Estudantes vão ao campo

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Trabalhar, estudar e lutar

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Juventude camponesa presta solidariedade militante com o ativista Igor Mendes e todos os presos políticos do campo e da cidade

Entre os dias 20 e 25 de janeiro, estudantes de Belo Horizonte e Goiânia, organizados pelo Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), visitaram áreas camponesas no Norte de Minas, onde desenvolveram atividades de produção, estudo e apoio à Revolução Agrária. Publicamos aqui trechos do relato enviado pela delegação de ativistas estudantis à redação do AND.

As delegações de Minas e Goiás se reuniram por feliz coincidência na rodoviária de Montes Claros, de onde partimos com destino a São João da Ponte. Passando primeiramente pelo Brejo dos Crioulos, percorremos várias comunidades de remanescentes de quilombolas cujos próprios moradores nos iam contando alguns fatos e histórias sobre a região. Chegando a área Para Terra fomos primeiramente conhecer a área cultivada, o sistema de irrigação e a famosa Ponte da Aliança Operário-Camponesa de que tanto ouvimos falar em Belo Horizonte.

Apesar da forte estiagem, o trabalho e a luta dos camponeses produzem de tudo: milho, mandioca, jiló, abóbora, hortaliças variadas... Os companheiros da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) que nos apresentavam a área ainda falavam de outras culturas que já passaram por ali e que foram grande sucesso, como a pimenta.

Tecnologia camponesa

Toda aquela produção rendia tanto graças ao sistema de irrigação. Nas plantações onde não havia irrigação, não se tinha tanta fartura, principalmente em tempos de seca como esse. E a maior lição de todas: o sistema todo é mérito dos camponeses! De forma coletiva, decidiram pela implantação do sistema, conseguiram na luta os recursos com o Conselho Municipal de Desenvolvimento Agrário para furar o poço e comprar os controladores digitais e o principal: instalaram com trabalho coletivo mais de vinte e sete mil metros de canaletas para a irrigação. Foram vários meses de trabalho árduo e vitorioso. A manutenção do sistema hoje é feita pelas famílias que cultivam 12,48 hectares irrigados.

A Ponte da Aliança Operário-Camponesa

O rio Arapuim estava seco, o que nos permitiu ver toda a estrutura da ponte. Sob sua sólida estrutura, ouvimos a história de como vários operários do Marreta – Sindicato dos Trabalhadores da Construção de BH e Região – que viveram, lutaram e trabalharam durante semanas com os camponeses para solucionar com as suas próprias forças um problema que há anos as prefeituras de São João da Ponte e Varzelândia sempre prometiam resolver. A história dessa obra pode ser lida em ‘O povo pode, faz e governa’, artigo publicado na edição nº 32 de AND, em dezembro de 2006.

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Apresentação do Grupo de Teatro Servir ao Povo

Trabalhando nas áreas camponesas

O segundo dia começou bem cedo, ao nascer do sol. Era a hora da produção! Fomos todos para o lote do companheiro Tião. Sua roça de milho estava pronta para a colheita. Ficamos muito felizes ao saber que estávamos fazendo as vezes de um outro companheiro que, por estar doente, não podia pagar ao companheiro Tião as diárias que haviam trocado. E, além de ajudar, ainda aprendemos muito! Todos saímos de lá com uma grande lição de luta e trabalho. Sobre o dia-a-dia do camponês pobre, responsável pela produção da maior parte do que comemos na cidade. Interrompemos a limpeza do milharal por conta do sol ardente e fomos até a central de controle do sistema de irrigação. Lá o companheiro Tião nos explicou o funcionamento daquele sistema complexo, “tecnologia de ponta, de última geração”, como ele mesmo explicou, e que lhes garante o sustento. Foi uma verdadeira aula!

