A guerra começou depois

A- A A+
O mundo estremeceu com as toneladas de bombas jogadas pelos ianques e ingleses sobre o Iraque. Em poucas semanas, Bush e seu poodl e, Tony Blair, comemoravam retumbantemente a “vitória” de sua blitzkrieg1. Sob milionária propaganda de desinformação, ocorre a satanização do presidente Saddam Hussein, no bojo de uma intensa campanha racista, para justificar a guerra e elevar a popularidade dos que a comandam. Como os nazistas, no entanto, se esqueceram de combinar com os patriotas iraquianos que, depois de tomado o território, a resistência deveria cessar.

Não só a resistência não parou, como suas ações diárias têm custado aos invasores vidas, dinheiro e popularidade, que se esvaem muito mais rapidamente que no Vietnã. No caso do governo de Tony Blair, a situação tomou contornos mais agudos com o escândalo da manipulação das informações sobre o armamento do Iraque e o assassinato do cientista David Kelly.

Bush, por seu lado, se mete em um beco sem saída. Mantendo a ocupação, sua popularidade cai a cada ianque despachado para casa em um saco plástico (os iraquianos avisaram). A desmoralização é total. Recentemente, seguindo os passos de Lyndon Johnson2, Bush convocou 10 mil reservistas para iniciarem treinamento de guerra e mais 5 mil deverão aguardar a sua vez para o início do ano, demonstrando que, pelo menos por hora, agredir é a primeira opção.

Como também é costume do imperialismo, as tropas títeres são tratadas como peças descartáveis e sem importância. Em Fallujah, no dia 12 de setembro, as forças de ocupação informaram que dez policiais iraquianos foram mortos e outros cinco ficaram feridos. O que não informaram é que foram mortos em uma emboscada armada pelos próprios ianques, que nem se deram ao trabalho de esconder as provas. Próximos aos corpos encontravam-se, espalhados na areia, cartuchos de granadas 40 mm, lançadas por fuzis M-19.

Naquela madrugada, bem depois da meia noite, os ocupantes de um BMW abriram fogo contra o escritório do prefeito. Dois esquadrões da polícia, equipada, paga e treinada pelo USA, iniciaram a perseguição. Nas proximidades de um hospital jordaniano foram emboscados pelos ianques, que deixaram passar o BMW e dispararam contra os dois outros veículos. Um dos policiais sobreviventes afirmou: “Quando gritaram conosco, nos detivemos de imediato. Tentamos dizer-lhes que éramos policiais, mas então se puseram a disparar.” Ficaram cartuchos de balas espalhados por todo os lados e no muro do hospital, há, pelo menos, 150 marcas de bala. Testemunhas afirmaram que além dos policiais morreu um médico jordaniano e cinco enfermeiras ficaram feridas.

Ahmed Mohamed, irmão de um dos policiais mortos, também policial, fala sobre as causas da emboscada: “Os ianques se viram obrigados a sair de Fallujah depois de intensos combates, logo depois de terem matado 16 manifestantes em abril. Mas queriam regressar à cidade, e assim prepararam a emboscada. Os pistoleiros no BMW eram americanos que teriam o encargo de demonstrar que não há segurança em Fallujah, de modo que os militares regressaram. Os policiais gritavam: ‘Somos policiais, somos policiais' e os uniformizados continuavam atirando.”

Uma guerra dura e prolongada

Os povos do Terceiro Mundo têm aprendido à duras penas que nem sempre é possível impedir a invasão de um exército melhor equipado e treinado. Mas, aos invasores, resta comemorar, rapidamente, a ocupação, porque depois começa a guerra e uma luta prolongada pode derrotar o inimigo. O povo tem demonstrado que conhece esta lição de cor e salteado. Suas ações têm combinado o fustigamento diário das tropas inimigas e ações de sabotagem a infra-estruturas estratégicas, com atentados a objetivos significativos, ocorrendo em média 10 ações diárias.

A guerra dos opressores vai tornando-se a guerra dos oprimidos. Não existem mais alvos para bombardeios, nem linha definida, aviões poderosos, Tomahawks. As parafernálias eletrônicas, tão badaladas no período anterior, de pouco servem agora. Por outro lado, não faltam alvos para a dinamite ou o carro bomba e existe sempre um ianque ao alcance de uma bala certeira. A situação é tão grave e a moral da tropa ocupante tão baixa, que chegaram a comemorar dois dias sem baixas, afirmando que a resistência começava a diminuir. A resposta veio no dia seguinte e não se pára de computar os mortos.

Do ponto de vista material a situação não é diferente, o custo é bem maior que o esperado. O USA gasta US$ 3,9 bilhões mensais, fora os gastos com reposição de veículos e equipamentos danificados ou destruídos e a munição consumida. No dia 11 de agosto Dov Zakeim, responsável pelo orçamento do Departamento de Defesa, informou que os gastos com a invasão e ocupação do Iraque, totalizariam, entre janeiro e setembro, a soma de US$ 58 bilhões, o que equivale ao orçamento aprovado pelo Congresso ianque para a “guerra contra o terrorismo” em todo o mundo para o ano de 2003. Se a isso somarmos o gasto no Afeganistão, Palestina, Peru, etc., veremos que é cada vez mais difícil para o imperialismo conter o turbilhão dos povos em luta pela liberdade.

Não permitir a legitimação da ocupação

As ações mais expressivas da resistência têm o objetivo claro de não dar o menor espaço para que a ocupação se legitime. Foram escolhidos objetivos que corroem a tentativa ianque de estabilizá-la, quer a nível regional, internacional ou local.

