Bolivianos nas ruas contra governo entreguista

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Grandes manifestações e uma greve geral estão sacudindo a Bolívia. O governo de Sanchéz de Lozada está cada vez mais pressionado. Violentada, a massa enche as ruas reivindicando melhores salários, aposentadorias, o fim do latifúndio a nacionalização do petróleo e a deposição do gerente de turno.

A Bolívia é um dos países mais pobres da América Latina. A pobreza atinge 64% da população, alcançando 82% na zona rural. Um terço dos operários perderam seu emprego nos últimos cinco anos, enquanto se incrementou em igual proporção o trabalho temporário, a exploração do trabalho e a redução dos salários, num país onde a demissão sem direito a reclamo é legal, o que é utilizado para piorar as condições de trabalho e “disciplinar” os trabalhadores.

A principal atividade econômica, durante séculos, foi a mineração, dizimada nos últimos 20 anos pelas políticas entreguistas e privatizadoras dos sucessivos governos. Ao esgotamento natural se uniu a queda paulatina dos preços do estanho, zinco e outros minerais. Enquanto as minas rentáveis estão repartidas entre 10 empresas, que empregam cerca de 3 mil trabalhadores e produzem dois terços dos minérios no país, cerca de 50 mil mineiros se uniram em pequenas cooperativas que sobrevivem de pequenas explorações — o outro terço da produção mineral boliviana.

A situação no campo também é terrível. As tentativas de Lozada para erradicar o cultivo de coca não fazem senão piorar as condições dos camponeses, a quem não se oferece a possibilidade de semear outros cultivos rentáveis. O leste da Bolívia (onde se encontram as terras mais férteis) é tomado pelo latifúndio: 87% das terras estão nas mãos de 7% dos proprietários, enquanto a massa de milhões de camponeses pobres possuem apenas os 13% restantes.

O déficit público é de 8%. As receitas do FMI insistem em cortes dos gastos públicos e aumento dos impostos.

Protestos em janeiro

Os operários e camponeses bolivianos têm atrás de si uma longa tradição de resistência e valentes enfrentamentos contra o imperialismo e as medidas antipopulares dos diferentes gerentes do Estado. Desde 1985, houve 190 mortos em conflitos, 6 mil feridos e 10 mil detidos, a maioria nos dois governos de Lozada.

Os últimos acontecimentos na Bolívia não surgiram do nada. Em janeiro e fevereiro deste ano, as mobilizações das massas de trabalhadores, camponeses e setores empobrecidos da classe média fizeram tremer o governo de Sánchez.

Em janeiro, os camponeses da região de Cochabamba se mobilizaram contra a erradicação do cultivo da coca. Esta mobilização também foi acompanhada por milhares de aposentados (que reclamavam aposentadorias dignas), professores e estudantes. Esta mobilização teve o saldo de 14 manifestantes mortos pela polícia e exército.

A meados de fevereiro, o ‘impuestazo' decretado pelo governo, que consistia no confisco puro e simples dos salários dos trabalhadores para fazer frente ao déficit público, provocou outra grande mobilização. Aos trabalhadores das cidades, se juntaram os camponeses e demais categorias, além dos escalões mais baixos da polícia e os soldados do exército, que combateram junto com os trabalhadores nas barricadas. O balanço foi de 33 mortos e mais de 200 feridos, mas a rendição foi revestida por reivindicações de uma “assembléia constituinte popular e soberana”.

A guerra do gás?

As reservas de petróleo e gás da Bolívia, segunda mais importante da América do Sul, foram passadas às transnacionais em 1997, dois dias antes de findar o primeiro mandato de Sánchez. Agora, o consórcio formado pela Repsol-YPF, British Gas e Pan American Energy (British Petroleum) pretende, com o apoio do presidente e do Congresso boliviano, exportar gás para o USA e pagar uma quantia mínima (40 a 70 milhões de dólares) à Bolívia.

Em 19 de setembro, a Bolívia ficou semiparalisada em uma jornada nacional de protestos contra os planos do governo. Mais de 150 mil pessoas participaram nas diferentes marchas e concentrações organizadas em diferentes cidades do país. A mais numerosa foi em Cochabamba, onde se concentraram mais de 40 mil pessoas. Nesta jornada, foram exigidas a derrubada da lei de hidro-carbonetos, a revisão das concessões privadas e a nacionalização e industrialização do gás.

Seis dias antes, os camponeses do altiplano boliviano haviam iniciado o bloqueio das estradas para protestos contra a exportação e venda do gás e também para exigir a liberdade de alguns dirigentes camponeses de seu movimento que haviam sido aprisionados.

Na manhã do dia 20 se produziu o massacre de Warisata — onde cinco camponeses foram assassinados pela polícia e 20 ficaram feridos — e a situação se transformou completamente. O governo de Sánchez de Lozada tentou dar um autogolpe para descarrilar o processo revolucionário que se estava incubando no seio das massas, mas conseguiu o contrário do que queria. Os camponeses da região saíram às centenas para as estradas empunhando velhos fuzis Mauser e gritando “guerra civil, guerra civil”.

Mesmo não havendo mais choques sangrentos, numerosos camponeses foram detidos e torturados, o que aumentou a indignação e a raiva entre as áreas camponesas.

De 20 a 24 de setembro se constituiu a Direção Única de Mobilizações, composta pela COB (Central Obrera Bolivian a), a CSUTCB (Confederacion Sindical Única de Trabajadores Campesinos de Bolívia), a Coordenação em Defesa do Gás e outras organizações, que exigiam, além das reivindicações anteriores, a demissão do ministro da defesa, Sánchez Berzaín, que ordenou o massacre de Warisata, e do presidente Lozada.

A COB, incapaz de conter as pressões vindas da massa, foi obrigada a convocar uma reunião ampliada de emergência, com dirigentes, representantes e delegados dos mineiros, camponeses, professores, trabalhadores fabris e outras organizações sociais. Nesta reunião de 24 de setembro se acertou a convocação de uma greve geral a partir do dia 29 do mesmo mês e o bloqueio nacional das estradas até lograr a renúncia do presidente e do ministro da defesa.

A culpa do Chile

A Bolívia perdeu para o Chile, na Guerra do Pacífico, em 1789, a parte de seu território que dava acesso ao Oceano. Desde então, as classes dominantes alimentam entre as massas populares, nas escolas e quartéis, o ódio aos chilenos, como se a culpa da opressão e miséria crescentes no país fosse dos vizinhos.

Nos acordos assinados pelo governo boliviano, o gás seria transportado por gasoduto até o Chile, onde seria liquefeito e conduzido por navio até o México, onde novamente retornaria ao estado gasoso e chegaria ao destino final, o USA.

Essa pretensa rivalidade retorna agora com mais força e impulsionada pelos monopólios dos meios de comunicação, que querem reduzir todas as demandas dos bolivianos — das quais a nacionalização do gás é apenas uma — a uma rivalidade entre os povos dos dois países.

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