Tradicional ou Moderno: quem pode apontar a proposição para uma nova democracia?

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Milhares de pessoas tomam o Palácio do Planalto durante uma das manifestações das jornadas de junho de 2013

Ao José Maria e sua companheira Beatriz, imprescindíveis!

Um final de semana na bela cidade de Paraty - RJ, local onde a paisagem alimenta a alma toda vez que se levanta a vista, teve desta vez, um novo ingrediente que deu maior tempero à paisagem, minha alma ficou muito mais alimentada, quando no restaurante, peguei um jornal para uma leitura sem outro objetivo, senão esperar a comida ser servida, qual não foi a minha emoção com o que li, que quase me passou a fome.

De modo geral, nas sociedades ocidentais, a relação entre os jovens e os mais velhos é cheia de rugosidades, diferenças gritantes e até mesmo de indiferença. Os mais jovens acham que os velhos não acompanham a linguagem, a tecnologia, a moda e tudo mais, que faz parte da atualidade, como se a modernidade pertencesse apenas aos jovens. Por outro lado, é comum os mais velhos criticarem os jovens pelo comportamento inadequado na sociedade, na família, o uso “abusivo” dos aparelhos eletrônicos, e alguns chegam a dizer que os jovens não têm nada na cabeça e que a juventude está perdida. Velhos e jovens esquecem-se que todos compartilham o mesmo mundo, vendo e vivendo antigas e novas situações, que são comuns às distintas gerações.

Este tema faz parte de uma discussão mais abrangente e perfeitamente pertinente à questão central deste minúsculo texto, que é a falsa contradição imposta entre os “diferentes”, brancos e negros; cristãos e pagãos, modernos e tradicionais. Com o objetivo único de dominação dos que são considerados inferiores. Arlindo Barbeitos* aborda o nascimento de tal dicotomia, a partir da violência europeia contra os povos africanos e da América, povos que são julgados atrasados, isso até hoje, em relação às civilizações europeias.

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Mas qual a razão dos argumentos acima, senão, o reconhecimento por uma pessoa de 83 anos de idade, diga-se de passagem, que eu nem o conheço, mas que expressou tanta confiança nos jovens que fizeram o “sacode Brasil”, fato ocorrido a partir de junho de 2013, em várias cidades, principalmente as capitais, quando multidões, na maioria estudantes, em protestos motivados inicialmente pelo aumento de passagens de ônibus e que depois teve incorporadas outras insatisfações sociais, evento que invadiu as ruas e mudou a rotina das cidades.

Além de ser contaminada com a emoção das palavras, estas me fizeram refletir sobre a falsa dicotomia entre novo e velho, assim como tantas outras contradições, que são facilmente superadas a partir de elementos que nos levam a uma identificação, ou seja, independente de ser tradicional ou moderno, terá nosso apoio aquilo com o qual nos identificamos, aquilo que nos é compreensível, sua simbologia, linguagem, etc .

Para melhor dizer o que pretendo, eu não teria outra maneira, senão transcrever o texto de Luiz Carvalho, 83 anos, Diretor do Jornal de Paraty - RJ, edição nº 868 de 25 de junho de 2013:

“Que beleza! Que maravilha!

Minha mão está tremendo e minha cabeça fervilhando.

É essa juventude mostrando que não é alienada.

Que inveja!

Que respeito!

Que orgulho!

Eu tenho de vocês.

Relembro os anos 60, quando estávamos na Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, enfrentando as patas dos cavalos e as balas da polícia, lutando pelo mesmo ideal que vocês lutam hoje.

Que inveja que eu tenho, de não estar nas ruas junto com vocês, pois hoje, nos meus 83 anos, as pernas me tolhem esta vontade incontida, mas tenho certeza que o meu coração juntou-se ao de vocês, criando um grande órgão que palpita dentro do peito, este intenso amor à pátria, que vocês estão demonstrando.

Que maravilha este exemplo que vocês estão dando ao mundo, mostrando que o nosso querido Brasil, é sim, o país do futebol, o país do carnaval, mas acima de tudo o país da democracia, da dignidade, o país que tem jovens com amor à pátria, onde não há lugar para políticos corruptos, mentirosos, desonestos.

Ah! Deus! Esperei 50 anos para ver esse sonho acontecer, não me leve agora, deixa-me, através desses jovens, ver esta mudança acontecer.

Parabéns para todos vocês.

Não esmorecem. Quero morrer com um sorriso nos lábios, gozando esta maravilhosa vitória”.

Com certeza, o texto acima expressa o desejo de muitos, jovens e velhos, que independente da idade, partilham o desejo de dias melhores para o país, e que sabem que esses dias sonhados não virão de graça e nem somente, a partir de um levante popular, necessita de uma direção correta e da sua organização correspondente. A prova disso é a campanha pela libertação dos presos políticos, manifestantes ainda se encontram presos no Rio de Janeiro até hoje, requerendo uma mobilização para a liberdade dos mesmos, que lutaram e lutam por todos nós buscando a solução de problemas que devem ser resolvidos coletivamente.  Tudo isso leva a pensar a concreta necessidade da organização de massas na cidade e no campo, algo apontado historicamente.

A falsa democracia brasileira sufocou os protestos, lançou as forças armadas contra os manifestantes, com a mesma intensidade que foi feita quando o país era governado por uma ditadura burguesa. Prendeu e condenou antes do julgamento, jovens, que mesmo com a pouca compreensão da importância do evento, lançaram-se ao desafio da mudança. O fato é que tais prisões atingiram, de modo geral, todos que apoiavam as manifestações. Com isso, o Estado ganhou fôlego para a realização de uma copa do mundo que o Brasil da fome e da miséria, não precisa. Além de garantir a continuidade de projetos falidos, como a Hidrelétrica de Belo Monte e muitos outros mais.

Velhos e jovens são elos do mesmo propósito, para o processo democrático, mas são também alvo de manipulação para o consumismo e ideias retrógradas. Essa falsa contradição tenta impingir a ideia de moderno e atrasado, cristãos e pagãos, negros e brancos, como dito acima, conceitos racistas que têm justificado ações imperialistas em todo o mundo.

*Arlindo Barbeitos. Mulemba – Revista Angolana de Ciências Sociais. Vol II. Nº3, maio 2012.

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