Teatro: carteira de identidade de um povo

A- A A+

Entrevista: Procópio Neto

Procópio Ferreira Neto, 33 anos, praticamente já nasceu em um palco. Seu avô era Procópio Ferreira, um dos mais importantes Atores do teatro brasileiro de todos os tempos. É sobrinho da atriz e diretora de teatro Bibi Ferreira e filho de Mara Silva, cantora, ex-Rainha do Rádio nos tempos de glória da Rádio Nacional na década de 50. Ele não fugiu nem um pouco da tradição artística familiar e estreou como ator em 1974, aos quatro anos deidade, interpretando o Jorge Luiz, na novela Meu pé de laranja lima, da extinta TV Tupi, e não parou mais de trabalhar. 

Sempre ao lado do avô Procópio e da avó Hamilta, trabalhou em vários espetáculos infantis. Após a morte do avô, em 1979, foi morar na Europa, onde cursou artes cênicas no Le Conservatoire National Superieur D'art Dramatique (CNSD), trabalhou na companhia da atriz Mesquinerie, estudou em Paris, na Commédie Française, em Londres, no Royal Theatre Academy e, em Roma, no Teatro Pariolli. Em 1985 recebeu o prêmio de ator revelação do 20º Festival Internacional de Teatro, em Lion, França, com o espetáculo Le Bourgeois Gentilhomm e, de Moliére, sob direção de Katherine Monnont e Jacques Rosner.

O teatro chega às cidades

De volta ao Brasil, na década de 90, Procópio trabalhou com importantes diretores, como Jorge Fernando, Flavio Paiva, Rubens Lima Júnior, Hamilta Rodrigues, Maria Lina, Julia Rosa, Mirian Pérsia, Nino Honorato, João Luiz Fiane, Lucy Freitas, Bemvindo Sequeira, Di Veloso, entre outros. Foi mentor e diretor de produção do projeto “Cultura viva de nossa arte”, em benefício à Casa dos Artistas.

O nome e a tradição familiar não o atrapalham, mas, segundo ele, a responsabilidade de fazer um trabalho de qualidade é muito maior. Talvez, por conta disso, dedica-se ao teatro em tempo integral, procurando dar continuidade à obra de seu avô, que levava o teatro para as cidades que não dispunham de um palco.

Com esse intuito, no ano 2000, junto a Cia. Procópio Ferreira — fundada por seu avô Procópio há 79 anos — foi para o sul do Espírito Santo ministrar aulas de teatro, onde ficou por dois anos. Lá dirigiu, com atores e figurantes da região, os espetáculos Auto da paixão, com aproximadamente 110 alunos-atores e Quando se abre o baú, o primeiro trabalho do projeto Poetas de minha terra, que já conta com mais duas séries: Estórias do varandão e Rubem Braga. Este projeto tem a finalidade de apresentar novos autores e trazer nomes célebres de poesias, crônicas e textos dramáticos para o grande público, formando novos apreciadores em cada montagem.

O teatro é a carteira de identidade cultural do povo quando apresenta a sua cultura, os seus valores, a sua história

“Meu avô percorria cidades onde não tinha teatro para apresentar essa arte. Eu continuo fazendo esse trabalho para que pessoas que nunca foram a um teatro tenham possibilidade de, não só assistir um espetáculo, mas fazer parte dele. Abrimos mão de grandes trabalhos no Rio de Janeiro para realizar esse tipo de empreendimento. Mas vale a pena”, declara.

A companhia chega e abre uma oficina de teatro na cidade, convidando moradores a participarem como atores. Quer dizer, dão aulas de teatro para quem estiver interessado. Ficam um tempo na cidade, ensaiam, apresentam um ou dois espetáculos, com os alunos-atores, e depois partem, deixando alguém, dopróprio local, responsável pela continuidade do trabalho. “Mesmo de longe nós não perdemos o contato. Recentemente consegui uma doação na Funarte (Fundação Nacional de Artes) de 140 livros sobre cultura, quatro fitas e seis dvds. Coloquei tudo em caixas e já enviei para eles. Assim dão continuidade a esse estudo de teatro”, fala.

A atitude do povo

Entre os lugares que mais lhe marcou, está São José das Torres, distrito da cidade de Mimoso do Sul, ES. “Lá nós conseguimos, junto com um professor local chamado Jorge Fabelo, montar uma associação cultural e ambiental, que levanta a sua identidade de uma forma muito bonita, trabalhando com poesias teatralizadas e espetáculos de crítica de comédia de costume. ”

“Tivemos uma grande participação da população, entre 7 e 79 anos de idade. O distrito de São José das Torres, por exemplo, abriga 200 famílias e 32 fizeram parte da oficina. Essas pessoas, de uma forma geral, conseguiram ter suas próprias consciências, andar com os seus próprios pés e alcançaram objetivos impressionantes. Vimos gente analfabeta se interessar em ir para um colégio estudar, pelo desejo de participar da oficina. Uma senhora dona de casa, pela qual tenho grande carinho, terminou o segundo grau, incentivada pela oficina, e recentemente me escreveu: está pensando em ingressar em uma universidade”, conta com alegria.

