O maior boicote da história

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Foram 38.797.556 de abstenções, votos nulos ou em branco no 1º turno das eleições presidenciais.

Rebelião em alta e eleições em baixa: assim definiu Fausto Arruda em seu artigo na última edição de AND antes do primeiro turno das eleições dos gerentes de turno do velho Estado e demais mantenedores da velha ordem em nosso país. Não poderia haver melhor definição.

Na manhã de sábado, véspera das votações, eu me dirigia acompanhado de um operário e um estudante para a Rádio Favela, no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, para participar do Programa Tribuna do Trabalhador a convite do Sindicato dos Trabalhadores da Construção de Belo Horizonte (Marreta). No caminho, uma senhora de passos rápidos, com um pontapé bem dado, arremessou longe o cavalete com a propaganda de um candidato e saiu triunfante. Comentávamos: “Isso que essa senhora fez representa a vontade da maioria da população”.

O resultado final da apuração das votações nesse primeiro turno da farsa eleitoral foi marcado pelo maior boicote na história das eleições burguesas em nosso país (até hoje...), confirmando de forma contundente esse sentimento de uma parcela cada vez maior da população e o que vínhamos analisando nos artigos de AND, nos debates nas universidades, com os operários, camponeses, professores e nas brigadas de agitação do jornal nos trens e concentrações populares. Apesar da propaganda maçante e da chantagem do voto obrigatório, apesar do simulacro de “disputa”, do bombardeio do “dever cidadão” e do “você é o responsável pelo seu voto”, o povo brasileiro respondeu, mais uma vez, com um maiúsculo NÃO.

Com o resultado final das apurações, os monopólios e marqueteiros destacaram a “virada” do candidato do PSDB para disputar o segundo turno das eleições presidenciais mais uma vez com o PT. Fazem gráficos com porcentagens baseadas em “votos válidos”.

Impossível é ocultar o acachapante resultado do rechaço à farsa eleitoral. Em 2010, a soma das abstenções, votos nulos e brancos ultrapassou os 34,2 milhões e ficaram à frente de José Serra (PSDB), que teve 33,1 milhões de votos. Dessa vez, os mais de 38 milhões de NÃO às eleições ultrapassaram com folga o segundo colocado Aécio (PSDB), que obteve 34.267.668, e ameaçam Dilma Rousseff (PT) com seus 43.267.668.

O truque dos “votos válidos”

Mas, para avaliarmos melhor esses números, primeiro desmistifiquemos a farsa dos “votos válidos”, esse truque utilizado pelo Tribunal Superior Eleitoral para ocultar o crescente número de abstenções, votos nulos e brancos. As chamadas abstenções, no linguajar do TSE, dizem respeito àquelas pessoas consideradas aptas a votar (pois possuem título de eleitor) e, ou não votam por uma decisão política de não compactuar com as eleições burguesas ou em resposta a podridão e corrupção explícita de todos os partidos que definitivamente não as representam, ou são aquelas pessoas que deixam de comparecer às urnas por outro motivo qualquer. As abstenções somaram mais de 27 milhões de pessoas no primeiro turno das eleições presidenciais. Para ser mais exato, 27.698.475.

Vejamos aqui a realidade e a maquiagem necessária à legitimidade do processo: o TSE diz que Dilma obteve 41,59% e Aécio 33,55%, quando, na verdade, suas votações em relação ao colégio eleitoral em condições de voto de 142.822.046 são, respectivamente, 30,29% e 23,99%.

Como protesto, grande número de pessoas anulou ou votou em branco. Esses votos também não são considerados “válidos” pelo TSE, mas alcançaram o significativo número de 11.099.081 de pessoas.

Somando-se as abstenções, os votos nulos ou em branco, atinge-se a maciça cifra de 38.797.556. E se for acrescido a esses aqueles que não votam há muito tempo e que por isso não constam mais nos cadastros do TSE como eleitores, esse número ultrapassaria, certamente, os 40 milhões. E mesmo que ainda se questione o fato de não haver atualizações do TSE sobre o número de eleitores falecidos no último período, não haveria grande quebra no cômputo geral do rechaço popular às eleições.

A parcela mais consciente da população que se recusa a votar é crescente e os últimos acontecimentos desde as jornadas de protestos de junho/julho de 2013 contribuíram para a elevação da consciência de um número cada vez maior de pessoas. No caminho oposto dos debates vazios e trocas de baixarias pelos candidatos de todas as siglas do Partido Único, o povo seguiu combatendo por dignidade, por moradia, por terra, por melhores salários e condições de trabalho, pelos direitos negados e atacados por todos esses candidatos e seus partidos.

