Festival de Itajaí: Música numa cidade inteira

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Tom Zé, Hermeto Pascoal, Nana Caymmi, Alegre Correia, Dory Caymmi, Elza Soares, Naná Vasconcelos e Dominguinhos foram algumas das atrações do festival

Desde 1998, a cidade portuária de Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, é sede de um dos mais importantes festivais de música do país. Choro, samba, uma grande variedade de ritmos percussivos, e tudo que faz parte desse imenso caldeirão cultural responsável pela formação da nacionalidade brasileira na arte, passam por lá, sempre na primeira semana do mês de setembro.

Neste ano, do dia 29 de agosto até 6 de setembro, foi realizada a sexta edição do Festival de Música de Itajaí, com a mesma qualidade que já faz da música assunto obrigatório nas padarias, botecos e farmácias da cidade. Pelos palcos do festival passaram grandes nomes, como Tom Zé, Hermeto Paschoal, Heraldo do Monte, Dory e Nana Caymmi, Grupo de Choro Arranca Toco, Naná Vasconcelos e tantos outros.

Durante a semana é fácil encontrar rodinhas de pandeiro e violão pelas calçadas do centro da cidade, com jovens trocando experiências, estudos e paixão pela música. E, quando menos se espera, a pessoa já está numa delas tentando bater num tambor de corda ou numa maraca pela primeira vez na vida.

“Um festival como este é muito importante para trazer à tona a verdadeira música brasileira, que está oculta.” Com essa frase, Geraldo Vargas deu início ao seu show de choro na abertura do festival. Deu no que pensar: oculta não só pelo monopólio da comercialização e da censura ideológica dirigida pelas grandes corporações estrangeiras que operam em nosso país, mas também pela preguiça mental, efeito da alienação de décadas, inclusive no meio empresarial, que não enxerga a possibilidade de trazer para o grande público algo inteiramente diferente daquilo que o domingo na TV impõe. Não é exclusividade do Brasil, mas o que aqui acontece é puro reflexo da podridão ideológica de quem domina a divulgação das expressões culturais no mundo.

Lenine cantou acompanhado só por seu violão — uma demonstração do processo de produção de suas músicas. Durante toda a semana a música aconteceu quase até o amanhecer, com direito a muitas apresentações extra-oficiais, como a banda Doutor Cipó — forte candidata ao Prêmio Sharp de música instrumental — e a cantora Marina Machado, que faz dueto com Milton Nascimento em seu mais recente disco.

Quem mantêm o pique das sessões entre uma e outra apresentação não programada, são alguns músicos de Itajaí, presenças marcantes no processo de concretização do festival. Músicos como o contrabaixista Arnou de Melo, o trombonista Evandro Hasse e a cantora Louise criaram, ainda em 1992, o movimento Itajazz, com o objetivo de trazer mostras da música brasileira para apresentações na cidade e desenvolver conjuntos musicais no próprio festival. Alguns deles, como o versátil instrumentista Arismar do Espírito Santo e o porto-alegrense Jorginho do Trompete gostaram tanto do clima musical da cidade que viraram figuras cativas dos festivais. Arismar até pensa em deixar a cidade de Santos e se transferir para a sossegada Navegantes, vizinha de Itajaí.

Democrático nem tanto

Em 98 e 99, os ingressos custavam R$ 3 (R$ 1,50 para estudantes). Neste ano da graça do oportunismo eleitoreiro, custou R$ 10. A simples lógica é que, mesmo com esses preços, os shows lotam todos. Para as sessões depois dos shows é preciso pagar mais R$ 5. O que se conclui é que, para ir a todos os shows, muita gente precisou desembolsar mais de R$ 100. Tampouco vem sendo produzida música para o público infantil, assim como ninguém chegou a ver a concretização do tão decantado princípio de “todo artista vai onde o povo está”. Certamente ninguém viu nenhum grande nome visitando um casebre ou roça.

Atividades com músicos-professores experientes como Arismar, Pascoal Meireles e Nélson Castilhos aproximaram jovens músicos dos mestres da música brasileira. “O aprendizado que tive aqui essa semana vale por alguns anos de aulas particulares com algum professor menos experiente”, conta o músico amador Jonas de Oliveira, que participa das atividades há três anos.

Arismar considera essas realizações um ponto alto do evento. Professor de criação e improviso musical desde a primeira edição, em 1998, ele é considerado por muitos ali como a “alma” do festival. E explica sua admiração: “Não há outro festival de música com essa empolgação toda de dar oportunidade, do aluno querer estudar as músicas e trabalhar nelas para se apresentar nas jam session s*, com esse gás de querer tocar noite adentro. Eles passam o dia inteiro aqui para observar, aprender e tocar, tocar, tocar.” Muitos sequer estão matriculados, mas vão assistir as tardes musicais gratuitas dessas sessões.

Convívio com a arte

Ele fala também sobre essa função social da música, inclusive no aspecto de “reunir as pessoas numa sala, em família ou entre amigos, para ouvir ou tocar”. Essa função embala as escolas de percussão nas periferias das grandes cidades, leva mais longe as imorredouras perspectivas dos jovens — ainda que obrigados a viver sob o ócio do desemprego e na desesperada marginalidade que o sistema os empurra. Aprender ou não um instrumento, mas conviver com a arte mais verdadeira é se dedicar aos valores sociais dos quais não se pode abrir mão, como produtor e usuário. E aí, o que vale é a música verdadeira, tocada com coração e honestidade, e não a burocrática venda de sucessos. O importante é saber-se não vendido, alienado.

Na terça-feira, 2 de setembro, o sanfoneiro Dominguinhos realizou um show esplêndido. O ritmo contagiante perturbou ainda mais os jovens pelo fato da apresentação ter ocorrido num teatro — como tal, construído para audições, apenas — cujas dependências não oferecem espaços para a dança. Uma das melhores bandas de baião do Brasil e o povo todo sentado, mal balançando a cabeça. Nos cantinhos, alguns casais tentavam alguns passos.

Na quarta, Alegre Correa, brasileiro naturalizado australiano há mais de dez anos, apresentou um concerto impecável, misturando brasilidade com a tradição vienense. Na quinta, Elza Soares talvez tenha realizado a melhor apresentação do festival, pela contribuição da sua forte personalidade, história de perseverança e, claro, sua voz, uma das mais versáteis do mundo. Milton Nascimento fechou o festival no dia seguinte com o pavilhão da Marejada lotado, o que causou desconforto no público que ficou de pé por mais de duas horas.


*Expressão ainda tomada dos shows de jazz em que, após as apresentações oficiais, quando grande parte da platéia já se retirara, músicos de bandas diferentes se reuniam para executar músicas destinadas a um público aficionado por determinados estilos.

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