Um nariz para o rei

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Como se costuma dizer, uma partitura não é uma música acabada, uma planta de edifício não é um edifício, assim como um texto para teatro, pela sua natureza, não traz uma imagem tão direta quanto os demais gêneros literários. O diretor e os atores utilizam uma infinidade de recursos para, então, transformar o texto na narrativa encenada, viva.

A familiarização com textos destinados ao teatro assume uma grande e particular importância para os propagandistas nos movimentos populares consequentes. Este, por exemplo, que ora apresentamos é uma adaptação para teatro feita pelo ator popular Jorge Carlos. Ele se baseou no conto homônimo que o escritor proletário Jack London (1876-1916) dedicou ao público infanto-juvenil. Um nariz para o rei inspira-se nas lembranças da Coréia, ainda sob forte influência feudal, como London a conheceu quando correspondente de guerra. Trata-se da história do influente corrupto que atraiu para si a ira dos governantes ao limpar tão avidamente os cofres públicos, a ponto de ser condenado à morte. A narrativa de London conduz o sentenciado pelos complexos meandros do poder da época, marcada pela mais provinciana dependência e a hierarquia da condição social.

Sob o manto da condição social encontra-se o conteúdo de classe, as relações de classe. Mas a condição de classe é um sistema de normas e valores conferido essencialmente pela ordem jurídica, onde se agarram desesperadamente as classes dominantes parasitárias, em decomposição. Quando as classes exploradoras não mais correspondem às necessidades de desenvolvimento da sociedade, levam às últimas consequências esses valores, como um dos reforços que servem à sustentação do poder. Nas proporções de suas conveniências, encomendam as mais descabidas exigências protocolares, revestidas de uma auréola de supertições e charlatanismo, ao que não faltam as atribuições sobrenaturais... À cada autoridade é conferida uma importância que não se explica racionalmente e as imprescindíveis demonstrações de ignorância são admitidas como virtude, entre outras formas de dissimular o caráter de classe, as próprias relações de exploração e ocultar a força das massas.

Esmeradamente educado pelos nobres, a argúcia do sentenciado Yi-Ching-Ho permite servir-se desses valores que tão bem conhece — de forma tão absurda quanto o próprio sistema de privilégios e fantasias em que vive sua decadente aristocracia, buscando restituir ao menos parte do dinheiro devido aos poderosos, aplacar a fúria do governador e obter a revogação da sentença.

A leitura do texto propicia uma perfeita compreensão do enredo nos traços de London, como nos remete a imaginar que, transformado em cenas próprias, num palco, muito agradaria aos aficionados leitores daquele que foi o maior contista americano, e ao público que aprecia assistir (ou mesmo produzir) peças teatrais. Mais que uma perfeita compreensão da realidade coreana daqueles tempos, a adaptação didaticamente trabalhada por Jorge Carlos lembra o poder colonial no Acre (ambiente onde, em abril de 1988, foi produzido o texto), há décadas gerenciado pela Igreja e pela burocracia. Um nariz para o rei guarda a divertida, atual, universal e oportuna propriedade de trazer à lembrança, com admirável simplicidade, inúmeras e sucessivas passagens da malandragem provincial.
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Um nariz para o rei

Jorge Carlos Amaral*

Personagens:
Yi-Ching-Ho
Carcereiro
Governador
Pak-Choung-Chang
Velho (boneco)
Criados
Narrador
Coro

