Série Mariátegui Jornalista

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Os votos do congresso nacional hindu

O peruano José Carlos Mariátegui (1894-1930), considerado um dos pensadores marxistas mais profundos e geniais das Américas, ainda é pouco conhecido pelo povo brasileiro. Analista do imperialismo e das classes sociais (pioneiro na definição de seu país como semifeudal); fundador do Partido Socialista (depois transformado no Partido Comunista do Peru, PCP); professor nas Universidades Populares dedicadas ao proletariado; criador de revistas (como a respeitadaAmauta), no Brasil poucos sabem que além de teórico, Mariátegui foi um jornalista de abundante produção.

Assim, AND selecionou alguns de seus artigos/crônicas/reportagens e abriu esta Série Mariátegui Jornalista para apresentá-los ao público leitor nacional. Por limitação de espaço, vários dos textos foram resumidos e a Série não tem periodicidade fixa.

Para esta edição escolhemos a reportagem Os votos do Congresso Nacional Hindu, publicada em 1930. Para quem acompanha e se solidariza hoje com a revolução naxalita (dirigida pelo Partido Comunista da Índia/Maoísta), vale a pena ler o interessante texto de Mariátegui, escrito em plena fervura da luta indiana para livrar-se das garras inglesas. Na matéria jornalística o autor mostra o parlamento lacaio (Congresso) votando pela proclamação da independência sob pressão do povo; o desdém britânico a tal voto; e as ações proteladoras de Gandhi (hoje incensado como herói pela grande burguesia mundial e sua imprensa), que tinha medo das massas rebeladas.

Haveria que ignorar toda a história da luta do povo hindu por sua independência nacional, desde a etapa que começou em 1918, para surpreender-se com o voto do Congresso Nacional da Índia reunido em Lahore.

O Congresso, ao qual agora as declarações britânicas tratam de retirar autoridade porque deixou de ser uma assembleia colaboracionista, auspiciada semioficialmente por funcionários do Império, não chegou a esse voto senão através de uma série de experiências, determinadas pelo movimento de massas.

A corrente nacionalista revolucionária tomou conta do Congresso em 1918, de forma que parecia se anunciar uma decidida luta pela emancipação. Porém aquela época era a do irresistível crescimento do gandhismo. As massas estavam sob a influência de Gandhi, que propunha obter o triunfo da causa “swarajista” mediante a desobediência civil.

Repetidas vezes se atrasou a aplicação dessa medida destinada, apesar de seu caráter passivo, a conduzir o povo hindu a um conflito aberto com seus opressores. Mas este efeito contrariou Gandhi, a quem as primeiras cenas da violência (popular/justa) desgostaram como se fossem um horrendo pecado.

Nos anos posteriores a 1924 o gandhismo tomou o caráter mais de experiência mística do que de um movimento político.

Porém o anseio de liberdade vigorava nas massas e a luta de classes assegurava a participação ativa e resoluta do proletariado na batalha pela independência, que adquiria desse modo um sentido econômico-social.

Os elementos da burguesia hindu, partidários de uma reforma que entregasse o poder à sua classe, dentro do Império britânico, acreditaram que era o momento de buscar uma formula negociada.

Mas a pressão das massas não deixava de agir sobre os debates no Congresso Nacional e sobre o partido “swarajista”. Assim a reivindicação de uma independência completa se afirmou como vitoriosa na reunião de dezembro de 1927. Um ano depois o Congresso limitava a um ano o prazo dentro do qual aceitava a autonomia dentro do Império (Nota: a chamada autonomia era uma modalidade de independência ilusória e aparente, pela qual os britânicos continuavam com o poder de fato).

Não se deve esquecer que os últimos dois anos (1928 e 1929) foram de agitações de massas. Aos movimentos grevistas de Bombaim e Calcutá seguiram-se as demonstrações hostis no recebimento da comissão britânica presidida por Mister John Simon.

Hoje o Congresso Nacional, por proposta de Mahatma Gandhi, proclamou a independência absoluta da Índia. A isso lhe comprometiam deliberações anteriores e também porque assim se pronunciam, com energia cada vez mais visível, as classes trabalhadoras e camponesas.

Os ingleses fingem subestimar o valor desse voto, com argumentos tão artificiais como o de que este atual Congresso carece de faculdades legais. Evidentemente não é compatível com o regime colonial que pesa sobre a Índia o funcionamento de um parlamento de poderes legislativos reconhecidos.

O imperialismo se prepara para resistir (às massas) nas fábricas, nas cidades industriais, que serão os principais centros da luta revolucionária. E a esquerda reclama a mobilização imediata dos sindicatos operários. 

