‘Lutar não é crime, vocês vão nos pagar!’

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Na noite do dia 11 de novembro, cerca de 200 pessoas participaram de um ato no Salão Nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro mobilizado por familiares e amigos de presos e perseguidos políticos e pela juventude combatente. Desde a véspera da final da Copa, quando ativistas foram trancafiados pelo Estado, parentes — em especial as mães — começaram a se mobilizar e fundaram a Comissão de Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos. A Comissão reúne estudantes, trabalhadores, advogados do povo e inúmeros outros apoiadores dessa justa luta em defesa da liberdade de manifestação e organização.

Além do jornal A Nova Democracia, vários coletivos de mídia independente fizeram o registro do evento, entre eles o Coletivo Mariachi e o Mídia Independente e Coletiva — MIC. Participaram também a Frente Independente Popular (FIP- RJ), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), o Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos (DDH), indígenas representantes da Universidade Indígena Aldeia Maracanã, advogados da Associação Brasileira de Advogados do Povo (Abrapo), Associação de Juízes para a Democracia, Comitê Pela Liberdade de Rafael Braga, entre outros movimentos e organizações que lutam pelo direito do povo lutar por seus direitos.

Além desses, esteve presente também uma representante da Liga de Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas, a camponesa Dona Dira, esposa de Cleomar Rodrigues, assassinado por pistoleiros a mando do latifúndio dias antes. Cleomar e Dira produziam o mel vendido pela LCP e doado à FIP meses atrás, como contribuição para a campanha de finanças dos advogados do povo que defendem os presos e perseguidos políticos. Desde então, o mel produzido pela Liga passou a ser vendido por ativistas da FIP em quase todas as atividades realizadas no Rio de Janeiro.

— Eu e meus filhos estamos sofrendo muito por conta do assassinato do meu companheiro. Para mim, ele não era só um esposo. Ele era meu companheiro de luta, era o pai, o avô, era tudo para os nossos filhos. Ele era um amigo para todas as horas. Eu não quero parar o trabalho que ele começou. Eu vou tocar isso pra frente. Quando ele ficou sabendo que os companheiros advogados precisavam do mel para a campanha de finanças da defesa dos presos políticos, ele começou a trabalhar dobrado para produzir mel para os companheiros. Ele dizia: “que tudo dê certo e a gente consiga produzir mais para ajudar a luta dos companheiros no Rio”. Era um homem exemplar. Mas o latifúndio é assim onde nós vivemos. Se você começa a fazer alguma coisa em defesa do povo pobre, rapidinho vira alvo dessa gente perversa — disse Dona Dira em um discurso emocionado, no qual mostrou inúmeras fotos de Cleomar.

Além disso, várias outras figuras e representantes de movimentos deram seu depoimento. Entre eles, o advogado João Tancredo, presidente do DDH e conhecido poratuar em causas em defesa dos direitos do povo, como as vítimas da Chacina de Vigário Geral e a família do operário Amarildo, assassinado por PMs da UPP do Morro da Rocinha. O advogado noticiou outras duas decisões judiciais que retiram ainda mais direitos.

— O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro entendeu pela constitucionalidade da lei das máscaras. Isso é um fato grave, porque, através dessa decisão, o judiciário diz “Senhor governador, você pode colocar a polícia na rua para descer a porrada nas pessoas, que o senhor tem o consentimento do poder judiciário. Nós estamos cooperando com o senhor”. Além disso, no processo sobre o grampo nos escritórios dos advogados, o desembargador Ciro Darlan havia conseguido uma liminar em nossa defesa e, hoje [11/11], ele foi derrotado por 2 a 1 em uma votação que derrubou essa liminar. Isso quer dizer que o Estado está autorizado a grampear todos nós, inclusive os advogados que defendem as pessoas acusadas nesse processo infame. É um absurdo, é claro que isso cabe recurso. O jornalista que foi baleado por um tiro de bala de borracha no olho em São Paulo entrou com uma ação contra o Estado e essa ação foi julgada improcedente. Ou seja, mais uma autorização do judiciário para que a polícia atire balas de borracha a esmo, inclusive contra jornalistas — diz o advogado do povo.

A Comissão de Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos já está organizada nas redes sociais e pela internet e nas reuniões da FIP divulga suas atividades em defesa da justa luta pela liberdade de seus filhos. O jornal A Nova Democracia apoia essa luta e continuará noticiando as futuras ações da Comissão e da FIP.


Farsa desmascarada

No dia 12 de novembro, vários lutadores do povo estiveram presentes no Juizado da Infância e da Adolescência para prestar solidariedade à estudante normalista e ativista Andressa Feitoza.

Andressa é uma das ativistas presas pela polícia na manhã de 12 de julho, com o claro  intuito de desmobilizar o ato que aconteceu durante a final da Copa da Fifa no dia seguinte, 13/7.

Com alegações incipientes, quebras de sigilos telefônicos e telemáticos, a investigação levada a cabo pela Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) fez uso de um revólver calibre 38 do pai de Andressa — que é segurança profissional e tem autorização legal para portar a arma — para qualificar o grupo como “quadrilha armada”, dentre outras acusações imputadas indiscriminadamente contra os ativistas.

Na audiência, o judiciário se mostrou desinformado sobre o processo e crente na versão policial. O trunfo da acusação era o depoimento do delator Felipe Brás, que deixou escapar a motivação para sua colaboração com a investigação: uma vingança passional contra uma ativista e ex-amante. No mais, o delator não contribuiu com informações que incrementassem o argumento da acusação.

Já o advogado Marino D’Icarahy e sua equipe apresentaram uma defesa contundente, rica em detalhes e compilações de provas em diversos formatos. Inclusive com vídeos produzidos pela equipe de AND que flagraram a violência sofrida por Andressa no dia 28 de junho em outro ato realizado na Praça Saens Peña, na Tijuca, e uma reconstituição que remonta toda a ação da polícia no cumprimento do mandado de busca na casa da estudante na Vila do João, Complexo da Maré.

Dentre as testemunhas de acusação, estavam policiais da DRCI, que, além do costumeiro espetáculo de contradições, ao final da audiência deixaram o juizado em uma viatura oficial. A poucos metros dali, os agentes da ‘Gestapo’ carioca foram filmados parados ao lado de um grupo de adolescentes moradores de rua. Momentos depois, esses mesmos adolescentes foram flagrados arrancando faixas de apoio aos presos políticos estendidas em frente ao Fórum confeccionadas pelo Grêmio Estudantil do qual  Andressa faz parte. Questionados por ativistas, os menores disseram ter recebido 20 reais dos policiais da DRCI para irem até lá e arrancarem as faixas.

 — Estamos todos, eu, equipe e companheirada cansados, mas com aquela sensação gostosa de que, mais uma vez, a força da união daqueles que não transigem com o Estado e a opressão foi imbatível... Temos certeza de que fizemos a nossa parte e ainda ajudamos outros vitimados nesses processos infames... ainda juntamos um conjunto relevante de documentos e dois vídeos, que detonam toda e qualquer possibilidade de recuperação da acusação — declarou o advogado Marino D’Icarahy em depoimento publicado em uma rede social.

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