A vida que nos deste*

120 anos do nascimento de J. C. Mariátegui

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Uma multidão acompanhou o funeral do dirigente comunista

Um dos espíritos mais potentes que a América Latina conheceu consumiu seu corpo em apenas 35 anos. Mesmo assim, seu fervor e dedicação cabal à revolução fizeram suficiente este diminuto tempo para iluminar séculos inteiros de história, lançando suas idéias germinais sobre os férteis Andes, nos quais se ergueram seus legítimos continuadores.

Mariátegui foi o primeiro marxista “convicto e confesso” da América Latina. Nasceu no Peru em 14 de junho de 1894, coincidindo com o surgimento do proletariado peruano. Sua maturação teórica e prática convergiu com o desenvolvimento político e organizativo de sua classe. Mariátegui, longe de ser um intelectual “puro”, foi um intérprete proletário e militante revolucionário.

Sua preocupação vital foi interpretar a realidade para sua transformação. O marxismo, em sua época marxismo-leninismo, foi a luz que, principalmente depois de suas vivências na Europa e a influência da Revolução Russa (1917), iluminou esta tarefa histórica. Assim, o marxismo foi falado em espanhol não como tradução, senão como aplicação à realidade latinoamericana e como consciência da vontade de um povo. Mariátegui a respeito defendeu: “Não queremos que o socialismo seja, em nosso continente, uma réplica; tampouco queremos que seja cópia. Tem que ser uma criação heroica”.

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Em sua época, a intelectualidade reformista, para combater sua defesa do marxismo e suas posições revolucionárias, o rotulou de “europeizante”, crítica estreita que se sustentou no fato de que foi em meio de suas decisivas vivências na Europa que conheceu o marxismo, que depois aplicou à realidade peruana e latinoamericana. Depois de sua morte até os dias atuais, ante o fracasso desta torpe acusação, tem sido ensalsado, em diferentes círculos acadêmicos, para ser negado em sua essência revolucionária, sendo que, em alguns casos, estereotipado como um marxista romântico ou místico metafísico. O esforço de Mariátegui contra o dogmatismo converteu sua obra no alvo de todo tipo de distorções forçadas, com o objetivo de pôr suas análises concretas contra o marxismo-leninismo que defendeu até sua morte em 1930.

Pese suas limitações físicas, sua prática revolucionária esteve ao nível de seu brilho teórico. Mariátegui foi o principal fundador do Partido Comunista do Peru¹, em 1928. Esta, sua maior obra, foi encarnada depois de um longo trabalho de aplicação e difusão do marxismo-  leninismo (a etapa que havia alcançado o marxismo à época), acompanhado de um incansável esforço de organização das lutas do povo peruano.

Durante anos foi o principal impulsionador de importantes revistas e jornais como Claridad, Amauta², Mundial e Labor, verdadeiras armas teóricas a serviço do proletariado e do povo peruano que provocaram a repressão das forças reacionárias do Estado, causando a ilegalidade destes meios de debate e “definição ideológica”, assim como, mais de uma vez, a prisão. Sobre isto, Mariátegui comentou: “O trabalho intelectual, quando não é metafísico e sim dialético, vale dizer histórico, tem seus riscos. Para quem não é evidente, no mundo contemporâneo, um novo gênero de acidente do trabalho?”. Apesar dessa perseguição política, Mariátegui continuou este trabalho frutífero, inclusive quando foi obrigado a realizá-lo na clandestinidade.

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Carteira de jornalista de Mariátegui

O Amauta contribuiu enormemente nas lutas populares no Peru, participando em importantes batalhas como a reivindicação operária pelas oito horas de trabalho e coadjuvando, por exemplo, enormemente na constituição da Confederação Geral dos Trabalhadores do Peru (CGTP).

Fundindo-se ao movimento camponês, criticou as correntes “indigenistas” que estreitamente limitavam a solução do problema camponês a um problema racial ou pedagógico. Embora três quartos da população peruana, na época, estivesse composta por indígenas, Mariátegui compreendeu o racismo existente contra essa população, essencialmente camponesa, como consequência da opressão e exploração feudal derivada da decomposição do Tawantinsuyo³ a partir da dominação colonial espanhola e conservado até a dominação imperialista das grandes potências capitalistas. Particularmente, assinalou como problema fundamental, não só para a questão indígena como também para a sociedade peruana em geral, o problema da terra, isto é, a dominação da grande propriedade latifundiária; assinalou: “O capitalismo estrangeiro se serve da classe feudal para explorar em seu proveito estas massas camponesas”. Embora, por razões históricas, não tivesse conhecimento dos grandes aportes de Mao Tsetung, vemos como se aproximou significativamente da experiência da Revolução Chinesa.

Este importante avanço não se reduziu a compreensão da realidade peruana. A partir de um amplo estudo da realidade latinoamericana, generalizou a nível continental sua caracterização destes países como semifeudais e semicoloniais, defendendo como começo de sua via revolucionária a destruição radical do latifúndio. Dentro de sua participação destacada na I Conferência Latinoamericana da III Internacional (1928), defendeu , através da delegação de seu Partido, esta questão pouco compreendida até então no Movimento Comunista Internacional. Este debate, desenvolvido sob uma alta unidade revolucionária, foi resolvido através da poderosa prática da Revolução Chinesa.

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Lamentavelmente, Mariátegui morreu fisicamente em 16 de Abril de 1930, fato que derivou em manifestações populares multitudinárias. Seu corpo foi envolto na bandeira vermelha, honrada por colunas de milhares de homens e mulheres que cantavam A Internacional e juravam seguir o exemplo de seu Amauta.

Para concluir, sem querer reduzir Mariátegui a um simulacro, falar desse brilhante homem é falar da revolução proletária e, particularmente, da revolução peruana. Seu pensamento foi retomado e desenvolvido. Está vivo e materializado nas estremecedoras lutas populares no Peru, principalmente as camponesas pela terra, e inseparavelmente, no novo poder sustentado na aliança operário-camponesa, o mais significativo fruto da guerra popular dirigida pelo PCP, este último fundado pelo Amauta e reconstituído por seu maior herdeiro, Abimael Guzmán.

A vida de Mariátegui transcendeu a morte. Modificando este belo verso do poema que ele mesmo escreveu para sua esposa, hoje dizemos: A vida que te falta é a vida que nos deste.

Aceito a revolução com todos os seus horrores, sem qualquer reserva covarde.

Mariátegui

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*Traduzido para o português pelo jornal A Nova Democracia.

1 - Fundado com o nome de Partido Socialista do Peru.

2 - Palavra em quechua (língua indígena presente na serra peruana - Andes) que significa “mestre” ou “sábio”. Depois do lançamento dessa revista, Mariátegui passou a ser conhecido por esse nome.

3 - Nome em quechua do Império Inca, literalmente “As quatro regiões”.

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