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Campanha nacional ‘Não vote!’

As eleições foram precedidas pela mais expressiva campanha de boicote organizada por diversos coletivos e organizações populares no campo e na cidade que esclareceram milhares de pessoas da necessidade de boicotar o processo farsante imposto pelas classes reacionárias que só serve para perpetuar a ditadura de um pequeno grupo de grandes burgueses, latifundiários e serviçais do imperialismo sobre a maioria absoluta da população oprimida e explorada.

Contra a farsa eleitoral se levantaram as consignas “Não vote, lute!”, “Eleição não, revolução sim!”, “Não vote, lute pela revolução!”, “Boicote as eleições!”, “Não vote! Aumentar as tomadas de terras dos latifúndios!”, além de outras manifestações defensivas conclamando o “Vote Nulo!” e pelo voto em branco, que argumentam o fato da sua obrigatoriedade.

O processo eleitoral ainda em curso também tem servido para comprovar algumas questões que vínhamos tratando desde as jornadas de protestos desencadeadas em 2013.

Fracasso eleitoral

E a “Copa das Copas”? Nenhum candidato conseguiu utilizá-la como plataforma. O PT fugiu até mesmo de citar o evento na campanha e nos debates. O pecedobê, ainda que na cadeira do ministério dos esportes, para eles houve Copa? Até mesmo na campanha de seu candidato eleito para o governo do Maranhão, a Copa não existiu. Ficaram os bilhões para a Fifa, as empreiteiras e o lucro para os monopólios. Sobraram as prisões, repressão e torturas contra os lutadores do povo.

O cacarejo e fogo de palha de “nova política” também não pôde se valer das jornadas de lutas da juventude combatente ou reivindicar-se representante da “voz das ruas”.

PSDB e demais reacionários recalcitrantes também não puderam atacar ou elogiar o megaevento, pois todos estavam enfronhados nas negociatas entre empreiteiras e governos que realizaram as obras. Portanto, como afirmávamos e reafirmamos, não houve Copa, pelo menos não a que os senhores eleitoreiros esperavam!

E não deixemos de citar os figurantes, que variaram entre atuações cômicas, fascistas, “moderadas”, franco-atiradores e aqueles que fazem discurso de “oposição”. Sobretudo os centristas do PSOL e PSTU, com seu discurso de “voto de protesto”, foram atropelados e varridos pelas campanhas de boicote do mesmo modo como foram rechaçados dos protestos durante os megaeventos da Fifa em 2013 e 2014. O resultado inexpressivo de suas votações já diz tudo. Mas são válidos para todo o processo podre e corrupto das eleições burguesas, dando-lhe ares de “democracia” e “disputa”. Todos deblateram contra o fundo partidário, mas o aceitam de bom grado, choramingam a “falta de espaço” no monopólio das comunicações e participam docilmente do mise-em-scéne da farsa eleitoral dizendo representar algo diferente disputando migalhas nesse circo de horrores e hipocrisia.

E como afirmávamos: “nada será como antes”. O grande NÃO à farsa eleitoral nesse primeiro turno expressa uma qualidade superior. Representa a elevação da consciência de uma grande parcela da população que somou sua revolta nas ruas nas jornadas de 2013. Revolta que se apurou e depurou nos combates contra as forças de repressão do velho Estado, contra os ataques do monopólio da imprensa e se agrupou conformando organizações forjadas nos princípios do classismo, da combatividade e do rechaço à farsa eleitoral.

A vitória do boicote

Em quatro estados o boicote superou o número de votos dos candidatos eleitos. No Rio de Janeiro, o total de abstenções, votos nulos e brancos foi de 4.142.231, superando o primeiro colocado Pezão, que obteve 3.242.513 votos. Na Bahia, foram 3.652.167 de rechaço contra o primeiro colocado Rui Costa, que obteve 3.558.975 votos. No Rio Grande do Norte, foram 843.212 de rechaço contra 702.196 votos recebidos pelo primeiro colocado Henrique Alves. Em Alagoas, o primeiro colocado Renan Filho recebeu 670.310 votos contra 710.062 de abstenções, votos nulos e em branco.

Em outros estados, como Minas Gerais, o total de abstenções, votos nulos e brancos foi de 5.113.548, enquanto Fernando Pimentel (PT) obteve 5.362.870. Em São Paulo, “maior colégio eleitoral do país”, o boicote totalizou 10.638.495, enquanto Geraldo Alckmin obteve 12.230.807 de votos.

O editorial da edição nº 137 do jornal afirmou: “O boicote à farsa eleitoral se anuncia grande”. Assim foi e pode ser ainda maior.

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