Narrador — Era uma vez na Coréia — não essa Coréia conturbada de nossos dias, mas na sua aurora pacífica que, por sua tranquilidade, bem merecia seu antigo nome de Escolhido. Escolhido, assim como temos Promissão, Abençoado... Coro (corta, cantando) — “Coréia abençoada pelos deuses...”
Narrador — ... e nesse país escolhido vivia um político chamado Yi-Ching-Ho.
Coro — Yi-Ching-Ho / Yi-Ching-Ho / Era um homem talentoso / Político habilidoso / Yi-Ching-Ho / Yi-Ching-Ho / Que morava na prisão / Como um ladrão (Yi-Ching-Ho entra enrolado numa faixa que é desenrolada deixando-o rodopiando. Na faixa está escrito: “Que será que ele fez?” Clima de suspense. A cena deve dar a idéia de um julgamento)
Narrador — Desviou dinheiro público.
Coro — Só isso?
Narrador — Desviou demais!
Coro — Isso é pouco!
Narrador — Outros queriam!
Coro — É normal!
Narrador — Mas não repartiu o bolo.
Coro — Ah!
Narrador — Yi-Ching-Ho devia ao governo 30 mil ienes — como hoje a moeda oficial da Coréia é o won, não podemos calcular quanto dá isso em cruzados, mas, em ienes, daquela época, deu em... morte.
Coro — Eis a sentença! (Yi-Ching-Ho pára de rodopiar. Está na cela. Anda de um lado para o outro. Cantarola)
Yi-Ching-Ho — Quando tudo está perdido / Quando a morte se aproxima / A espera é um curto tempo / Que nos dá uma vantagem / A de usar o pensamento. Yi-Ching-Ho (vem até a grade e grita) — Hei, você...
Carcereiro (entra espreguiçando-se) — O que é?!... a essa hora...
Yi-Ching-Ho — Homem de perfeita dignidade, eis diante de você um homem completamente miserável. No entanto, tudo poderá se arranjar se você me deixar sair essa noite, só por uma hora. É claro que você também sairá lucrando com isso, pois cuidarei pessoalmente de suas futuras promoções, até que seja nomeado diretor de todas as prisões do Escolhido. Veja bem...
Carcereiro — Essa não! Me acorda no meio da noite... Que loucura é essa? Deixá-lo sair por uma hora, você, que só está esperando que lhe venham cortar o pescoço! E ousa pedir isso a mim, responsável que sou por uma velha e respeitável mãe, sem falar de mulher e uma porção de filhos pequenos. Deus me livre!
Yi-Ching-Ho — Da cidade Santa às Oito Costas não existe lugar algum onde eu possa me esconder. (tempo. Recomeça pausadamente) Sou um homem inteligente, mas aqui na prisão, de que me serve a inteligência? Uma vez livre, sei perfeitamente onde encontrar dinheiro para devolvê-lo ao governo. (em outro plano, aparece o boneco que representa o velho, confortavelmente sentado, estando em evidência seu vistoso nariz. Os criados cuidam com excessivo zelo do nariz do velho, sob observação de Pak-Choung-Chang, seu filho, que ostenta um grande orgulho pelo nariz do pai) Conheço um grande nariz que me livrará de todas as dificuldades e lhe trará todas as facilidades. Lembre-se... de carcereiro a diretor geral...
Carcereiro (admirado) — Essa não! Um nariz?
Yi-Ching-Ho — Sim, um nariz. Um notável nariz, se assim posso dizer! Um nariz digno de muita consideração!
Carcereiro — Essa não! Que imaginação fértil você tem! (rindo) Quem diria que uma cabeça tão admirável vai acabar no cepo! Essa não! (afasta-se, zombeteiro) Essa não! (começa a ficar intrigado) Essa...
Coro — Ser fraco do coração / não é bondade, isso é certo / quando também se é fraco de cérebro.
Carcereiro — ... Essa sim!
Narrador — Na calada da noite o carcereiro abriu as portas e Yi-Ching-Ho foi direto ao palácio do governador.
Governador (deitado, sozinho, ronca. Inspira ressonando e expira assoviando. Ao inspirar, acorda com uma sacudidela de Yi-Ching-Ho) — Ou você é Yi-Ching-Ho ou eu não sou mais o governador! O que é que está fazendo aqui, quando deveria estar na prisão à espera do carrasco?
