RJ: UPP faz novas vítimas na Penha e no Alemão

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Membros do Coletivo Papo Reto

Nos dias 7, 8 e 9 de fevereiro, a equipe de reportagem de AND esteve nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte do Rio, na companhia de membros do Coletivo Papo Reto, um grupo de comunicadores — fotógrafos, jornalistas e moradores dos complexos — que surgiu em 2014, diante do crescimento das denúncias de violência policial e da necessidade da existência de um Coletivo sólido que veiculasse essas denúncias nas redes sociais. O Coletivo Papo Reto rapidamente tornou-se uma referência no Alemão e na Penha e hoje possui uma rede baseada em aplicativos de bate-papo pelo celular por onde moradores fazem suas denúncias, que na maioria das vezes são apuradas, registradas e veiculadas por algum integrante do Coletivo.

No período em que nossa equipe esteve por lá foram incontáveis as denúncias de moradores com relação à ostensiva presença policial após a militarização da região pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Na madrugada do dia 7 para o dia 8 de fevereiro, segundo denúncias de moradores, policiais destruíram a tiros seis transformadores na localidade Largo da Vivi, próximo à Rua Dois, na favela Nova Brasília, uma das favelas do Complexo do Alemão. O óleo derramado dos transformadores impossibilitava o trânsito de veículos e até de pedestres pelo local. Além disso, grande parte da favela estava completamente sem luz.

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UPP leva rotina de repressão para favelas cariocas

— Olha o meu portão, amigo. Esses buracos de bala foram disparados essa madrugada. Ainda têm vários outros de outras ocasiões. Eles [policiais] passam aqui dando tiro no portão e gritando para ninguém sair de casa. Todo dia é um terror. A gente não tem mais paz. Isso não é pacificação, é um inferno nas nossas vidas — lamenta um morador que preferiu não se identificar.

Quando registrávamos as denúncias na Nova Brasília, integrantes do Coletivo Papo Reto receberam pela internet imagens do corpo de um mototaxista que, segundo denúncias, teria acabado de ser assassinado por PMs da UPP do Complexo da Penha. Nossa equipe foi ao local e, ao chegar à favela Vila Cruzeiro, onde o crime teria acontecido, nos deparamos com barricadas em chamas e disparos de tiros de fuzil partindo de várias direções. Policiais da Tropa de Choque já estavam no local com um veículo blindado disparando em direção ao alto da favela e jogando bombas de gás e efeito moral contra moradores.

— Isso é um absurdo. Agora que vocês da imprensa chegaram aqui que eles pararam, mas estavam batendo nas pessoas pela rua e jogando bombas de gás nos becos. Nós estamos fora de casa porque não tem como ficar dentro de casa. O gás entra e deixa todo mundo passando mal. Parece que eles não sabem que têm crianças aqui dentro. Já fizeram o que fizeram, mataram um rapaz trabalhador, e ainda vêm aqui jogar gás de pimenta — protesta uma moradora.

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Imprensa popular cobrindo os acontecimentos na Penha

O jovem assassinado foi o mototaxista Diego Algarvez Costa, de 24 anos. Ele chegava à Vila Cruzeiro e, segundo testemunhas, não obedeceu à ordem para parar em uma blitz policial. Diego teria parado um pouco mais à frente. No entanto, um dos policiais disparou um tiro de fuzil mortal em suas costas. A população entrou em fúria e rapidamente um protesto se iniciou. Policiais reprimiram moradores com bombas de gás, efeito moral e tiros de bala de borracha, aumentando ainda mais a fúria das massas.

No dia seguinte (9), nossa equipe voltou ao local onde ainda eram violentos os confrontos entre moradores e a polícia. Logo que chegamos à Vila Cruzeiro, dezenas de mototaxistas faziam um protesto em repúdio ao assassinato de Diego. Policiais acompanhavam o cortejo de perto com suas armas o tempo todo apontadas para os trabalhadores.

— Eles querem ver a nossa arma? Olha aqui a nossa arma: capacete, documento e habilitação da moto em dia. Essa é a nossa arma — clamou um dos mototaxistas que participavam da manifestação.

No mesmo dia, nossa equipe esteve na casa da tia e da avó de Diego, já que a região onde vive a mãe do mototaxista, Vanda Lúcia da Costa, estava intransitável por conta de conflitos entre traficantes e policiais.

— Eu sinto muita dor no peito porque foi uma perda que nós não esperávamos. Era um neto muito bom que eu tinha, garoto prestativo, alegre; estava sempre trabalhando. Não tinha uma pessoa na comunidade que não gostasse dele. Quando eu saía para trabalhar, era uma bênção poder dar um beijo no meu neto. Ele foi criado aqui, almoçando, jantando aqui em casa — diz a avó de Diego, Cleusa Maria Costa, com outro de seus netos no colo.

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Trabalhador alvejado pela PM

— Para trabalhar como mototaxista, ele comprou uma moto usada, pediu dinheiro emprestado para o pai e começou a trabalhar. Ele adorava moto e trabalhava o dia inteiro. Essa pacificação mudou muito a vida aqui dentro da favela, mudou para pior. Em que sentido? Por exemplo, se não tivesse UPP aqui, provavelmente meu sobrinho ainda estaria vivo. Pegar gente de bem e dar tapa na cara, agredir, humilhar? O nome disso não é pacificação. Eles vieram para cá esculachar morador. Há dez anos atrás, meu outro irmão foi buscar um terno para o meu pai e aconteceu a mesma coisa que aconteceu com o Diego. Passou em uma blitz e foi baleado por policiais. Ele só está vivo porque foi socorrido por moradores. Agora, 10 anos depois, foi a vez do Diego — lamenta a tia do jovem, Gabriela Costa.

— O sentimento da comunidade é de muito ódio porque as pessoas acham que podem ser a próxima vítima dessa polícia. As famílias aqui na favela são muito unidas. O Diego tem três irmãos e vai deixar muita saudade. O Beltrame deu os sentimentos para nós, mas só isso não vai amenizar a nossa dor, isso não trará o Diego de volta. E nada vai ser feito para mudar essa polícia? Eles acham que todos nós somos bandidos. Mas eu moro nessa casa aqui porque eu preciso, não é porque eu quero não — diz.

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A violência policial nos complexos da Penha e do Alemão não deu sossego nem mesmo no carnaval. Na madrugada do dia 16 para 17 de fevereiro, na localidade conhecida como Triângulo, acesso à favela da Grota, no Complexo do Alemão, acontecia um tradicional baile de carnaval quando policiais interromperam a festa parando motos e revistando moradores na saída. Revoltada, a população protestou e foi covardemente atacada com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo. Alguns ainda ensaiaram uma reação, mas policiais dispararam tiros de fuzil, assustando ainda mais a multidão e causando mais correria.

Os integrantes do Coletivo Papo Reto estavam no local e um deles, que preferimos não identificar nessa reportagem por questões de segurança, foi ferido e levado para a Unidade de Pronto Atendimento do Complexo do Alemão. Assim como ele, vários outros moradores se feriram na correria ou deram entrada na unidade intoxicados pelo gás lacrimogêneo. Além disso, várias crianças se perderam de seus pais e muitas outras buscaram atendimento em outros locais, como o Hospital Geral de Bonsucesso, devido à superlotação na UPA.

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