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A liberdade e o Egito

Neste artigo de 1924, o autor mostra o rechaço popular à opressão estrangeira (Turquia primeiro e Inglaterra depois) sobre aquele país. E, ao mesmo tempo, as debilidades do movimento nacionalista para dirigir a luta pela independência. Hoje, quando o povo egípcio se vê encurralado entre uma ditadura militar (sustentada pelo USA/Israel) e um grupo islâmico atrasado e também vende-pátria, se verifica uma vez mais (desde a época descrita por Mariátegui) como a existência de um partido revolucionário faz falta às massas daquela nação.

Despedida de alguns lugares da Europa, a Liberdade parece ter emigrado a povos da Ásia e da África. Provavelmente, do que mais se ressente a velha Dama é que os europeus já não a considerem revolucionária. (Se) sua sedução resulta estar velha na Europa, o mesmo não acontece nos continentes que até agora não a sentiram, ou que a gozaram incompletamente.

A Liberdade jacobina e democrática (burguesa) não se equivoca. É, com efeito, uma Liberdade velha, mas na guerra (Nota: 1a. Guerra Mundial), os aliados tiveram que usá-la, valorizá-la e rejuvenescê-la para agitarem e emocionarem o mundo contra a Alemanha.

(Finda a guerra, porém) na conferência de Versalhes lhe deram uma cadeira muito modesta e, logo, (ao assinarem) o tratado, tentaram degolá-la, com algumas fórmulas equívocas e mentirosas. Mas aí a Liberdade já tinha fugido ao Egito. Viajava pela África, Ásia e parte da América. Agitava os indianos, os persas, os turcos, os árabes.

Desterrada do mundo capitalista, se alojava no mundo colonial. Sua irmã caçula, a Igualdade, vitoriosa na Rússia, a auxiliava nessa campanha. Não só aconteceu que a Ásia e a África, como disse Gorky, perderam seu antigo e supersticioso respeito à superioridade da Europa. Aconteceu também que os asiáticos e os africanos aprenderam a usar as armas e os mitos dos europeus.

A Inglaterra é, naturalmente, a nação mais afetada por essa agitação. Porém é, também a que com os mais astutos meios, defende seu império. (Tanto é assim) que hoje as colônias inglesas não se chamam mais colônias, se chamam domínios.

Mas nem todas as colônias britânicas se contentam com essa autonomia (falsa). O Egito, por exemplo, luta esforçadamente para reconquistar sua independência. E não a quer relativa, aparente, condicionada.

Faz mais de 40 anos que os ingleses se instalaram militarmente na terra egípcia. Alguns anos antes já tinham desembarcado no país os seus funcionários, seu dinheiro e suas mercadorias. Em 1879 a Inglaterra e a França haviam imposto seu controle financeiro sobre os egípcios. Em seguida a Inglaterra aproveitou a insurreição de 1882 para ocupar marcialmente o vale do Nilo.

O Egito seguiu sendo, formalmente, um país tributário da Turquia, mas na prática se converteu numa colônia britânica.    

Os funcionários, as finanças e os soldados britânicos mandavam em sua administração, sua política e sua economia. Quando veio a guerra (mundial), os últimos vínculos formais do Egito com a Turquia foram cortados. O “khedive” foi deposto. Substitui-o um sultão nomeado pela Inglaterra.

Conseguida a vitória (na guerra), a Inglaterra negou ao Egito uma participação na paz. Zagloul Paxá deveria ter representado seu povo na Conferência, mas os ingleses não aceitaram a incômoda presença dos delegados egípcios.

O Egito insurgiu-se violentamente. Os ingleses o reprimiram duramente. Mas compreenderam a urgência de parlamentar com os egípcios. Uma missão de funcionários britânicos desembarcou em dezembro de 1919 no Egito para estudar as condições de uma autonomia compatível com os interesses imperiais. O povo a boicotou e isolou.

Porém, alguns meses depois, chamados a Londres, os representantes do nacionalismo egípcio debateram com o governo inglês as bases de um acordo. As negociações fracassaram. A Inglaterra queria conservar o Egito sob seu controle militar.

(Por enquanto) não se pode predizer, exatamente, o futuro do Egito. É provável que se Zagloul Paxá não consiga prontamente a independência do país, sua ascendência sobre as massas decaia. E que prosperem correntes mais revolucionárias e energias que a sua.

O poder (Nota: o gerenciamento) tem passado, no Egito, a tendências cada vez mais avançadas. Primeiro o conquistaram os nacionalistas moderados. Mais tarde estes tiveram que cedê-lo aos nacionalistas de Zagloul Paxá. Mas a última palavra será dita pelos operários e pelos “felás” (Nota: camponeses), em cujas camadas superiores se rascunha um movimento classista.        

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