Yi-Ching-Ho (agachando-se perto da cama) — Suplico a Vossa Excelência que me ouça. (acende o cachimbo na lamparina) Um homem morto não tem valor. Na realidade é como se eu já estivesse morto, sem valor para o governo, para Vossa Excelência e mesmo para mim. Mas se Vossa Excelência me concedesse a liberdade...
Governador — Impossível! Você está condenado à...
Yi-Ching-Ho — Vossa Excelência sabe muito bem que se eu devolver os 30 mil ienes o governo me absolverá. Assim, se vossa excelência consentisse em conceder-me a liberdade por alguns dias, com minha inteligência reembolsaria o Estado e estaria em condições de prestar notáveis serviços a Vossa Excelência.
Governador — Você tem algum plano para conseguir o dinheiro?
Yi-Ching-Ho — Sim!
Governador — Muito bem, volte aqui amanhã à noite para explicá-lo. Agora estou com sono. (recomeça o sono interrompido, expira assobiando)
(Yi-Ching-Ho rabisca vários papéis com grande esforço para pôr em desenho o que está em sua memória. Em outro plano, a cena do velho, seu nariz, os criados e seu filho. Termina a tarefa contente com o resultado, enrola o papel, dança alegremente com o carcereiro e corre à cabeceira do governador)
Governador (roncando, ao expirar, acorda) — É você, Yi-Ching-Ho? Trouxe o plano?
Yi-Ching-Ho — Sim, sou eu, Excelência. Aqui está o plano!
Governador (aflito, ordena) — Fale!
Yi-Ching-Ho — Eis o plano! Está em minha mão!
Governador (toma a folha de papel, esfrega os olhos, aproxima-se da lamparina e exclama) — É apenas um nariz!
Yi-Ching-Ho — Sim, Excelência. Veja, um nariz um pouco fino aqui e ali.
Governador — Um pouco fino aqui e ali como você diz.
Yi-Ching-Ho — No entanto, observe que esse nariz um pouco fino aqui e ali é um nariz pontudo. Vossa Excelência poderia procurá-lo por muito tempo e nunca iria encontrá-lo.
Governador — De fato, um nariz nada comum.
Yi-Ching-Ho — Com uma verruga em cima.
Governador — Um nariz raro. Um nariz como nunca vi. Mas o que você espera fazer com ele, Yi-Ching-Ho?
Yi-Ching-Ho — Eu o procuro como meio de restituir o dinheiro ao governo. Eu o procuro para colocá-lo a serviço de Vossa Excelência. Enfim, eu o procuro para salvar minha pobre cabeça indigna. Solicito a Vossa Excelência que tenha a bondade de apor o sinete sobre esse desenho. (o governador, rindo, coloca o sinete no papel) Com sua permissão, Excelência. Tenha um bom sono. (sai. O governador emenda o riso com o ronco)
Coro — Durante um mês e um dia / Seguiu pela estrada Real / Que conduz às margens / Do Mar Ocidental.
Narrador — Certa noite ele chegou a uma próspera cidade e bateu fortemente na porta de sua casa mais rica.
Yi-Ching-Ho (com altivez aos criados assustados) — Não quero ver ninguém que não seja o próprio dono da casa. Estou viajando a serviço do rei! (aparece Pak-Choung-Chang, sonolento) Você é Pak-Choung-Chang, principal cidadão desta cidade. Estou aqui a serviço do rei.
Pak-Choung-Chang (tremendo de medo) — Já é muito tarde! Não seria melhor...
Yi-Ching-Ho — Um assunto real não tem hora! Venha comigo para algum lugar onde estejamos a sós, e agora. Trata-se de um assunto importante o que devo conversar com você. (Pak-Choung-Chang acende nervosamente seu cachimbo de prata) Um assunto real! (o cachimbo cai)
Pak-Choung-Chang — Quanto aos impostos...
Yi-Ching-Ho — Os impostos!? Fique tranquilo quanto aos impostos! (silêncio)
Pak-Choung-Chang — O que então...