“Encontramos pessoas que trabalhavam na área rural, no plantio de algum alimento, de segunda a sábado, só descansando no domingo. Ainda assim, após o meio dia. Nunca discutiram sobre isso, aceitando a situação. Mas, depois de ingressarem na oficina começaram a se conscientizar de que o lucro do produtor é muito maior do que 10 reais por semana e que esse bolo poderia ser mais bem repartido. Hoje, estão em busca de uma profissão que lhes dê melhores condições de vida”, diz. Procópio se sensibiliza quando se lembra que aquelas pessoas não conseguem sobreviver com esse dinheiro e, por isso, colocam toda a família para produzir, sendo comum ver na região crianças, adultos e idosos na lavoura, trabalhando sem parar.

“Além disso, eles criaram, dentro da identidade de cada um, uma filosofia de arte muito interessante e conseguem hoje, numa cidade pequena, a possibilidade de montar espetáculos que não deixam a desejar a nenhum outro do Rio de Janeiro e de São Paulo”, informa com orgulho. Para ele, o teatro é a carteira de identidade cultural do povo de uma cidade, quando apresenta a sua cultura, os seus valores, a sua história.

“Os maiores pólos do mundo trabalham a sua cultura, levantam o ideal de que lá se faz arte. Acho que isso ajuda para que a consciência e o patriotismo deles cresça, porque, entre outros, desenvolvem um amor pela pátria, pela razão e ciência. É a arte deles, do seu povo. Já, aqui no Brasil, há cidades que não têm teatro. Mas quando se tem uma comunidade, independente de existir em uma grande ou pequena cidade, que possui o seu teatro, ali aparece a sua referência cultural, podendo expressar a sua arte teatral que identificará as suas origens”, defende.

Em busca de uma identidade nacional

“Desta forma, atores podem, através da arte de interpretação, criar uma ambientação na qual o público sinta e perceba que ali têm personagens do seu cotidiano ou do passado daquela aglomeração urbana. Isso é carteira de identidade para uma cidade”, atesta.

E valorizar o nacional é algo que defende com firmeza. Segundo Procópio, uma coisa que o deixa profundamente aborrecido é quando senta para conversar com um ator que está se formando, ou até mesmo alguém com algum tempo de estrada, e pergunta sobre importantes figuras do teatro brasileiro, como Abgail Maia, Apolônia Pinto, Iracema de Alencar, Joracy Camargo e ele nunca ouviu falar, mas conhece Eugênio O´neill, Molière, Shakespeare, entre outros.

“Não quero desmerecer nenhum desses fantásticos gênios estrangeiros, mas sei que tivemos pessoas muito importantes aqui dentro também. Devemos conhecer os seus trabalhos e valorizá-los. Joracy Camargo, por exemplo, foi e será para sempre um homem de teatro, que conseguiu, em seus espetáculos, expressar exatamente os problemas que a sociedade estava passando. E se pegarmos para ler ou para remontar esses textos hoje, não têm nada de ultrapassado”, esclarece.

“É muito difícil entender porque uma atriz como Iracema de Alencar, que mudou a atitude da mulher no palco— afirmou que a mulher tem um poder transformador dentro do teatro, ganhou a possibilidade de protagonizar, e criou uma companhia teatral na qual era a presidente — seja desconhecida de muitos. E encontramos gente discutindo o processo de análise psicológica de personagem que Eugênio O'neill fez, sem saber que o mesmo processo foi feito por Joracy Camargo, em Anastácio”, afirma acrescentando que essas figuras são lembradas e estudadas em todos os países onde morou e trabalhou.

Neste momento, enquanto não sai pelo Brasil novamente, Procópio está dirigindo, no Rio, o espetáculo Os gatos — uma fábula para adultos, que deve estrear este mês — apresentando60atoresem cena, em sua maioria, desconhecidos do grande público. Para ele, a peça faz uma política de ideais, demonstrando em que momento a sede de poder impulsiona o homem e como se torna retrógrada — que tipo de homem, ambição e poder podem ser progressistas ou retrógrados.

“Uma pessoa que não fala, não tem atitude. A sociedade não pode deixar de criticar elevantar suas próprias bandeiras, ter o poder de discernimento do que é realidade e o que é ficção, do que pode ser bom e o que não é bom. Esse espetáculo é isso”, conta.

Para ele, a sociedade vem, há muito tempo, perdendo essa atitude de dizer o que pensa. “Na realidade, esse distanciamento do homem não acontece somente na sociedade brasileira, mas no mundo em geral. As pessoas estão sendo afastadas umas das outras. A própria família, hoje em dia, está cultivando a distância. Por exemplo, muitas vezes, alguém vai à casa de uma outra pessoa e, em determinado momento, a televisão é ligada. Imediatamente a visita acaba, porque todos ficam estáticos, sentados vendo televisão. Ninguém fala nada”, reclama.

Além de Os gatos, Procópio está ensaiando a peça Chá das cinco, a armadilha — uma adaptação, feita por ele, do original de Israel Sartini, As senhoras— com direção de Lygia Ferreira, e estréia prevista também para outubro.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja