Algo mais que medalhas

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Do “longínquo Acre”, como se diz por aqui, A Nova Democracia recebeu da Super Liga Acreana de Kung Fu uma (quase telegráfica, pela modéstia, mas atenta) nota:

Equipe acreana de kung fu retorna do mundial com 21 medalhas de ouro e desfila em carro aberto pelas ruas de Rio Branco. Mulheres foram destaque da competição. Grupo já garantiu três vagas na equipe que representará o Brasil no Sul-americano. Um dos principais destaques no Campeonato Mundial de Kung Fu Tradicional, em novembro, no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo, a equipe acreana conquistou nada menos que 28 medalhas (21 de ouro, 4 de prata e 3 de bronze; 17 medalhas de ouro (maior número) foram obtidas por adolescentes do sexo feminino.

Do campeonato participaram equipes do Brasil, China, Paraguai, Uruguai, México, Alemanha, Argentina, Itália, África do Sul, Inglaterra, França, Peru, USA, Venezuela e Canadá.

Com o gabarito de também ter sido campeão mundial e de, atualmente, coordenar uma equipe de 31 instrutores que ministram aulas de kung fu para mais de 2,5 mil crianças da capital, Glenylson Araújo, o mestre Nil, demonstra conhecer bem o significado da superação dos limites físicos e intelectuais de adolescentes: “Não tenho certeza dos fatores que levam os atletas do Acre a se destacarem no kung fu. Desconfio que além do esforço, a que todo atleta tem que se submeter, esses meninos e meninas encontram no esporte, de maneira muito presente, muito forte, suas possibilidades e grandes esperanças.”

Verdadeiros campeões

Na versão de um dos frequentadores da Concha (equipamento instalado no recém saneado Canal da Maternidade, onde parte dos futuros competidores se exercitavam antes do campeonato mundial) a Super Liga fatalmente ampliará o plantel de excelentes atletas, porque “a questão está em perceber a oportunidade que se descortina para uma criança ou adolescente de praticar exercícios de forma sistemática e dedicar-se a esportes, de num momento para o outro se ligar a uma associação, ser encorajado a ingressar numa escola (ou a permanecer nela) e lutar para adquirir uma instrução de bom nível. Puxa, isso quando os jovens no Brasil não têm direito a coisa alguma. E a modalidade que a Super Liga representa permite formar em parte esse pensamento, sem precisar desmoralizar os mais jovens, sob o pretexto de divulgar sabedoria, de enchê-los com conselhos enfadonhos. Eles participam de algo seu, se exercitam e dançam.”

Estudante de Ciências Sociais e Filosofia (também faixa preta 2º dan de tae-kwon-do e faixa preta de tai-chi-chuan), mestre Glenylson não aparenta vocação para arroubos sociologizantes ou sacadas filosóficas. Tampouco vive em função da formação exclusiva de atletas competidores e de medalhas. Algum tempo depois, sem saber, confirmou o que havia dito o observador na Concha: “Até onde sei, são fatores decisivos para compor essa equipe acreana o desempenho na escola de ensino regular e o espírito solidário entre a população. Porque, sem obter essas condições, não há como alcançar, em parte alguma, a qualidade desejada, depois superar essa qualidade já verdadeiramente boa.”

O mesmo fez a pequena Kellysa Silva Muniz, 13 anos, estudante da escola Francisco Salgado Filho, integrante da equipe e medalha de ouro na categoria Combate: “Tenho dificuldades como todo mundo, mas sempre é possível vencê-las, como na escola, porque não sendo uma boa aluna na escola, não é possível tornar-se uma campeã verdadeira. Eu sempre desejei fazer uma arte marcial.”

Entre outras modalidades

Para os dirigentes da Super Liga, não se trata de manter atletas nas associações filiadas que apenas sejam bons alunos da escola regular — o que seria, muitas vezes, limitar qualidades em detrimento de outras, e, ao final, criar situações excludentes. O decisivo vai além: estimular a formação de gente inteira, que alcance, ao mesmo tempo, tanto a moral solidária, como o excelente desempenho escolar e físico, não o atleta fisiológico, frágil. Encorajar os jovens da Super Liga a estudar (não apenas a frequentar escolas) é tão importante quanto discipliná-los na prática diária da modalidade.

