Série Mariátegui Jornalista: A luta indígena contra o “coronelismo”

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Festa numa fazenda no Peru nos anos 20. À frente os mais pobres, no meio os funcionários da fazenda e atrás os latifundiários

Nota da redação: o peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), considerado um dos pensadores marxistas mais profundos e geniais das Américas, ainda é pouco conhecido pelo povo brasileiro. Analista do imperialismo e das classes sociais (pioneiro na definição de seu país como feudal/semifeudal); fundador do Partido Socialista (depois transformado no Partido Comunista do Peru, PCP); professor nas Universidades Populares dedicadas ao proletariado; criador de revistas (como a respeitada Amauta), no Brasil poucos sabem que além de teórico, Mariátegui foi um jornalista de abundante produção.

Assim, AND selecionou alguns de seus artigos/crônicas/reportagens e abriu esta Série Mariátegui Jornalista para apresentá-los ao público leitor nacional. Por limitação de espaço, vários dos textos foram resumidos e a Série não tem periodicidade fixa.

Para esta edição escolhemos o ensaio O problema das raças na América Latina e seu subtema A luta indígena contra o “coronelismo” (gamonalismo, em espanhol), publicado em 1929. Fundimos e sintetizamos os dois textos.

Neles, o autor mostra a exploração feudal dos índios pelos latifúndios peruanos em pleno século XX e a resistência dos nativos. Esta luta, intensa mas desorganizada, precisaria ganhar a firme adesão dos socialistas, pregava Mariátegui.

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A colonização da América Latina pela raça branca não teve, como é fácil provar, senão efeitos de retrocesso e depressão na vida das raças indígenas. Povos como o quêchua (NOTA: principalmente os incas, com capital sediada no Peru) e o asteca (México), que haviam chegado a um grau avançado de organização social, retrocederam sob o regime colonial à condição de dispersas tribos agrícolas.

Aquilo que nas comunidades indígenas do Peru subsiste (hoje) de elementos de civilização é, sobretudo, aquilo que sobrevive da antiga organização autóctone. No agro feudalizado, a civilização branca não criou focos de vida urbana, e não significou sempre sequer industrialização e maquinaria: no latifúndio andino, à exceção de certas fazendas de gado, o domínio do branco não representa, nem tecnologicamente falando, nenhum progresso comparável à cultura aborígene.

(Atualmente) chamamos de problema indígena à exploração feudal dos nativos nas grandes propriedades agrárias. O capitalismo, como sistema econômico e político, se manifesta incapaz, na América Latina, de edificar uma economia emancipada das taras feudais. Na agricultura, o estabelecimento de salário ou a adoção da máquina não apagam o caráter feudal da grande propriedade. (Os latifundiários) simplesmente aperfeiçoaram o sistema de exploração da terra e das massas camponesas (NOTA: que são majoritariamente indígenas e mestiças).

Boa parte de nossos burgueses e “coronéis” sustentam acaloradamente a tese da inferioridade do índio: o problema indígena, em seu juízo, um problema étnico cuja solução depende do cruzamento da raça indígena com raças superiores estrangeiras.

Para o imperialismo ianque ou inglês (no Peru e países onde os índios são maioria) o valor econômico dessas terras seria muito menor se, junto com suas riquezas naturais, não possuíssem uma população indígena atrasada e miserável, a qual, com a parceria das burguesias nacionais, fosse possível explorar ao extremo.

Quando se fala da atitude do índio ante seus exploradores se subscreve, geralmente, a impressão de que, envilecido e deprimido, o índio é incapaz de toda luta, de toda resistência. A longa história de insurreições e motins indígenas, e dos massacres e repressões conseguintes sofridos por eles, bastam por si mesmos para desmentir essa impressão.

Uma das sublevações que, nos últimos tempos (1915) assumiu proporções extraordinárias, foi a chefiada pelo major do exército Teodomiro Gutierrez, andino mestiço, de forte percentagem de sangue indígena, que se fazia chamar de Rumimaki (NOTA: Mão de Pedra, no idioma quêchua) e se apresentava como o redentor de sua raça. Foi seguido por vários milhares de índios, porém, como sempre, desarmados e indefesos ante as tropas, estavam condenados à dispersão ou à morte. (E foi o que ocorreu).

A esta sublevação seguiram-  se as de La Mar e Huancané em 1923 e outras menores, todas sangrentamente reprimidas.

Em 1921 reuniu-se, sob auspicio governamental, um congresso indígena do qual participaram delegações de vários grupos de comunidades (NOTA: as “comunidades” são, ainda hoje, vilarejos de índios cujo tipo de organização foi herdada dos incas).

Os delegados fizeram, em quêchua, enérgicas acusações contra os “coronéis”, as autoridades e os padres (católicos). Constitui-se um comitê chamado “Pró-Direito Indígena Tahuantinsuyo” (NOTA: Tahuantinsuyo era o nome do império incaico).

Realizou-se um congresso por ano até 1924, quando o governo perseguiu os elementos revolucionários indígenas, intimidou as delegações e desvirtuou o espírito e o objeto da assembleia.

(Isso porque) o congresso de 1923, no qual se havia votado conclusões inquietantes para o “coronelismo”, tinha revelado o perigo dessas conferências (para o latifúndio), pois os grupos de comunidades indígenas de diversas regiões entravam em contato e coordenavam suas ações.

Em 1927, o governo dissolveu o comitê Tahuantinsuyo (NOTA: que passara a funcionar à parte das assembleias). Este comitê nunca teve maior importância (para os índios) que sua (mera) participação nos congressos e era composto por elementos que careciam de valor ideológico e pessoal, e que, não em poucas ocasiões, haviam aderido à política governamental, a considerando pró-indigenista. Porém, para alguns “coronéis”, o comitê ainda era visto como um instrumento de agitação, um resíduo dos congressos indígenas (e assim foi dissolvido).

O problema indígena se identifica com o problema da terra. O latifúndio feudal mantém a exploração e a dominação absolutas das massas indígenas pela classe proprietária.

A luta dos índios contra os “coronéis” tem se estribado invariavelmente na defesa de suas terras contra a absorção e o despojo.

Existe, portanto, uma instintiva e profunda reivindicação indígena: a reivindicação da terra. Dar um caráter organizado, sistemático, definido a esta reivindicação é a tarefa que temos nós (socialistas/comunistas) o dever de realizar ativamente.

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