O ataque à Embaixada da Jordânia, o governo árabe mais submisso e comprometido com a política ianque, serve de alerta a outros governos da região que pretendam reconhecer o Conselho Governativo títere. Os ianques tentaram, em agosto, que a Liga Árabe reconhecesse este Conselho, sem sucesso.

O Conselho de Segurança da ONU (o mesmo dos resmungos pacifistas anteriores à invasão, cujas deliberações foram solenemente ignoradas por ianques e britânicos), prontamente, não só reconheceu o governo fantoche, como desembarcou de malas e bagagens em Bagdá, na tentativa de dar legitimidade internacional à ocupação, transformando-se em um braço da administração invasora — o que pode ser confirmado pelo perfil de boa parte dos mortos no atentado de 19 de agosto: militares de diferentes nacionalidades e membros de organismos financeiros internacionais. No dia 22 de setembro outro carro bomba foi detonado no mesmo local, com dois mortos e doze feridos. A resposta foi a mais contundente possível.

Outra importante ação da guerrilha iraquiana demonstrou a extrema vulnerabilidade dos que se prestam ao papel de interlocutores dos ocupantes, favorecendo sua política neocolonial. O atentado contra o Ayatollah Al-Hakim, longe de ser um enfrentamento entre sunitas e xiitas, atinge aqueles que querem colaborar com os invasores. O Washington Postcitava o Ayatollah como um homem que trabalhava na sombra para facilitar o estabelecimento de um governo provisório. No seu retorno do exílio de 22 anos condenou as ações da resistência e pediu calma e paciência da população com os invasores.

A impossibilidade do USA garantir a segurança de seus aliados cria enormes dificuldades na consolidação de um governo formalmente iraquiano, deixando transparente o caráter colonial da guerra e inviabilizando uma presença menos massiva na área.

Em tentativa de diminuir sua perda de homens, o USA chantageia o Estado fascista turco a enviar tropas para o Iraque em troca de um empréstimo de US$ 8,5 bilhões, medida já aprovada pelo parlamento, pesem os protestos de mais de 60% da população. O governo fantoche iraquiano rejeitou unanimemente (não que isso importe) esta medida, já que a presença de contingentes de países vizinhos aumentará ainda mais a tensão no Iraque. O fato de ser a Turquia o primeiro país de maioria muçulmana a enviar tropas é mais uma tentativa de legitimação e, portanto, não se pode esperar um tratamento diferente por parte da resistência.

Mentir é preciso

O Iraque foi bombardeado, invadido, por uma década desarmado e impedido de comerciar, novamente bombardeado e invadido e, finalmente, ocupado. Ao imperialismo, no entanto é impossível admitir o ódio que desperta aos povos. As causas da resistência são sempre externas, pois os povos anseiam pela “mão libertadora de Sam” e na falta do ouro de Moscou surge a Al Qaeda, os “fanáticos islâmicos” e o que mais se possa inventar, não importando o quão ridículo possa parecer afirmar que organizações que nunca atuaram no Iraque tenham passado a fazê-lo depois da ocupação.

Uma série de grupos reivindica as ações da resistência, essencialmente os ligados ao partido Baath e ao islamismo, não se restringindo à população sunita. Os ingleses têm sofrido diversos ataques em Basora, cidade essencialmente habitada por xiitas.

As ações diárias, muitas vezes, envolvem grandes quantidades de pessoal e armamento, indicando que o grosso da resistência estaria sendo organizado por militares do Baath, não necessariamente ligados aos altos comandos, por isso o USA tem intensificado a caça a quadros intermediários do partido.

Quanto à queda relativamente rápida de Bagdá e a rendição massiva de combatentes iraquianos nos dias da invasão propriamente dita, aparentemente deveu-se mais à opção de uma resistência de longa duração, diante da impossibilidade de conter o avanço ianque em um enfrentamento convencional.

Milhares nas ruas por emprego

A resistência econômica e a luta pelas necessidades imediatas do povo iraquiano também fazem parte do cotidiano. Em 1º de outubro, milhares de iraquianos protagonizaram, em Bagdá e Mosul, grandes protestos contra a falta de empregos e foram reprimidos à bala pelas “forças de segurança” locais. Este era o primeiro dia do ano escolar, apresentado como o início de um tempo de normalidade depois da derrubada de Saddam Hussein.

No centro da capital, entre 200 e 300 pessoas que procuravam trabalho, entre eles alguns antigos militares do exército, atiraram pedras contra a sede do Serviço de Proteção às Instalações e queimaram veículos. Dois homens ficaram feridos quando a polícia abriu fogo contra os manifestantes. Vários deles disseram ter visto os policiais dispararem de dentro da sede do Serviço, que se encarrega da segurança dos edifícios sob supervisão ianque. Asseguraram também que membros do Serviço cobram propinas em troca de emprego e que vários a pagaram em vão.

Em Mosul, milhares de iraquianos atiraram pedras contra um posto de empregos e a polícia respondeu com disparos para o ar. “Preciso de um emprego agora, estou sem trabalhar desde a guerra (março deste ano)”, explicava Ayid Khalid, de 24 anos, que antes trabalhava na construção civil. O Iraque convive hoje com taxa de desemprego de 50%.

O povo sabe que nada pode esperar dos invasores, nem do governo por eles criado, e que a luta pela sua libertação será prolongada, como é a do povo afegão. Também sabe que a cada agressão o imperialismo se afunda num pântano de onde não poderá sair.


1 Termo utilizado pelo nazismo, que quer dizer guerra relâmpago, ou seja de definição rápida.
2 Presidente do USA durante a Guerra do Vietnã.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja