Mães e pais em luta

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No dia 10 de dezembro de 2014, Cristina Baroni e Rosilene Teixeira, integrantes da Comissão de Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos do Rio de Janeiro, estiveram presentes no ‘Ato em Repúdio ao Golpe de 1964 – 50 anos’, organizado pela Frente Independente pela Memória Verdade e Justiça de MG, em Belo Horizonte. Na ocasião, a reportagem de AND teve a oportunidade de ouvi-las sobre a luta empenhada pelos familiares dos ativistas perseguidos, a situação dos presos e a luta por sua libertação. O texto que segue abaixo é a transcrição integral de seus depoimentos.

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Familiares de ativistas montam banquinha na Cinelândia

A Comissão de Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos do Rio de Janeiro surgiu da luta de nossos filhos e filhas, do nosso povo. Todos viram os protestos de milhares de pessoas que tomaram as ruas no Rio e em todo o país a partir de junho de 2013, mas nem todos viram a terrível repressão que desabou sobre os ativistas, sobretudo após o acidente que resultou na morte do cinegrafista Santiago.

Nós estávamos lá, com nossos filhos, denunciando a repressão no dia da morte dele. Nós sabemos o que aconteceu naquele dia. A polícia cercou todas as imediações da Central do Brasil e disparou para todos os lados contra os manifestantes. Eles sim miravam em um objetivo, miravam nos manifestantes. Aquele artefato que atingiu a cabeça do Santiago por acidente, ele estava com o “rabicho” cortado e voou sem direção, estava no chão quando foi aceso e não foi mirado. As próprias imagens mostram isso. Nenhum manifestante saiu de casa pensando: “vou matar um jornalista”.

Desde aquele dia vimos como o Estado, a polícia e o monopólio da imprensa encontrou um fato que lhes serviu para atacar os ativistas e desencadear a caçada aos jovens mais combativos.

Desde então, dois jovens, dois trabalhadores, estão presos acusados como se fossem os piores bandidos, o que não são. O Fábio é um jovem rebelde, rebelde contra toda essa situação que aí está, rebelde como tantos jovens. Ele é uma pessoa inteligente, trabalhadora, solidária. O Caio é um jovem de família pobre. É um lutador e sua família também é lutadora, que vive no subúrbio e trabalha muito. Ele lutava por melhor transporte para o povo, contra o roubo que esses políticos cometem todo o dia. Ele estava saindo do trabalho, pois o Caio é auxiliar de serviços gerais. Ele passou no trabalho de seu pai, disse que já estava indo para casa, mas passou pelo protesto e, como tantos jovens, se sensibilizou e se juntou àquela juventude. Isso que ele estava fazendo, estava lutando com nossos filhos por um país melhor. Não é bandido, não é criminoso!

Querem fazer passar que eles tiveram intensão de matar aquele cinegrafista e isso que esse judiciário e essa imprensa fazem, isso sim é um crime! O Caio ficou muito entristecido quando soube da morte do Santiago, mas não tem culpa e não é o responsável por isso. A culpa é desse Estado, da polícia que disparava, inclusive com munição letal, jogava bombas e reprimia nossos filhos, nossos jovens naquele dia.

Outro jovem preso, muito menos falado que os outros por ser negro, pobre, muito pobre, filho de pais muito pobres e por trabalhar catando e vendendo materiais recicláveis é o Rafael Braga. Ele foi preso portando garrafas de produtos de limpeza em junho de 2013 enquanto ocorria um grande protesto no Rio de Janeiro e é mantido encarcerado desde então acusado de porte de artefato explosivo. Após meses encarcerado, ele passou a cumprir o regime semiaberto, mas, em outubro de 2014, após ser fotografado ao lado de uma pichação em um muro que denunciava o Estado, Rafael foi novamente encarcerado e mantido dez dias incomunicável na solitária. Ele foi acusado de ter alguma ligação com aquela pichação, mas Rafael sequer sabe escrever.

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Quem são esses jovens?

No início tivemos dificuldades enormes, muito maiores que enfrentamos hoje. No começo, aqueles jovens foram reféns de um advogado mal intencionado, criminoso, acusado de envolvimento com milicianos, que fez de tudo para jogar o Fábio contra o Caio e para incriminar todos os manifestantes.

Os primeiros advogados não nos permitiam ter contato com Caio e Fábio e criaram todas as dificuldades para fazermos contato. Somente após meses conseguimos contatar os pais de Fábio e Caio, que são pais, sentem, são pessoas sensíveis que estão preocupados com seus filhos. Era muita confusão, os jornais atacando, as pessoas sendo influenciadas por essa propaganda porca, nojenta, criminalizadora. Mas quando eles conseguiram visitar seus filhos, quando sua defesa passou a ser realizada por advogados honestos, essa situação passou a mudar.