Yi-Ching-Ho — O rei foi acometido por uma doença. Uma terrível doença. Para ter uma idéia, seu médico particular, por não conseguir curá-lo, teve, nada mais nada menos, que a cabeça cortada. Das oito províncias vieram numerosos médicos para cuidar do monarca. Numa sábia reunião, esses médicos decidiram que o único remédio para a doença do rei seria um nariz, um nariz de certo tipo, uma espécie de nariz muito especial. Então fui chamado por uma pessoa muito importante, o primeiro-ministro de Sua Majestade. Ele me entregou um papel no qual os médicos das oito províncias desenharam um nariz de uma espécie muito rara, desenho autenticado pelo sinete do Estado. “Vá!” — disse-me Sua Excelência, o primeiro-ministro — “Vá procurar esse apêndice nasal, pois a doença do rei é terrível. E quando encontrar esse nariz em algum rosto humano, corte-o imediatamente e o traga sem demora à corte, pois o rei necessita dele para ficar curado. Vá e não volte sem encontrá-lo.” Comecei então a minha busca. Percorri os recantos mais longínquos do reino, andei pelas oito estradas, esquadrinhei as oito províncias e explorei os mares das oito costas. E aqui estou eu! (mostra o papel) Pak-Choung-Chang (com grande susto ao ver o desenho) — Nunca vi um nariz assim...
Yi-Ching-Ho (severamente) — Traga seu pai a minha presença!
Pak-Choung-Chang — Meu velho e muito venerável pai está dormindo. Ademais, esse nariz...
Yi-Ching-Ho — Por que mentir? Você sabe muito bem que esse é o nariz de seu pai. Traga-o a minha presença para que eu possa cortar-lhe o nariz e dar por encerrada a minha missão. Rápido, se não quiser que eu faça um relatório desfavorável a seu respeito.
Pak-Choung-Chang (de joelhos) — Piedade! É impossível o que me pede! Impossível! Você não pode cortar o nariz de meu pai! Ele não pode descer ao túmulo sem o seu nariz! Ele se tornará motivo de zombaria, assunto de chacota, e meus dias e minhas noites se encherão de dor. Por favor, reflita! Diga que você não encontrou nariz algum igual a esse em suas buscas. Você também deve ter um pai. (abraça os joelhos de Yi-Ching-Ho e chora)
Yi-Ching-Ho (brando) — Seus lamentos enternecem muito meu coração. Eu também tenho um pai e o respeito muito. Mas... (como para si) é o preço de minha cabeça!
Pak-Choung-Chang (discretamente) — Quanto você acha que vale sua cabeça? Yi-Ching-Ho — Ora, é uma cabeça que não tem nada de extraordinário. (procurando ser agradável) Uma cabeça comum como todas as outras. Mas sou tão tolo que seria capaz de dizer que vale 100 mil ienes.
Pak-Choung-Chang (levantando-se) — Negócio fechado!
Yi-Ching-Ho — Vou precisar de cavalos para transportar o tesouro e homens para vigiá-lo durante a travessia das montanhas. Sabe como é, tem muito ladrão solto por aí, neste país.
Pak-Choung-Chang (triste) — É verdade! Tem muito ladrão por aí, neste país. Será tudo como você quiser, desde que o nariz de meu velho e venerável pai permaneça onde deve ficar.
Yi-Ching-Ho — Não fale a ninguém sobre isso, pois outros servidores, mais leais do que eu, poderiam ser enviados para cortar o nariz do seu pai.
Coro — Yi-Ching-Ho se pôs a caminho / através das montanhas / de coração leve e cantando / ao ritmo vivo e alegre / do tilintar das moedas / nos cavalos carregados.
Narrador — Não há muito mais para dizer. Yi-Ching-Ho prosperou ao longo dos anos. Graças a seus esforços, o carcereiro acabou por obter o cargo de diretor-chefe das prisões do Escolhido. O governador, após algum tempo, foi transferido para a Cidade Santa a fim de ocupar a função de primeiro-ministro do rei. (aparece o velho com seu nariz. Os criados e Pak-Choung-Chang chorando e abanando a cabeça) Só Pak-Choung-Chang caiu na melancolia a partir daquele dia e muito se lamentava toda vez que via o dispendioso nariz de seu velho e muito venerável pai.


*Jorge Carlos Amaral de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro, em 23 de julho de 1952. Foi para o Acre aos 26 anos, onde montou, dirigiu e atuou em várias peças populares. Por fim, tornou-se um profissional do teatro, das artes plásticas e da literatura. Passou a residir em Portugal desde 1990, assinando seus trabalhos como João Maiara (em homenagem aos seus filhos) e Mané do Café. Mantém exposição permanente na Praça da Figueira, em Lisboa.
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