1905 – Jornadas Revolucionárias

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Em 10 de abril completam-se 145 anos do nascimento de Vladimir Ilich Lenin, gigante do proletariado internacional, dirigente do Partido Comunista (bolchevique) da Rússia e da Revolução Socialista de Outubro de 1917. Por ocasião dessa importante data, publicamos trechos de seu artigo Jornadas Revolucionárias, redigido em janeiro de 1917, de extraordinária atualidade. http://www.anovademocracia.com.br/148/13.jpg

Hoje se cumpre o 12° aniversário do “Domingo Sangrento”, considerado com toda a razão o começo da revolução russa.

Milhares de operários, não social-democratas, mas súditos fiéis, temerosos de Deus, dirigidos pelo padre Gapon, afluíram ao centro de todos os rincões da Capital, à praça em frente ao Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao czar. Os operários levavam tochas. Seu chefe de então, Gapon, em carta ao czar, havia pedido que aparecesse para o povo e garantido sua segurança pessoal.

As tropas foram chamadas. Ulanos e cossacos lançaram-se contra a multidão com os sabres desembainhados. Fizeram fogo contra os operários desarmados que, de joelhos, suplicavam aos cossacos que lhes permitissem ver o czar. Segundo o informe da polícia, houve nesse dia mais de mil mortos e mais de dois mil feridos. A indignação dos operários era indescritível.

Este, em linhas gerais, é o quadro do 9 (22) de janeiro de 1905, o “Domingo Sangrento”.

Para que vocês compreendam melhor a significação histórica deste acontecimento, lerei algumas passagens da petição dos operários. Começa com estas palavras:

“Nós, operários, habitantes de Petersburgo, acudimos a Ti. Somos escravos desgraçados, escarnecidos, esmagados pelo despotismo e a tirania. Esgotada nossa paciência, deixamos o trabalho e rogamos a nossos amos nos dessem só aquilo sem o qual a vida é uma tortura. Mas isto nos foi negado, para os patrões tudo é ilegal. Milhares de nós nos reunimos aqui. Por causa dos atos de teus funcionários, nos convertemos em escravos”.

A petição continha as seguintes reivindicações: anistia, liberdades cívicas, salário justo, entrega gradual da terra ao povo, convocação de uma assembléia constituinte baseada no sufrágio universal e igual para todos.

(...)

Ao ler agora esta petição de operários ignorantes e analfabetos, dirigidos por um sacerdote patriarcal, experimentamos um sentimento estranho. Involuntariamente comparamos esta ingênua petição às atuais resoluções de paz dos social-pacifistas, os supostos socialistas que, na realidade, são charlatães burgueses. Os operários não esclarecidos da Rússia pré-revolucionária não sabiam que o czar era o chefe da classe dominante, precisamente da classe dos grandes latifundiários, ligados já por milhares de vínculos à grande burguesia e dispostos a defender, por toda a sorte de meios violentos, seu monopólio, seus privilégios e lucros. Os social-pacifistas de hoje, que — sem brincadeira — pretendem ser pessoas “muito cultas”, não compreendem que esperar uma paz “democrática” dos governos burgueses, que travam uma guerra imperialista de rapina, é tão tolo como era acreditar que, com petições pacíficas, se induziria o sangrento czar a outorgar reformas democráticas.

Apesar de tudo, há uma grande diferença entre ambos os fatos: os social-pacifistas de hoje são principalmente hipócritas que, mediante amáveis exortações, tratam de desviar o povo da luta revolucionária, enquanto que os operários ignorantes da Rússia pré-revolucionária demonstraram com fatos que eram homens sinceros que, pela primeira vez, despertavam para a consciência política.

E é neste despertar de imensas massas populares para a consciência política e para a luta revolucionária que se assenta a significação histórica do 9 (22) de janeiro de 1905. (...)

Antes do 22 de janeiro (ou 9 de janeiro segundo o antigo calendário) de 1905, o partido revolucionário da Rússia consistia num pequeno grupo de pessoas e os reformistas de então (exatamente como os de hoje) em tom de bula nos chamavam seita. Os partidos revolucionários e a socialdemocracia revolucionária (comunistas), em particular, antes do 22 de janeiro de 1905, constituíam-se de centenas de organizadores revolucionários, milhares de membros das organizações locais, meia dúzia de periódicos revolucionários, que não apareciam mais de uma vez por mês, que se editavam sobretudo no estrangeiro e que entravam na Rússia de contrabando, vencendo dificuldades incríveis e à custa de muitos sacrifícios. Esta circunstância dava aos mesquinhos e altivos reformistas o direito formal de afirmar que, na Rússia, não havia ainda um povo revolucionário.

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Em poucos meses, contudo, o panorama mudou por completo. As centenas de socialdemocratas revolucionários converteram-se de imediato em milhares; os milhares converteram-se em dirigentes de dois ou três milhões de proletários. A luta proletária produziu uma agitação geral, frequentes movimentos revolucionários entre as massas camponesas que somavam de 50 a 100 milhões de pessoas, o movimento camponês teve repercussão no exército e provocou insurreição de soldados, choques armados entre um setor do exército e outro. Deste modo, um imenso país, com cento e trinta milhões de habitantes, lançou-se à revolução; deste modo, a Rússia adormecida converteu-se em uma Rússia com um proletariado e um povo revolucionário.

