Europa agora tem ‘guerra ao terror’ para chamar de sua

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Soldados do exército reacionário da França patrulham Paris

Não é preciso ser algum especialista em desmascarar os engendros no âmbito da política dos países imperialistas para constatar, à luz da conjuntura da corrida pela repartilha do mundo entre as potências capitalistas e seus monopólios moribundos, que o ataque ao jornal “satírico” francês Charlie Hebdo e o tiroteio em um mercado judeu, ambos os incidentes ocorridos no início de janeiro em Paris, servirão para que a Europa do capital monopolista reunida sob o chapéu da União Europeia tenha uma “guerra ao terror” para chamar de sua, além de um pretexto para reforçar seus laços com o fascismo sionista.

E mais: a chacina de cartunistas do Charlie Hebdo e todo o clima de tiroteios por toda parte espalhado naquele 7 de janeiro e nos dias subsequentes na França funcionou de imediato como um subterfúgio para que os chefes políticos e a grande burguesia da Europa incrementassem ainda mais a sua própria tendência ao fascismo mais aberto, assumido tendência que se manifesta seja pela via da ascensão dos partidos, digamos, “nacionalistas”, seja pela implementação de políticas xenófobas e racistas por estimados “democratas” e notórios “socialistas”, como o próprio “presidente” francês François Hollande.

O ministro do Interior da França, Manuel Valls, chegou mesmo a dizer que o governo do país iria “tomar medidas excepcionais”, porém jamais “medidas de exceção”. Pois bem. A primeira coisa que o próprio Valls anunciou em seguida, em discurso na Assembleia Nacional feito uma semana após o ataque ao Charlie Hebdo, foi que “A França está em guerra contra o terrorismo, o jihadismo e o islamismo radical”, e que o primeiro a se fazer neste sentido é “reforçar a jurisdição antiterrorista”.

Em bom francês, ou em bom “geopolitiquês”, isso significa dizer que a França, e talvez a própria União Europeia, autoriza a si própria a incrementar ainda mais sua participação nos esforços de “contraterrorismo” pelo mundo, assumindo maior protagonismo nas ingerências, invasões e ocupações de nações soberanas (o mais autêntico terrorismo), e naturalmente requisitando melhor participação no butim do neocolonialismo.

Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 foram a senha para o USA colocar em prática novos esforços de dominação global que já estavam previstos no papel desde muito antes - desde que a crise geral de superprodução relativa do capitalismo global empurrou as potências imperialistas para novos esforços de partilha do mundo, como prova o “Projeto para um novo século norte-americano”, documento elaborado pela Casa Branca em 1997. Da mesma forma, o ataque à redação do Charlie Hebdo e o incidente no mercado judaico em Paris serão a senha para a Europa deixar de lado de uma vez, diante a crise que lhe sufoca e lhe empurra para o militarismo escancarado, o esforço demagógico que os polidos e “humanistas” chefes do imperialismo europeu sempre fizeram para se apresentar como contraponto ao porrete, por assim dizer, do imperialismo ianque.

Essa linha, no melhor estilo “polícia do mundo”, já vinha sendo desenhada há tempos nos arranjos e rearranjos das “missões” da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan. Há sete anos, na cúpula da aliança militar-imperialista transatlântica em Bucarest, na Romênia, foram declarados os objetivos de a Otan se converter em “instrumento político-militar flexível, não apenas de seus membros, mas também, amplamente, da comunidade internacional”, ou “provedora de segurança claramente mais eficaz em um mundo cada vez mais globalizado e perigoso”. Naquele léxico, o da geopolítica, isso significa partir para a guerra, para fomentar a guerra, para rufar os tambores da guerra como derradeiro esforço para tirar do pescoço a corda da crise de morte.

No plano interno da Europa, o cenário que se configura é o do açulamento do medo e, portanto, do ódio aos povos imigrantes a despeito da demagogia da “guerra contra o islã radical e não contra o islã” o que se encaixa perfeitamente na clara fascização do continente, da qual o arrocho sem fim às massas trabalhadoras é uma das nuances.

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Trata-se de um açulamento, claro, subrreptício, por meio, por exemplo, do anúncio pelo mesmo Manuel Valls de que milhares de pessoas na França passarão a ser vigiadas por “suspeita de ligação com o terrorismo” ou com o desencadeamento de inúmeras operações de “contraterrorismo”, de batidas policiais para desmantelar supostas “células terroristas” não apenas na França, mas em vários países europeus, como já aconteceu também na Bélgica e na Alemanha na sequência dos acontecimentos em Paris, com dezenas de pessoas presas.

As “medidas contra o terrorismo” se espalham pela Europa, aliás, na proporção direta do tamanho da hipocrisia oficialesca que se seguiu ao massacre na sede do Charlie Hebdo, cujo ápice, sem sombra de dúvida, foi a incensada “marcha pela paz” nas ruas de Paris, encenada no último 11 de janeiro, quatro dias após os tiroteios na capital francesa, e da qual participaram nada mais, nada menos do que alguns dos maiores terroristas vivos, do genocida Benjamin Netanyahu ao próprio chefe de turno do imperialismo francês, Hollande, todos de braços dados tentando parecer indignados justamente com a barbárie que não param de semear.

E por falar em barbárie, e a respeito da repercussão/comoção em torno do ataque ao jornal Charlie Hebdo, muita gente que se apresenta como de “esquerda” prontamente engrossou o coro da demagogia ao se armarem de indignação contra quem não aderiu à campanha “Eu sou Charlie”.

Disseram, estes da “esquerda” rosada, que se assumir “Charlie” não significava assinar embaixo as charges provocativas do jornal, mas sim marcar posição contra a violência, a barbárie, o “terrorismo” etc. Desconhecem ou fingem desconhecer que não assumir-se Charlie pode ser justamente se recusar a deixar que a consternação diante da dor dos outros (que aliás não se vê dirigida às vítimas do terrorismo imperialista) solapar as questões políticas e geopolíticas que pairam, com carnificinas quase que diárias, o banho de sangue extraordinário levado a cabo no coração de Paris.

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