Garrincha: No tempo do futebol

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Neste mês de outubro, estivesse vivo, uma das maiores personalidades da história do futebol nacional, Manuel Francisco dos Santos, mais conhecido como Garrincha, estaria completando exatos 70 anos, no dia 28. Nascido no distrito de Pau Grande, município de Magé, RJ, o ilustre aniversariante ficou consagrado pelos seus dribles incríveis, deixando sua marca primeiramente no Esporte Clube Pau Grande, depois no Botafogo e seleção brasileira. 

Seus dribles começaram, ainda jovem, nos campos de várzea em Pau Grande. Garrincha era um mestre da bola e da popularidade. A história conta que teve 13 filhos, oito no primeiro casamento com Nair, um casal com Iraci, mais dois em Estocolmo, na Suécia, e um filho, já falecido, com a cantora Elza Soares. O gênio das pernas tortas, boêmio e ingênuo, conhecido pelas suas entrevistas engraçadas e pela sua simplicidade, falecia vítima do alcoolismo e da última crise renal, em 20 de janeiro de 1983.

A sepultura 4.581, no cemitério de Raiz da Serra, distrito de Magé, é onde repousa hoje, o símbolo da indiferença dos cartolas pela camisa 7, a do bicampeão mundial.

E o Maracanã estremecia

Senhor dos dribles desconcertantes, Garrincha infernizava a vida dos beques (como antes se denominavam os zagueiros), preferindo, quase sempre, conduzir a bola rente à linha de fundo. Ao suplício da defesa não faltava acrescentar o silêncio no estádio, a manobra para a esquerda com o zagueiro desesperado acompanhando os passos do atacante sem bola. Se não houvesse espaço entre a linha e a bola, essa correria por entre as pernas do defensor ou à sua esquerda, o certo é que passariam os dois. Ficaria o zagueiro.

De repente, onde não havia terreno algum — mas, para Garrincha (quem disse coisa tão genial?) aquilo era “do tamanho de um latifúndio” —, exatamente na fração de segundo em que o pé esquerdo do infeliz defensor ficava plantado em posição de apoio, inoperante, cataléptico, suprimidos que foram os movimentos nos artelhos e até mesmo na sua corrente sanguínea, então se infiltravam ambos na grande área, a bola e o seu dono. Botafoguenses e vítimas se levantavam nas arquibancadas porque o endiabrado já quase dentro da baliza, com a defesa em desespero, lançava generosamente a bola para um outro atacante que chutava livre, inapelavelmente na cara do gol.

Na Copa em que a seleção brasileira de futebol de 1958, foi consagrada como a mais popular e melhor de todas as seleções (opinião que os torcedores cinquentões mantém irredutível, até hoje), Garrincha foi o camelô que escapava com sua mercadoria, sob os aplausos dos transeuntes, por entre os mais furiosos golpes dos “rapas”. Atuou ao lado de mais 23 jogadores, entre eles, Didi, uma espécie de mestre de gafieira que excedia na elegância das suas folhas secas; também com Bellini, a barreira instransponível; Djalma Santos, parecendo um almoxarife, cuja responsabilidade não deixava faltar material à produção no momento da contra-ofensiva; Vavá, o trator humano, e um adolescente de nome Pelé.

Corre, pára, arranca, sai para a esquerda e para a direita, mas, no momento cruciante, ele retoma o caminho que todos sabem: segue pela direita, quase sobre a linha de fundo. Às suas costas, dois ou três adversários batidos, inclusive moralmente. Assim Garrincha se tornou titular, em 1958, no lugar do grande Joel, na partida contra a União Soviética. O estilo imprevisível, inteiramente desconhecido pelo futebol na Europa, arrasou as seleções adversárias até a última peleja.

Para brilhar e dar lucro

Desprendido, Garrincha nunca foi um “fominha de gol”. Poderia ter sido, seguidamente, o maior artilheiro, ao menos do seu time. Sua simplicidade e espírito de colaboração durante os seus curtos 50 anos de vida, lhe trouxeram muitos momentos em que foi, por exemplo, voluntário para jogar, ainda que sentindo fortes dores nos joelhos. E quando mais precisava de apoio, Mané, um dos jogadores que mais atraiu torcedores aos estádios, viu exaurir a sua carreira sem as garantias que um atleta deveria desfrutar. Bolsos vazios, joelhos destroçados, cirrose, portas fechadas.

A história de Manoel Francisco dos Santos, no papel do magistral Garrincha, começou em 21 de junho de 1953, quando fez seu primeiro jogo com a camisa do Botafogo. Dali por diante foram quase 13 anos de dedicação ao clube, 581 jogos e 232 gols que mudaram a trajetória botafoguense, inclusive na sua parte econômica.

Afinal, quanto ganhou o Botafogo com Mané? Também os outros clubes nos espetáculos em que enfrentavam Garrincha nos estádios lotados? E o que ganharam os dirigentes — porque ganham sempre quando o clube (até mesmo o adversário do dia) desfruta de uma grande atração na partida — durante todo esse tempo? O maior artilheiro da história alvinegra, era tão apaixonado pelo clube que o seu jeito de homem pobre, no falar, explicava: “Nasci flamengo, mas cresci botafogo...”

Socorrendo o prestígio do clube de General Severiano, Garrincha se submeteu a infiltrações no joelho para entrar em campo. O problema é que por trás do valor afetivo do dedicado atleta, da torcida e do público em geral, os dirigentes viam garantidos excelentes negócios, assegurada a cota do Botafogo em apresentações nacionais e internacionais. Num desses momentos decisivos, o jogador teve a coragem de atender o apelo do clube e protelar a inadiável cirurgia a que deveria se submeter no joelho — uma atenção dada ao clube cujas consequências o afastaria depois, em 64 e 65, dos campos.

