Mundo, a FIFA fez uma blitz de relações públicas contra a falta de preparação para o torneio no Brasil. Esta é uma tática da FIFA, verdadeira e já experimentada, que eu vi em primeira mão na África do Sul, em 2010. Usando uma combinação de ameaças, insultos e humilhação pública, eles trazem o seu chicote na mão a brandir para baixo e em cima de um país anfitrião, exigindo que a infra-estrutura prometida, a segurança e os estádios sejam construídos no tempo e dentro do cronograma.

Tudo começou em janeiro, com o reptiliano chefe da FIFA, Joseph Blatter, dizendo que o Brasil “é o país que está mais atrasado desde que eu estou na FIFA”.  Isso foi apenas o começo. No que foi descrito como uma “dura advertência” pela editoria de esportes da NBC em um título tal como “FIFA adverte cidades-sede no Brasil, e a corrida para terminar locais continua”, o secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, disse em fevereiro que “nenhuma das doze cidades pode se dar ao luxo de sentar e relaxar”. Em uma cidade anfitriã, Curitiba, foi dito que os seus jogos seriam transferidos se não fosse intensificado o ritmo das obras e que este seria “monitorado diariamente”. Em março, Valcke disse especificamente que a infra-estrutura de transportes do Brasil precisava de “um pontapé no traseiro”. Em maio, Valcke disse: “Nós já passamos por um inferno” no Brasil. Há 13 dias do início da Copa, Valcke descreveu o país como sendo uma “corrida contra o tempo”. Mais notoriamente, em abril, Valcke parecia ansiar pela volta da ditadura no Brasil, porque disse que “trabalhar com governos democraticamente eleitos podem complicar a organização de torneios”.

A FIFA estava chicoteando o governo brasileiro para reprimir greves e editar regulamentos de segurança para obter os enormes projetos de construção, como se os trabalhadores estivessem menos motivados para terminar. Os trabalhadores suportaram  84  horas semanais de trabalho, rotação de 24h por dia, turnos de 7 dias por semana. Isso não foi implementado sem resistência. Havia uma série de greves em resposta aos aumentos da velocidade e das condições inseguras de trabalho. De acordo com os trabalhadores com quem conversei, eles também lutavam contra o transbordamento de banheiros e a qualidade da comida do restaurante, que me descreveram como “infestada de vermes.”

Como Antônio de Souza Ramalho, presidente do Sintracon-SP/Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo, disse à Al Jazeera, no início desta semana: “Os trabalhadores da construção civil estão entre os mais pobres no Brasil e muitas vezes não estão conscientes dos seus direitos. E a Fifa nunca demonstrou qualquer preocupação com os direitos dos trabalhadores”.

Ao invés de responder a estas condições, fiel a forma, a resposta do governo foi demitir sumariamente os queixosos ou prometer bônus para o trabalho extra. Eles estavam usando a cenoura ou a vara, com o objetivo de obter esses projetos prontos, por qualquer meio necessário. Estas foram as ordens de Zurique para Brasília, e a presidente Dilma Rousseff assumiu o compromisso de tornar isso uma realidade.

A pressão sobre o Partido dos Trabalhadores não veio só da FIFA, mas também do Brasil todo-poderoso, com a indústria da construção politicamente conectada. A todo-poderosa construtora brasileira ‘Odebrecht’ empregou sua própria força de segurança privada para se certificar de que as câmeras fossem mantidas à distância e os trabalhadores mantivessem suas cabeças para baixo. Já vimos os frutos amargos dessas prioridades nos meses anteriores, quando 9 trabalhadores morreram em acidentes de construção na corrida para fornecer a “infra-estrutura de qualidade FIFA”.

Conversei com Christopher Gaffney, um jornalista e ativista carioca que tem acompanhado o planejamento para a Copa do Mundo. Gaffney me disse: “As repercussões do colapso irão revelar o grau em que as autoridades brasileiras podem ser responsabilizadas pelos projetos associados à Copa do Mundo. Estes projetos, que foram apressadamente concebidos e rapidamente construídos têm benefícios duvidosos a longo prazo e quando o básico falha é ainda mais difícil ter confiança no chamado legado”.

O viaduto inacabado havia sido elogiado como mais um dos vários projetos de infra-estrutura a ser legado pela Copa do Mundo e que beneficiariam todos os brasileiros. Isso claramente não é o caso. Como as crianças das favelas, que vivem sob ocupação militar, os mortos ou feridos pela polícia desde o início da Copa do Mundo, a tragédia de hoje em Belo Horizonte não precisava acontecer. Esses são os resultados  quando  um vertiginoso neoliberalismo chega com uma bola de futebol em uma mão e uma arma na outra.

*O título original do artigo é O legado mortal da Copa do Mundo continua com o colapso do Viaduto em cidade- sede no Brasil

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