A quem beneficiou a rebelião popular?*

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Não há melhor forma de tratar um tema em debate do que recorrer à experiência, ao desenvolvimento da atual luta de classes como prova do correto da idéia em discussão. Agora, tomemos como referência a extraordinária rebelião do povo boliviano em outubro para seguir o desenvolvimento desta análise da conduta política da esquerda latino-americana e sua cumplicidade com os grupos de poder e o imperialismo. Uma vez mais a experiência é implacável e resolve as interrogações planejadas em torno do desenvolvimento do processo social e seu desenlace revolucionário. Na Bolívia se prova novamente que as massas, apesar de todo o heroísmo e sacrifício, não poderão coroar em vitória nenhuma de suas lutas enquanto forem dirigidas por partidos e organizações políticas não proletárias, que parasitam nos movimentos espontâneos das massas e no atraso político dos trabalhadores. Na Bolívia se confirma o que assinalamos na primeira parte deste artigo (setembro de 2003): cada coisa que faz ou diz a esquerda latino-americana serve somente para mostrar sua inaptidão frente ao desenvolvimento da luta social e, caso se instale uma rebelião popular, monta na onda rebelde, não para dar orientação revolucionária, mas para exigir que as massas tomem o caminho da legalidade burguesa. Exatamente o que ocorreu na Bolívia.

Em plena rebelião popular, Evo Morales, um dos dirigentes do movimento buscou orientar a luta para uma solução negociada com as classes que detêm o poder do Estado. Seu pleito não foi além de conseguir medidas para reforçar a “ordem constitucional” e demais instrumentos do Estado. Para tal, esboçou a proposta de convocar uma Assembléia Constituinte controlada, segundo ele, pelo poder judiciário, que na Bolívia, no Equador, ou em qualquer outro país latino-americano, é apenas um antro de corrupção a serviço dos grupos de poder. Felipe Quispe, outro líder dos pobres da Bolívia, propôs a formação de um governo provisório encabeçado pelo vice-presidente da República. Ambos os pleitos, tanto o de Morales como o de Quispe, não significaram outra coisa que desviar a fúria popular para o terreno da legalidade imposta pelo Estado reacionário deste país.

A solução negociada e legalista pleiteada por Evo Morales e Felipe Quispe se insere unicamente nesta corrente política pequeno burguesa que atualmente invade a América Latina, cujo fundamento é o parlamentarismo e a defesa velada do sistema de opressão. Seus projetos “nacionalistas” e revolucionários trocados em função de fictícias reformas no Estado opressor, e sem prejuízo dos interesses dos grupos de poder locais ou do imperialismo, nada têm a ver com uma verdadeira luta revolucionária pelo socialismo.

A posição destes dirigentes está determinada por seus objetivos políticos (salvar o Estado da queda) e suas ambições de caráter eleitoral. Por isto, foram as próprias massas (protagonistas da rebelião popular) que com prontidão perceberam esta tendência nos acontecimentos de outubro. No calor do combate, tanto Evo Morales como Felipe Quispe (ambos membros do parlamento), foram denunciados de tomar a grande rebelião popular de outubro como parte de seus cálculos eleitorais futuros. Assim, para Toribio Hinojosa, dirigente dos trabalhadores da Caixa Nacional de Saúde, Morales e Quispe apenas pensavam nas eleições municipais que se realizarão ao final de 2004. “Estes partidos não acreditam em uma mudança radical do sistema. Por isso, por exemplo, o setor de Evo ainda não ingressou no conflito, está fazendo cálculos eleitorais.” Por sua parte, o professor Teodomiro Herrera afirmou que a egoísta disputa do Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales e o Movimento Indígena Pachacuti (MIP) de Felipe Quispe “por ganhar votos para as eleições” é uma das travas fundamentais contra a luta unitária.

Os acontecimentos posteriores e a forma como se negociou o fim da rebelião popular mostram dramaticamente que as massas pobres, que entregaram mais de 80 filhos do povo, assassinados pelo exército e a polícia, foram novamente enganadas e conduzidas ao matadouro de burgueses e latifundiários. É errado afirmar, como querem alguns, que com a rebelião boliviana, se conseguiu “vencer o melhor império armado do mundo” e que esta batalha significa um “triunfo irreversível”, “uma viagem sem volta”.

O positivo nesta luta não é que a venda do gás tenha sido momentaneamente interrompida, mas a constatação de que mudar um presidente burguês por outro da mesma índole não resolve problemas econômicos e sociais históricos. Manter o otimismo revolucionário ao topo é bom, mas em política o mais aconselhável é apreender com seriedade a realidade dos fatos, antes de nossos próprios desejos. Contar histórias fantasiosas ou distorcer a realidade não contribui em nada ao avanço da luta dos oprimidos. Ao contrário, serve para camuflar quem se monta na onda rebelde para fragmentar e trair a luta popular.

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Os fatos não tardaram para demonstrar que o governo, produto da rebelião, não se diferencia em nada do anterior. Assim, estando ainda fresco o sangue derramado pelos trabalhadores, Carlos Meza, o novo presidente boliviano (instalado em 17 de outubro) disse que “não se afastará nem um milímetro da linha do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dará continuidade às políticas econômicas e fiscais empreendidas por seu antecessor, o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada”. Como informa um meio de comunicação boliviano bem inteirado, “após tomar posição em um gabinete de ‘tecnocratas neoliberais', o governo de Meza se comprometeu de público a cumprir rigorosamente os acordos estabelecidos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a assinar até o final do ano um tratado de livre comércio com o Chile, a impulsionar a exportação de gás aos Estados Unidos, a revisar a Lei de Hidrocarbonetos no acordo com as transnacionais que operam no país e a não interromper a política de erradicação forçosa de coca no Chapare.”