Conseguimos falar com os pais de Fábio Raposo. Eles transmitem ao Fábio toda solidariedade e o informam sobre a luta que ocorre aqui fora para que ele seja solto e para que todos os presos políticos sejam soltos. Na prisão, carcereiros provocam, dizem que eles estão abandonados, que ninguém mais se lembra deles e que eles irão mofar na cadeia. É uma situação muito difícil, mas ele e o Caio estão enfrentando com firmeza. Buscamos passar também essa firmeza para eles.

Os pais do Caio Silva também têm contato com a Comissão. São trabalhadores, gente muito honesta e honrada. Eles sabem que o filho não é um criminoso e também buscam passar firmeza e tranquilidade para ele.

Os pais do Rafael Braga são pessoas extremamente dignas. Pessoas muito boas mesmo, simples, humildes, que falavam muito pouco diante dos advogados e das ditas autoridades por não se sentirem a vontade com o ambiente do judiciário. Mas a mãe de Rafael fala e fala muito, fala em defesa do seu filho e, quando conheceu a Comissão de Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos, ela encontrou o espaço que precisava para dizer o que pensa e sente.

Em nossas reuniões da Comissão, temos agrupado cada vez mais pais, e quando não conseguimos nos reunir com todos, telefonamos, mantemos uma rede de pessoas muito unidas e muito solidárias. A luta de nossos filhos fez com que pais e mães também tivessem contato com essa luta, a compreendessem. Alguns podem até não entender completamente o que levou tantos jovens a se rebelarem em todo o país. Outros compreendem melhor hoje. E outros ainda mais, tornaram-se também ativistas, pois enxergam hoje com clareza o que é esse Estado, essa polícia, esses governos, e entendem que sem mudar isso tudo jamais haverá liberdade para nossos filhos, para nós mesmos e para as gerações futuras.

A prisão de Igor Mendes

O Igor é um ativista exemplar, estudioso, trabalhador, solidário. Inclusive foi um grande estimulador da formação de nossa Comissão, pois é um incansável defensor de todos os ativistas presos e perseguidos no Rio e em todo o Brasil.

Ele foi preso acusado de descumprir as condições impostas pelo habeas corpus que mantinha vários ativistas em liberdade, mas que impunha sérias limitações, como não participar de manifestações públicas, convocação de atos na internet etc.. Ele e outras duas ativistas, a Karlayne Moraes, conhecida como Moa, e a Elisa Quadros, conhecida como Sininho, foram acusados de descumprir essas condições ao participarem de uma atividade cultural realizada no Centro da cidade.

O Igor foi preso quando saída de casa na manhã de 3 de dezembro e continua preso. Ele foi levado para a Cidade da Polícia, depois para a triagem em Bangu e, posteriormente, transferido para outro presídio em São Gonçalo [no dia dessa entrevista o jovem ainda não havia sido transferido novamente para Bangu, onde permanece até hoje]. O Igor foi preso injustamente mas, sabendo as justeza de sua luta, foi de cabeça erguida. Ele não admitiu ser tratado como bandido, não aceitou que os agentes penitenciários raspassem o seu cabelo e tentaram fazê-lo na força, mas tamanho foi o protesto desse jovem que não conseguiram raspar. Ele foi recebido pelos presos com solidariedade. Fomos informados pela mãe e irmã do Igor [Jandira e Isabela Mendes] que ele já participa da limpeza coletiva da cela com os presos e que está firme.

A mãe do Igor, como ele é valente! Ela se coloca à frente, junto com outras mães, nos protestos e segura com orgulho as fotos do seu filho, segura com firmeza as faixas exigindo a libertação de todos os presos políticos.

São 23 jovens processados, acusados de “formação de quadrilha armada” e outras acusações absurdas. Querem imputar um crime de formação de quadrilha para jovens que, muitos deles, sequer se conheciam, que estavam juntos nos protestos por compartilharem da mesma indignação.

“Não vamos parar”

Como dissemos, a Comissão dos Pais e Familiares dos Presos e Perseguidos Políticos do Rio se reúne com regularidade. Buscamos manter todos informados do andamento dos processos contra os ativistas, conversamos com os advogados, participamos de atos em defesa dos presos e perseguidos políticos na cidade e em outras regiões do país. Nos solidarizamos com as demais lutas de nosso povo e recebemos a solidariedade de pessoas e organizações populares, inclusive de outros países.

Temos gastos para nossos deslocamentos e também buscamos apoiar as famílias dos presos, pois muitos deles são trabalhadores e ajudavam suas famílias. Há vários ativistas que tiveram que sair de casa com a iminência de serem presos. Saíram com a roupa do corpo. São perseguidos políticos desse sistema que chamam de “democracia”, desse governo do PT que se dizia do povo, desse Estado que pune os pobres e os lutadores e deixa os verdadeiros bandidos, os que assaltam nosso povo e que estão aí no poder, soltos.

 Temos muito trabalho, mas temos muita determinação. Não vamos parar nossa luta até que todos os presos políticos sejam soltos e todos os processos extintos.

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