Quanto ao clube, respondeu à dignidade e ao sacrifício do ídolo vendendo Garrincha para o Corinthians, sem sequer comunicá-lo, por cerca de 100 mil dólares, na época. O jogador apenas foi informado da sua transferência pelos dirigentes do clube paulista. Na ocasião restou a Mané chorar.

A atração e a renda

Garrincha, bem-humorado, malandro dos campos como ninguém, astuto nos dribles, não conhecia os meandros da alta malandragem financeira. Diante dela, era um ingênuo, virou “joão” de outros tapetes com um triste final de carreira. Mané, que produziu mais-valia na fábrica de Pau Grande, como atleta e artista, seguiu utilizado na reprodução do capital. E sua história é um marco para um tipo de transformação por que passaram os atletas do futebol no longo processo da modernidade dos empreendimentos futebolísticos, tornando-se mera mercadoria, individualmente, quer gerando pouco ou muito valor.

É verdade que alguns atletas ficaram ricos, tornaram-se empresários, conservaram um pouco da sua saúde. Mas a maioria, não escapando sequer os considerados mercenários, afundou na vida e enterrou sua saúde.

No caso do ídolo das “pernas tortas”, as infiltrações eram uma forma de garantir a arrecadação. Ficava constatado, já naquela época, o lado podre e criminoso do futebol de alto rendimento. Também cruel e impiedoso, porque Garrincha não sofria apenas em razão das infiltrações, mas se acrescentava ao seu sofrimento a ação brutal dos zagueiros adversários, que só provocavam a piora do ídolo botafoguense e o aumento da necessidade de novas aplicações.

Mais recentemente, casos de envolvimento dos craques e aplicação de anestésicos no joelho tornaram-se evidentes. Apesar do repúdio manifestado pela população, essa prática se mantém “como último recurso” nos clubes.

O caso que causou maior repercussão foi o do atacante Ronaldinho na final da Copa de 1998, quando a Confederação Brasileira de Desportos (CBD, que na apelação política ganha o nome de Brasil) perdeu o título para a França. Momentos antes da partida decisiva, o atacante, esperança da equipe brasileira, teve uma forte crise convulsiva. Cogita-se que a razão para essa crise fosse uma atrapalhada aplicação de anestésico no jogador.

A polêmica sobre as infiltrações de Ronaldo veio à tona quando a revista Lance A+, publicou em 98, uma extensa matéria afirmando que a convulsão que acometeu Ronaldo, momentos antes da partida final da Copa na França, foi causada por uma injeção de xilocaína. De acordo com a publicação, o jogador recebeu uma dose do remédio, injetada por engano, que acabou se espalhando pelo corpo do atleta e causando a convulsão.

O caso de Ronaldo na final de 98 abriu brecha para mais uma importante questão. Um vídeo datado de 1997 da TV Globo, apresentado pelo programa Bola na Rede, contém uma afirmação importante feita pelo médico da Seleção Brasileira em 98, Lídio Toledo. No vídeo, ele admitiu que já aplicou infiltrações em Garrincha, quando o atleta era ídolo no Botafogo. A revelação de Lídio vai de encontro à sua declaração à revista Lance A+, um ano depois, quando ele afirma jamais ter lançado mão desse procedimento contra qualquer jogador durante toda sua carreira médica.

Até hoje, muitos culpam Lídio Toledo pelo fracasso na França. Mas com seis Copas em seu currículo e 40 anos de serviço ao futebol, o médico argumenta no caso de Ronaldo: “O meu único erro foi ter entrado no quarto do jogador após a convulsão. Eu não o mediquei, isso porque não era meu papel.”

Uma hora e dez minutos

O fato é que o crime acontece e — uma vez constatado o ato criminoso, também a envergadura do crime e suas consequências —, e é de se supor que a vítima procure omitir o nome do responsável. Sem qualquer conotação detetivesca, o que importa é o uso que, regra geral, se faz dos atletas, bem ou mal sucedidos economicamente. Inclusive, ganhar ou perder não é o problema, mas a garantia do pagamento pela estrela no gramado permite ao jogo financeiro ser mais importante que a disputa em campo, tal como o desempenho da partida.

Em suma, é obrigatório admitir: a saúde de nossos atletas está sujeita ao interesse do grande capital. O lucro indispensável vai para o bolso de quem comanda o futebol, mas a saúde dos que exercem o esporte fica comprometida ao ponto de impossibilitar o jogador de continuar a sua carreira e sem receber uma remuneração por aquilo para o qual, anos a fio, se prepararam e sabem fazer melhor que outros.

Por vários anos, o lucro das exibições de Garrincha rendeu muito aos cofres do Botafogo, mas foi no período de uma hora e dez minutos de cirurgia, com anestesia geral, que em 29 de setembro de 1964 terminou a carreira de Mané Garrincha, o grande responsável por tanta riqueza. Ele tinha 31 anos, sofria de artrose nos dois joelhos, provocada pela postura incorreta e pela agressividade dos zagueiros adversários, que temiam enfrentá-lo. Depois de ter deitado na mesa de cirurgia, Mané nunca mais foi o mesmo. Nenhum outro jogador brasileiro padeceu tanto com problemas no joelho como o genial ponta-direita do Botafogo e da seleção brasileira.

Garrincha e Ronaldo são os maiores exemplos da cruel e desenfreada exploração de atletas em troca de verdadeiras fortunas, com transações obscuras ou possíveis relações duvidosas dentro dos clubes de futebol. Evidente que muitos dos explorados não conseguem nem mesmo ver a cor do dinheiro que, graças a eles, vão para os cofres dos clubes e seleções.

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