Luta camponesa conquista estradas e pontes

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Ocupação da prefeitura de Ariquemes

Cerca de 200 famílias tomaram terras públicas abandonadas em 2003, 2005 e 2012, em Ariquemes, estado de Rondônia. São as áreas Canaã, Raio do Sol e Renato Nathan 2.

Os camponeses cortaram a terra por conta própria, produzem, resistem e, apesar de passados anos da conquista das terras, seguem com ameaças de despejos, pois suas posses ainda não foram regularizadas. A produção dessas áreas não tem assistência técnica, possui poucos maquinários, comprados pelas próprias famílias, e ajudam a abastecer os municípios de Theobroma, Jaru, Ariquemes, Porto Velho e até o estado do Acre. Os camponeses movimentam o comércio das cidades.

Nos últimos três anos a prefeitura de Ariquemes não tinha feito obras nas estradas e pontes do Canaã, Raio do Sol e Renato Nathan 2, apenas tapa-buracos. Na época das chuvas, famílias tinham que carregar compra nas costas, os ônibus escolares atolavam e os alunos tinham que voltar a pé para casa.

Nos últimos três anos, várias comissões de camponeses reuniram-se com vereadores, secretário de obras e com o prefeito Lorival Amorim (PMN), mas só conseguiram promessas e enrolação.

Enquanto isso, para os latifundiários a prefeitura arruma as estradas todo ano, faz um serviço bem feito, até dentro das propriedades, o que é proibido. Em junho deste ano, um grande fazendeiro, vizinho da Raio do Sol, conseguiu que as máquinas públicas reformassem 10 quilômetros que não estavam previstos. E estas vias nem estavam tão ruins.

Não é a toa que os camponeses dizem que a secretaria de obras é na verdade uma empreiteira dos latifundiários.

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Principais ações da jornada de luta

No dia 10 de maio, 15 mães e pais de alunos da Canaã, Raio do Sol e Renato Nathan 2 reuniram- se para discutir a construção de uma escola do ensino infantil e fundamental. Os camponeses também debateram sobre as estradas e pontes e decidiram formar uma comissão para ir até Ariquemes e dar um prazo para o prefeito fazer o serviço com qualidade.

No dia 22 de maio, 27 moradores das áreas foram na câmara de vereadores e na prefeitura. Deu trabalho, mas conseguiram reunir com o prefeito Lorival. O prefeito disse ter que esperar uma emenda de um deputado, mas caso ela não se concretizasse, colocaria as máquinas da prefeitura para trabalhar nas áreas. A comissão comunicou a Lorival que se ele não cumprisse mais esta promessa, as famílias fechariam Ariquemes. “Somos aqueles camponeses que fecharam a BR por mais de 10 horas em 2012 e não somos políticos, nós cumprimos nossa palavra”.

Em junho e julho, máquinas da prefeitura estavam reformando estradas numa área de muitas fazendas, vizinha da Raio do Sol. Camponeses perguntaram ao encarregado das obras para onde iriam depois, mas ele não informou.

No dia 6 de julho, foi decidido em assembleia fechar as máquinas da prefeitura que estavam trabalhando nas fazendas vizinhas.

No dia 8, duas pessoas foram certificar onde estavam as máquinas, mas elas haviam acabado de ir embora. No dia seguinte, os camponeses decidiram ocupar a prefeitura. Dividiram a tarefa de convocação e se prepararam para ficar vários dias.

Em 10 de julho, cerca de 70 pessoas realizaram a ocupação. O prefeito se recusou a reunir com as famílias, nem enviou o secretário de obras. Foi o secretário de segurança que atendeu os camponeses, não ouviu suas reivindicações, foi grosseiro e ameaçou, dizendo que era policial e tinha porte de arma. Logo chegaram viaturas da guarda municipal, PM e GOE, com vários policiais fortemente armados, até com fuzis. Os trabalhadores foram despejados, mas não desistiram, passaram a noite  em frente a prefeitura. Os camponeses se organizaram em comissões para cumprir todas as tarefas da luta. Deram entrevistas em rádios, arrecadaram no comércio recurso para imprimir os panfletos, distribuíram para a população, denunciaram no Ministério Público e no Conselho Tutelar. Lorival, que tinha dito que só reuniria com os camponeses quatro dias após, terminou recebendo-os no dia 11. Ele se comprometeu a enviar as máquinas para as áreas 10 dias depois.