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Estratégia para desativar a explosão social

A rebelião boliviana mostrou como nenhum outro movimento latino-americano, que desviar uma rebelião popular e conduzi-la ao campo da legalidade burguesa não constitui um erro político dos dirigentes, mas uma forma consciente e planificada de atuar no seio das massas pobres, cujos representantes constituem uma linha política contrária à revolução.

A ação dos que aderem a esta linha tem magnitude estratégica e em política atuam como válvula de escape da exploração social. Utilizam diversos subterfúgios para opor-se à luta dos trabalhadores, e quando já não podem fazer nada para detê-la, montam-se nela para converter a rebelião popular num movimento mendicante e negociável com os representantes do Estado. Na Bolívia, a luta também foi espontânea, e os dirigentes que se mantiveram afastados ao início da explosão social apareceram depois como propiciadores da negociação da rebelião. Quando estourou a luta, Evo Morales estava em excursão pela Europa e, como denunciaram os trabalhadores, nem Morales nem Quispe “há cerca de um ano, vinham às bases, quando estavam em campanha eleitoral”.

O caráter espontâneo da luta e a perniciosa atitude que assumiram os dirigentes foi percebido com clareza pelos trabalhadores, que em seu momento assinalaram: “nenhum líder nem partido político dirigiu este levante popular. Nem Evo (Morales) nem Felipe (Quispe), nem nós encabeçamos a rebelião... Os trabalhadores bolivianos, desde baixo, foram os que expulsaram do poder, a patadas, o assassino de Goni (Gonzalo Sánchez de Lozada). Ninguém, individual ou partidariamente, se pode abancar de líder deste conflito. Ninguém!”

A estratégia para desativar a rebelião popular não se restringe a deter a luta no momento da explosão, mas também a influir para que as massas acreditem, como os crentes em Cristo, que é possível dentro da ordem burguesa, e sem mudar absolutamente nada, conseguir satisfazer as expectativas dos oprimidos. Nesta direção seguiram os discursos e ações dos mais conhecidos dirigentes populares da Bolívia, durante e depois do desenvolvimento da luta boliviana. Por exemplo, Evo Morales depois de concluída a rebelião, declarou sua confiança em que o novo presidente “rompa com o neoliberalismo e modifique várias leis que sustentam o modelo”.

Breves conclusões e a tarefa fundamental

Antes de fechar esta nota de revisão sumária dos acontecimentos na rebelião da Bolívia, queremos formular alguns pontos de vista que consideramos essenciais para continuar a discussão sobre o futuro da luta popular na América Latina.

Os povos latino-americanos atravessam uma situação revolucionária em desenvolvimento desigual. As causas fundamentais deste fenômeno inerente aos sistemas sociais de exploração são, por um lado, a fome, a miséria e a desigualdade, que cada vez é pior e, por outro, a decomposição do Estado e das elites dirigentes. Neste panorama de crescimento da extrema pobreza e da repressão, as sublevações e rebeliões espontâneas seguiram manifestando-se como expressão direta da agudização da luta de classes. Que fazer nesta situação? A tarefa fundamental e decisiva é dotar os trabalhadores de um autêntico partido revolucionário, que seja capaz de colocar-se à frente das massas oprimidas e conduzi-las à conquista do poder de Estado. Como indicava Karl Marx, a revolução é um ato supremo da política e querer fazer a revolução é querer ter o meio para fazê-lo (o partido, o exército e a frente única de classes). Isto, dizia ele, leva como requisito fundamental, proporcionar aos operários a educação política para a revolução, “sem a qual os operários, ao dia seguinte depois da luta, serão sempre vítimas do engano.” Por sua parte, Lênin, analisando os acontecimentos da insurreição de dezembro de 1906 em Moscou, assinalou que é um erro não explicar às massas a “necessidade de uma luta armada intrépida e implacável” para coroar em vitória a luta dos oprimidos, e que “ocultar das massas a necessidade de uma guerra encarniçada, sangrenta e exterminadora como tarefa imediata da ação próxima é enganar-se a si mesmo e enganar ao povo.”

Os ditos de Marx e Lênin que reproduzimos não são palavras no ar, e se relacionam com as perguntas mais correntes que os trabalhadores bolivianos se fizeram durante a rebelião de outubro. Não faltaram alguns que, baseados mais em seu instinto de classe que em sua formação teórica, reformularam a interrogação: “o que fazer para re-fundar o país? E a tomada do poder deve ser por via armada ou pacífica?” (Econoticias Bolívia, 6 de outubro de 2003). E são estas interrogações as que resumem em forma brilhante as perspectivas de uma verdadeira confrontação antiimperialista e luta pelo socialismo. Na Bolívia, as massas não estavam totalmente desinformadas, e, ainda que de forma incipiente, planejaram questões de fundo da revolução proletária. As massas viram de perto e sentiram com suas próprias mãos que o assunto da revolução é demasiado sério para deixá-lo em mãos de caudilhos e falsos revolucionários. Experimentaram, uma vez mais, que enquanto não lutarem de forma diferente para liquidar o Estado e seus instrumentos de opressão (o parlamento, o poder judicial, as forças armadas, etc.), nenhuma de suas valorosas ações servirá para modificar sua miserável existência, e menos para defender os recursos naturais do país.


Notas
Karl Marx, Sobre a ação política da classe operária, 21 de outubro de 1871. Lênin, os ensinamentos da insurreição de Moscou, agosto de 1906.
* Trechos do artigo “ A Quien beneficio la rebelión popular?” O peruano Luís Arce Boja é diretor de elDiário Internacional. Editado em Bruxelas, Bélgica, elDiário é um dos jornais de maior credibilidade em todo o mundo. Seu endereço é: www.eldiariointernacional.com
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