É necessário estudar esta transição; compreender porque foi possível, quais foram, por assim dizer, seus métodos e caminhos. O fator principal desta transição foi a “greve das massas”. A peculiaridade da revolução russa é que, por seu conteúdo social, foi uma revolução “democrático-burguesa”, enquanto, por seus métodos de luta, foi uma revolução “proletária”. Foi democrático- burguesa porque o objetivo imediato a que se propôs, e que poderia alcançar diretamente com suas próprias forças, era uma república democrática, a jornada de oito horas e o confisco dos imensos latifúndios da nobreza, todas as medidas que a revolução burguesa da França realizou quase plenamente em 1792 e 1793.

Ao mesmo tempo, a revolução russa foi uma revolução proletária, não só por ter sido o proletariado sua força dirigente, a vanguarda do movimento, como também porque uma arma especificamente proletária de luta, a greve, foi o meio principal para pôr as massas em movimento e o fenômeno mais característico do sinuoso desenvolvimento dos acontecimentos decisivos.

A revolução russa foi a primeira grande revolução na história — ainda que não a última, sem dúvida — na qual a greve política das massas desempenhou um papel de extraordinária importância. Pode-se, inclusive, afirmar que é impossível compreender os acontecimentos da revolução russa e a sucessão de suas formas políticas, sem um estudo da “estatística das greves”, a fim de descobrir o fundo desses acontecimentos e dessa sucessão de formas.

Sei muito bem que os áridos dados estatísticos são pouco apropriados para uma conferência e é provável que aborreçam os ouvintes. Todavia não posso deixar de citar algumas cifras para que possam apreciar a base objetiva e real de todo o movimento. Durante os dez anos que precederam a revolução, a média anual de grevistas na Rússia foi de 43 mil pessoas, o que significa 430 mil em toda a década. Em janeiro de 1905, primeiro mês da revolução, o número de grevistas foi de 440 mil. Ou seja, em um mês houve mais grevistas que em toda a década precedente!

Em nenhum país capitalista do mundo, mesmo nos países mais avançados, como Inglaterra, Estados Unidos ou Alemanha, houve algo comparável ao grandioso movimento grevista de 1905 na Rússia. O número total de grevistas foi de 2 milhões  e 800 mil, duas vezes maior que o número total de operários fabris no país! Isto, naturalmente, não significa que os operários fabris urbanos da Rússia fossem mais cultos ou mais fortes, ou melhor se adaptassem à luta que seus irmãos da Europa ocidental. O certo é o contrário.

Mas demonstra quão grande pode ser a energia latente do proletariado.

Demonstra que um período revolucionário — digo sem nenhum exagero, baseando-me nos dados mais exatos da história russa —, o proletariado pode desenvolver uma energia combativa cem vezes maior que nas épocas correntes, pacíficas. Demonstra que, até 1905, a humanidade não conheceu quão grandes, que imensas massas são as forças que o proletariado é e será capaz de colocar em tensão numa luta por objetivos realmente grandes, numa luta realizada de modo verdadeiramente revolucionário! (...)

O ano de 1905 começou com a primeira grande onda de greves que abarcou todo o país. Já na primavera desse ano, vemos surgir na Rússia o primeiro grande movimento camponês, não só econômico, mas também político. Se avaliaria a importância desta virada histórica, se levarmos em conta que o campesinato russo foi libertado da forma mais cruel de servidão feudal só em 1861, que a maioria dos camponeses analfabetos vive numa miséria indescritível, oprimidos pelos latifundiários, enganados pelos padres e isolados entre si por enormes distâncias e por uma quase absoluta ausência de caminhos.

Só a onda de greves de massas, que se estendeu por todo o país, greves vinculadas às cruéis lições da guerra imperialista russo-japonesa, despertou as amplas massas camponesas de seu sono. A palavra “grevista” adquiriu, entre os camponeses, um sentido completamente novo, significava um rebelde, um revolucionário, um termo que antes se expressava com a palavra “estudante”. Mas o “estudante” pertencia à classe-média, aos “doutores”, aos “senhores”, e era, por isto, estranho ao povo. A “grevista”, pelo contrário, era do povo, pertencia à classe explorada. Deportado de Petrogrado, ele retomava frequentemente à aldeia onde falava a seus vizinhos do incêndio que se estendia por todas as cidades e que destruiria os capitalistas e a nobreza. Na aldeia russa, apareceu um tipo novo: o jovem camponês com consciência de classe. Ele mantinha relações com os “grevistas”, lia os jornais, contava aos camponeses os acontecimentos que ocorriam nas cidades, explicava aos camaradas camponeses o significado das reivindicações políticas e instava-os a lutar contra a nobreza latifundiária, contra os padres e funcionários públicos.

Os camponeses reuniam-se em grupos para discutir sua situação e pouco a pouco foram se incorporando à luta. Enormes multidões atacaram as grandes fazendas, incendiaram as casas da nobreza, apossaram-se das provisões, apoderaram-se dos cereais e de outros víveres, mataram os guardas e exigiram que as imensas fazendas fossem entregues ao povo.

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