Estudar e lutar

À tarde organizamos dois debates. No primeiro, assistimos ao vídeo do funeral do Companheiro Cleomar, coordenador político da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia assassinado por pistoleiros a mando de latifundiários em 22 de outubro do ano passado. A discussão foi riquíssima. Foi unânime a conclusão de que o companheiro Cleomar foi assassinado por ser uma liderança do movimento camponês combativo, mobilizando as massas oprimidas do campo para tomar as terras do latifúndio, para a Revolução Agrária! Nos emocionamos  com a fala dos companheiros ao retratarem a dedicação e o compromisso do Cleomar com os camponeses pobres. Um dos companheiros lembrou muito emocionado: “Uma vez o Cleomar me disse que se alguma coisa acontecesse com ele, que ele não queria que a gente desistisse da luta e é isso que a gente tá fazendo aqui!”. E completou: “a forma que a gente tem de vingar a morte dele é tomando todas as terras do latifúndio no Norte de Minas! Que se eles acham que o sangue do companheiro vai afogar a nossa luta, eles tão muito enganados. O sangue que o companheiro derramou está regando ainda mais a nossa luta pela Revolução Agrária!”

No debate seguinte, lemos o texto de D. Aroeira, Cangaceiros e (intelectuais) fanáticos, publicado na edição nº 143 de A Nova Democracia. A compreensão do texto foi enriquecida pela contribuição dos camponeses da área Para Terra, diretamente afetados pela tentativa de corporativização das massas pelo velho Estado, uma vez que a área, cujos lotes foram assentados na década de 1990, se encontra no centro do que posteriormente foi demarcado como sendo o território quilombola Brejo dos Crioulos. Os companheiros explicaram como foi aplicada a estratégia de tentar colocar os quilombolas contra os demais camponeses que estão dentro do território, sendo que a grande maioria deles, entre assentados e posseiros, já estava lá quando o território foi demarcado. As intervenções dos camponeses deixaram também muito claras quais são as diferenças entre a “reforma agrária” do governo e a Revolução Agrária feita pelos próprios camponeses.

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A nova cultura

Após o debate, nos integramos na atividade organizada pelas companheiras. Todos os dias, por volta das 18h, elas se reúnem (algumas vêm do outro lado da ponte) para fazer atividades físicas, se mantendo saudáveis e ainda mais dispostas e fortes para a luta. Mais à noite foi realizada a atividade cultural: assistimos em vídeo algumas apresentações do Grupo de Teatro Servir ao Povo, composto pela juventude camponesa, dentre elas, uma baseada em um texto do Presidente Mao Tsetung sobre a aldeia Tatchai. Uma companheira do grupo de teatro expôs sobre a organização e criação das peças.

A nova vida

No dia 22, visitamos a Área Revolucionária Brilho do Sol, onde visitamos algumas famílias. De lá, seguimos para outra área, a Conquista da Unidade. Visitamos o companheiro conhecido por todos como Zé do Povo. Ele nos contou muitas histórias incríveis, dentre elas, sobre aquela ser uma das primeiras áreas tomadas pelos camponeses organizados pela LCP no Norte de Minas. Nos contou sobre a repressão policial na época da tomada e do apoio que receberam do povo da cidade, inclusive de estudantes secundaristas, que visitaram a área prestando solidariedade. Emocionou-nos muito ver o companheiro Zé do Povo contar sobre a sua infância pobre e a vida difícil quando seu pai trabalhava para o latifúndio, numa miséria desoladora, e como sua vida mudou com a luta e a bandeira da Revolução Agrária erguida pela LCP. O seu quintal é a prova do que diz: cheio de criações! Uma delas, inclusive, nos ‘encheu o bucho’, num almoço delicioso como poucos....

À noite, retornamos para a área Para Terra. Uma importante reunião nos aguardava. Nela assistimos um vídeo sobre a produção na região, com exposição de fotos do trabalho coletivo de construção do sistema de irrigação. Depois foi a nossa vez: exibimos para os companheiros camponeses alguns vídeos mostrando os grandes levantamentos de massas nas cidades, principalmente da juventude combatente.

No dia 23, fizemos uma caminhada ao Caxambu, comunidade de remanescentes de quilombolas. A previsão de chuva alegrava a todos e nós aproveitamos para fazer uma última visita à casa do companheiro Tião. À noite, fizemos uma divertida roda de violão ao ar livre e nos divertimos cantando músicas que falam do campo e da vida camponesa.

No último dia de atividades nas áreas, acordamos e partimos bem cedo, sem necessidade de grandes despedidas. Primeiro porque nos dirigíamos para outra atividade importantíssima: o 3º Encontro da Juventude Camponesa. Em segundo lugar, porque pretendemos retornar o quanto antes para novas atividades como essas com nossos companheiros camponeses.

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