As reivindicações feministas

A- A A+
Pin It

Nota da redação: artigo publicado em 1924, no qual o espírito atento de repórter do autor registra o nascimento das lutas das mulheres em seu país.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Pulsam no Peru as primeiras inquietudes feministas. Existem algumas células, alguns núcleos de feminismo. Os propugnadores do nacionalismo extremo pensarão provavelmente: aí está outra ideia exótica, outra ideia forasteira que se enxerta na mentalidade peruana.

Tranquilizemos um pouco a essa gente apreensiva. Não se deve ver no feminismo uma ideia exótica, estrangeira. Deve-se ver nele, simplesmente, uma ideia humana. Uma ideia característica de uma civilização, peculiar a uma época. E, por consequência, uma ideia com direito de cidadania no Peru, como em qualquer outro segmento do mundo civilizado.

O feminismo não apareceu no Peru (de maneira) artificial nem arbitrariamente. Apareceu como uma consequência das novas formas de trabalho intelectual e manual da mulher.

As mulheres de real filiação feminista são aquelas que trabalham e que estudam.

A ideia feminista prospera entre as mulheres de ofício intelectual ou de ofício manual: professoras universitárias e operárias. Encontra um ambiente propício a seu desenvolvimento nas salas universitárias, que atraem cada vez mais as mulheres peruanas, e nos sindicatos operários, nos quais as mulheres das fábricas se envolvem e se organizam, com os mesmos direitos e os mesmos deveres que os homens.

À parte desse feminismo espontâneo e orgânico, que recruta suas militantes entre as diversas categorias do trabalho feminino, existe aqui (no Peru), como em outras partes, um feminismo de diletantes, um pouco pedante e outro pouco mundano. Esse tipo de feministas convertem o feminismo num simples exercício literário ou num mero esporte da moda.

Ninguém deve surpreender-se de que todas as mulheres não se reúnam num movimento único. O feminismo tem, necessariamente, várias cores, diversas tendências.

Pode-se distinguir no feminismo três tendências fundamentais, três cores substantivas: feminismo burguês, feminismo pequeno-burguês e feminismo proletário. Cada um deles formula suas reivindicações de uma maneira distinta.

A mulher burguesa solidariza o feminismo com o interesse da classe conservadora. A mulher proletária consubstancia seu feminismo com a fé das multidões revolucionárias na sociedade futura. A luta de classes – fato histórico e não assertiva teórica – se reflete no plano feminista.

As mulheres, assim como os homens, são reacionárias, centristas ou revolucionárias. Não podem, por conseguinte, combater juntas a mesma batalha. No atual panorama humano, a classe diferencia mais os indivíduos do que o sexo.

Mas essa pluralidade do feminismo não depende da teoria em si mesma. O feminismo, como ideia pura, é essencialmente revolucionário. Portanto o pensamento e a atitude das mulheres que se sentem, ao mesmo tempo, feministas e conservadoras, carecem de coerência. (Isso porque) o conservadorismo trabalha por manter a (velha) organização tradicional da sociedade. E essa organização nega à mulher os direitos que esta quer adquirir.

É certo que as raízes históricas do feminismo estão no espírito liberal. A revolução francesa conteve os primeiros germens do movimento feminista. Nascido de matriz liberal, o feminismo não pôde (no entanto) ser ativado durante o processo capitalista. É agora, quando a trajetória da democracia (burguesa) chega perto do seu fim, que a mulher adquire os direitos políticos e jurídicos do varão. E é a revolução russa que tem concedido, explícita e categoricamente, à mulher a igualdade e a liberdade que há mais de um século Babeuf e os Igualitários reclamavam da revolução francesa.

Mas se a democracia burguesa não realizou o feminismo, criou involuntariamente as condições para sua realização. Valorizou a mulher como elemento produtor, como fator econômico, ao fazer de seu trabalho um uso cada dia mais extenso e intenso.

O trabalho muda radicalmente a mentalidade feminina. A mulher adquire, em virtude do trabalho, uma nova noção de si mesma.

Antigamente a sociedade a destinava ao matrimônio ou ao amancebamento. Aqueles que (hoje) rechaçam o feminismo e seus progressos com argumentos sentimentais ou tradicionalistas pretendem que a mulher seja educada só para o lar.

A defesa poética do lar é, na realidade, uma defesa da servidão. Em vez de enobrecer e dignificar o papel da mulher, o diminui e rebaixa. A mulher é muito mais que uma mãe e uma fêmea, assim como o homem é mais que um macho. 

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja