Israel, muros e fronteiras....

Quando hoje se vê o problema grave que assola os territórios ocupados — infelizmente jamais esclarecido pela mídia na extensão inominável de sua tragédia humana —, quando os EUA recusam pela 26a vez qualquer resolução da ONU favorável aos palestinos, quando se apresenta um “mapa do caminho” como cobertura para mais assentamentos ilegais e quando Sharon decide gastar todo o dinheiro do mundo construindo o mais vergonhoso muro de aparthaid, pergunta-se: onde está a solução? 

Partindo de seus próprios argumentos, vejamos: Israel diz procurar a segurança através da violência, a cada dia mais opressora, defendendo-se mediante armas cada vez mais sofisticadas, gases letais e assassinato de crianças. Procura a segurança, insiste, oprimindo, esmagando casas e pessoas sob seus tanques, buldozers e blindados que, como demônios surgidos dos infernos, silenciam a terra dadivosa, embora não aplaquem o grito de suas vítimas.

Se Israel quiser evitar atentados em suas cidades, proteger seu Estado e voltar à estabilidade das ruas deve respeitar a liberdade dos outros. Deve abrir as fronteiras, sair dos postos de controle, permitir o ir e vir dos palestinos em seu trabalho, restaurar a dignidade que lhes tomaram e aceitar que nem sempre brincar de “mais forte” significa ser o melhor.

Israel deve compreender, não como dizem seus oficiais e pilotos que se recusam a perpetrar a morte indiscriminada, “que há um limite”; não há “um limite” para o roubo, a extorsão, a pilhagem e o assassinato de um povo indefeso. Simplesmente não são aceitáveis em nenhum caso.

O povo palestino tem raízes sólidas e ancestrais como as tamareiras e as oliveiras de seus prados, o símbolo da paz. Tem um tronco forte e uma copa frutífera que abriga gerações. É uma gente acolhedora, guardiã das sementes, da linfa e do sonho. Entretanto, cinco mil árvores foram abatidas pelos soldados israelenses na Palestina. Cinco mil árvores impedidas de alimentar seus filhos, tornando os campos áridos e estéreis, obstruindo o dom sagrado da vida. E mais 85 mil, desde a construção deste muro hediondo, diante do qual, o de Berlim era um anão.

Diz o Antigo Testamento, o livro da tradição judaica: “Quando sitiares uma cidade durante longo tempo e tiveres de lutar para apoderar-te dela, não cortarás as árvores a golpes de machado; comerás seus frutos, mas não cortarás as árvores.” (Deuteronômio 20:19) Nem assim!

É fácil ser mesquinho e egoísta, o eterno adolescente que exibe seus músculos e ganha o mundo à força. O difícil é ser maduro, amar e partilhar.

Enquanto, sob a farsa de um plano de paz inexistente, um povo é enjaulado a céu aberto em sua própria terra, lembramos as palavras de Ibrahim Tuqam, poeta palestino: “Matar um homem é um crime; acabar com todo um povo, um assunto a discutir.” Hoje, a Palestina controla 3% de seu território. E Arafat é o “culpado” pelo plano de paz não funcionar!

Quando a “única democracia do Oriente Médio” retira a imunidade parlamentar do deputado Azmi Bichara por defender os direitos dos palestinos, quando o professor de História da Universidade de Haifa, Ilan Pappe, recebe ameaça de exílio por contradizer a política vigente, quando artistas, acadêmicos e jornalistas israelenses são perseguidos por contrariar o establisment, o que pensar? Até mesmo a cantora Yaafa Yarkoni, um ícone do sionismo, argumentou: “Somos um povo que viveu o Holocausto. Como podemos produzir outro?”

Em agosto foi aprovada pelo parlamento uma lei que não concede cidadania nem residência permanente aos palestinos casados com israelenses, atingindo mais de um milhão de árabes residentes em Israel. Tal medida racista e discriminatória é o equivalente deste muro de 8 metros de altura e 1000 km de extensão, cujo gigantismo irracional se destina a segregar um povo que sequer tem exército.

A segurança que Israel deseja para si — pois está em posição de poder e decisão — só poderá conquistar quando também souber oferecê-la. Oferecer segurança ao povo palestino, às suas mulheres, seus idosos, suas crianças e suas árvores: eis a solução.

Enquanto não puder dar a liberdade que deseja para si, Israel será um país escravo dos grilhões com que acorrentou seus irmãos; enquanto não souber compartilhar, nada terá, senão arrogância e distanciamento; enquanto ocupar um solo que não lhe pertence, será um expatriado em seu próprio país... Só quando souber respeitar a terra — que é de todos — não estará mais cercado de muros e fronteiras.


*Yasmin Anukit é professora de Estudos Orientais

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