Editorial - O Brasil que come

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O oportunismo eleitoreiro segue interpretando a parte mais cômica do circo, com trapalhadas e pronunciamentos grotescos no Brasil e no exterior — gestos rigorosamente ensaiados e executados que se destinam às edições de TV ou jornais impressos, nos estilos deboche e circunspecção dissimulada. Capitaneado pela direção do Partido dos Trabalhadores (PT), às vezes o bloco oportunista acredita ter sido admitido no circuito restrito dos que, de fato, manipulam o sistema de Estado e de governo. 

E são tantas as agências privadas que comandam direta e abertamente os negócios de Estado, que somente sob a condição de forte tutela os verdadeiros síndicos podem exercer o seu papel no poder intermediário estabelecido entre Washington e os brasileiros.

Para que os administradores efetivos possam suportar a presença do atual grupo convocado — via ‘eleições democráticas’ e aparentando ser inquilinos do poder na colônia à base do serviço temporário de ‘governança progressista’ — parece ser necessário estabelecer dois critérios: primeiro, se torne público o caráter semifeudal e semicolonial do sistema de Estado e de governo. Segundo (nisso os que realmente exercem as funções de síndicos verdadeiros dão uma mãozinha), que se instaure a ética dos covardes e dos renegados sob intensa campanha publicitária “demonstrando” as vantagens da subjugação nacional.

Com o aval da metrópole, esse acaba sendo um recurso mais salvador do que qualquer fórum privilegiado. Permite, inclusive, a despudorada presença do lixo reciclável, ou seja, dos especialistas que prestaram seus serviços ao imperialismo durante o gerenciamento militar e que retornaram aos negócios de Estado e de governo, ou deles jamais se afastaram.

O que mais pode legalizar a ação de gente como os autores da carta de dois ministros (?) a um dos diretórios mundiais, o FMI (ver nessa edição, página 10 ), tornar tolerável a ação dos prepostos nos acordos e tratados lesivos aos interesses nacionais, a dos capatazes que executam os planos de sabotagens na lutas econômicas e políticas do povo trabalhador, ou nos órgãos e nas políticas públicas, nas empresas de capital genuinamente nacional, nos projetos que (ainda) envolvem a defesa nacional e o desenvolvimento científicotécnico (a exemplo do projeto Alcântara onde, simultaneamente, tiraram a vida de 21 técnicos), etc., etc., entre antecessores e continuístas?

II

O remédio que visa tornar menos repugnante na população a existência dessa irmandade de megapelegos tem ação muito passageira, mas frente a frente com o povo trabalhador, o efeito é quase nulo. Quase, porque seu argumento maior, principalmente, combina o uso do tacape mais primitivo com o aparato de força física de última geração. A lábia é que vem em segundo lugar.

Somente assim é possível manter a exploração do trabalho, cobrança de impostos, perda de garantias e da soberania nacional num processo quase quarentão.

A falsa oposição nada tem a reclamar, porque, sabia, a ceia é restrita aos “bispos” e fiéis hierárquicos. A culpa não é do ritual, do vinho ou do pão que não se multiplica nem mesmo como tira-gosto, mas do que chamam de democracia representativa.

Os que não comem (os trabalhadores produtivos da cidade e do campo, os pequenos empresários nacionais) sentem-se já cada vez mais incomodados com essas oligarquias nativas: a latifundiária, a burguesia burocrática e demais setores comensais, que funcionam como um suporte social interno do imperialismo, porque esses é que se sentam à mesa, controlam o sistema (a sua democracia de velho tipo) e são seus empregados de confiança os “representantes” do povo.

Essa é a regra. A mesma que o povo fará em pedaços um dia, todos sabem, porque de nada vale o trabalho de desvendar indefinidamente as maquinações secretas contra o ele. Mais vale pôr um fim ao sistema que as produz. Por isso é que o futuro tribunal do povo será impiedoso, certamente.

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