No dia 18 de julho, antes do prazo, as máquinas municipais começaram a chegar na Canaã e iniciaram as obras no dia 21. Os camponeses se organizaram em grupos para acompanhar as obras e travaram lutas diárias, principalmente contra o encarregado. Várias vezes tiveram que soltar foguetes e convocar às pressas todos moradores para pressionar para as máquinas a voltarem para fazerem um serviço de qualidade. As famílias fizeram questão de cozinhar para os funcionários da prefeitura, arrecadaram alimentos entre si, montaram uma escala de cozinha. É uma prova de que são trabalhadores e não “vagabundos que só pegam terra pra vender”, como mentem oportunistas, latifundiários e o monopólio de imprensa que acabam enganando muita gente nas cidades.

O trecho mais importante das obras foi o que divisa a Canaã com uma fazenda vizinha do latifundiário Ronaldo Lanes Lima. Ele invadia 30 alqueires dos camponeses, obrigando dez famílias a usarem apenas 30% de seus lotes de 10 alqueires.

As obras começaram por este trecho, mas o encarregado suspendeu, a pedido de funcionários de Ronaldo Lanes. De um total de 30 quilômetros de estrada, este trecho de menos de dois quilômetros foi o mais difícil, mas foi o que uniu mais camponeses e que teve mais luta. Os moradores tiveram que pressionar muito para que o serviço continuasse e terminou sendo o trecho mais bem construído. Durante anos os trabalhadores lutaram para tomar este pequeno pedaço de terra porque era deles por direito. Camponeses do começo ao fim da Canaã e das áreas vizinhas mais conscientes entendiam que não era uma luta só de dez famílias, era uma luta de camponeses contra latifúndio e sempre se uniram para ajudar. Este trecho de estrada termina sendo um símbolo da união e luta camponesa.

No dia 14 de agosto, moradores da  área Renato Nathan 2 perceberam uma manobra do encarregado para retirar as máquinas sem concluir o serviço acertado. Os camponeses se reuniram, apreenderam a chave de um dos caminhões e foram de moto atrás das máquinas que fugiam em disparada. Obrigaram assim o retorno dos equipamentos. Os moradores se organizaram para tentar impedir que a prefeitura retirasse as máquinas, mas, no dia seguinte, cinco caminhonetes da PM foram na área escoltar a retirada sem a conclusão do trabalho.

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Construção de estrada

Lição da luta

No final de julho e início de agosto, ocorreram cinco reuniões de grupos de moradores e uma reunião com jovens. Ao todo, 88 mulheres, homens, e jovens debateram e avaliaram a jornada de lutas. Destacaram que foi a primeira vez que tantos maquinários foram trabalhar na área e por tanto tempo. Ainda que vários trechos ficaram mal feitos ou nem foram arrumados, no geral as estradas e pontes ficaram melhores do que antes. Foram abertas estradas novas nas três áreas, com destaque para o trecho em disputa com Ronaldo Lanes.

Ficou claro que não é com apenas uma luta que conquistamos nossos direitos. É necessário uma jornada, com várias atividades, como reuniões, assembleias, negociações, divulgação, manifestação e ocupação. E que, de todas as ações, as mais combativas são as mais efetivas, as que pressionam, portanto, são as mais importantes. Não é a toa que o monopólio de comunicação, os politiqueiros e movimentos oportunistas atacam a justa violência cometida pelo povo.

Os moradores planejam uma festa para inaugurar as estradas novas, decidirão em assembleia nomes para batizá-las. É uma forma de celebrar a união, organização e a luta camponesa, fazê-la crescer. Muitos moradores ainda têm ilusão, têm fé em algum político eleitoreiro e não confiam na força do povo organizado.

É um grande desafio unir os camponeses quando não estão mais em acampamentos, já estão cada um com seu lote. A principal forma de produção deles é familiar, por isso tendem a resolver seus problemas isoladamente. A Liga dos Camponeses Pobres (LCP), que atua ativamente nestas áreas, sempre promove, consolida e amplia lutas e atividades coletivas. Sempre incentiva o povo a se preparar cada vez mais, alerta que a luta é dura, difícil, mas fica muito pior quando deixamos as coisas seguirem como estão.

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