Uma das professoras e dirigentes de associações da Super Liga Acreana, formada em educação física, Lucineide Martins, explica que ao procurar proporcionar condicionamento físico, como flexibilidade, velocidade, força e resistência, adequadas à idade de quem a pratica — através da sistematização dos exercícios físicos combinados com as artes marciais voltadas para a defesa ativa —, estilos como o kung fu permitem avançar a preparação física geral. É preciso retomar movimentos (experiências caídas no esquecimento ao longo dos séculos) e sistematizá-las, “porque, em geral, são indispensáveis à flexibilidade, intensidade, velocidade, força, resistência muscular, autocontrole e confiança.” De fato, a aproximação e redescoberta — a exemplo do herbalismo, da acupuntura, da medicina tradicional — dos ensinamentos legados pelas antigas sociedades cultas tornam-se convenientes quando depuradas das concepções feudais, místicas, militaristas, etc., e voltadas para a formação integral e o progresso da sociedade. Além do mais, quando se estuda o que de melhor existe na cultura dos demais povos em função do progresso do nosso povo, não há o risco da alienação, de transplantar culturas espúrias. A atual divisão social do trabalho (a que opõe o trabalho intelectual ao trabalho manual) limita, por exemplo, a educação física de tal maneira, que ela permanece confinada à sua pré-história. É disciplina irrelevante, secundária, complementar, tudo o que diz respeito ao desenvolvimento das cordas motoras, lateralidade, coordenação, equilíbrio, percepção sonora, tátil, visual, etc. De resto, todo o potencial de motricidade humana mantém-se, em pleno século XXI, num insignificante padrão de existência.

Heróis, sem dúvida

Aos vitoriosos, os cumprimentos, menos a verdade. Está provado: as classes dominantes e os governos que elas representam não têm memória. Funciona apenas a conveniência dos negócios. O povo, sim, tem memória. E muita.

Sempre que se aproxima um campeonato realizado fora do estado começa a peregrinação. Da capital, amigos informaram que após terem passado os atletas em carro aberto um comerciário comentou da calçada: “Maratona maior eles fizeram para conseguir transportes e alimentação na estrada. Aí é preciso ter muito mais resistência que nos campeonatos.” Ao lado, sua irmã completou com vivacidade: “As equipes acreanas, em qualquer modalidade, sempre retornam de cabeça erguida. Só que governo e prefeitura não têm um pingo de vergonha por oferecer migalhas ao invés de apoio. Não aprendem nem querem aprender nada com essas lições.” Mas é público e notório que eventos dessa natureza não se inserem — felizmente, ao menos enquanto a Nike ou qualquer lobo não vem — no sistema de alto patrocínio e rendimento, com seus modelos de recordes e outros valores reducionistas, entre os quais se aplicam a “profissionalização” maquilada e outros instrumentos da automatização, inclusive a figura do atleta fisiológico que ascende à condição de personagem piloto para prestar serviços ao ufanismo semicolonial, etc. Por essas razões, realizações dessa natureza não ganham espaço nas corporações da informação, nem são festejadas com chiliques cívicos pelos comentaristas apadrinhados da TV — aqueles que recebem parte da renda proporcionada pela vitalidade dos atletas devidamente explorados. Enfim, não há o necessário investimento, por exemplo, no esquema do prestígio leviano, catalisador das grandes frustrações das massas*. Nesse caso, pouco importa tratar-se de um campeonato internacional e que adolescentes brasileiros tenham voltado para os seus estados de origem cobertos de medalhas de ouro.

E assim, os atletas conseguiram fretar apenas um ônibus, quando havia gente habilitada — treinando até os últimos dias que antecederam o embarque — para lotar, ao menos, um outro ônibus, e que certamente traria bem mais medalhas. Dinheiro no bolso, só para não passar fome na estrada — assim mesmo recolhido até o momento da despedidas, sem desprezar um único centavo. Outros não conseguiram o necessário para os gastos de viagem, além dos 30 reais da taxa de inscrição, apesar dos esforços dos familiares, coordenadores, amigos. Nada menos que 3.667 quilômetros percorridos pelos adolescentes em quatro dias de viagem. Em seguida, um pequeno repouso e os combates, as medalhas e mais quatro dias — outros 3.667 quilômetros de estrada para o Acre.

As associações da Liga consideram que dois anos, em média, é o quanto suporta cada atleta, quando competidor, no auge do seu preparo. Fácil explicar: em sua maioria, são adolescentes que, ainda cedo — para manter o sustento da família, premida pelos baixos salários — são obrigados a mutilar parte de sua formação juvenil. E como num sistema de relações de exploração não existem empregos, mas desempregos para o povo e o ócio para alguns, o que conseguem os jovens de famílias pobres para sobreviver são trabalhos em jornadas prolongadas, que os mantêm presos ao esgotamento físico e intelectual. Quando isso acontece, os professores da Liga os convencem a abandonar os treinamentos e os encorajam a frequentar a escola regular noturna, com todas as suas deficiências. Não há outra solução.

É próprio da formação humana buscar todos os meios para eliminar a oposição entre o trabalho manual e intelectual, tornar o trabalho mais produtivo e menos fatigante, industrializar as tarefas pesadas, os afazeres domésticos e a todos envolver na instrução intelectual e cultura física. Por essa razão, se diz que sob as ruínas da escola de instrução individualista, verbalística, dogmática, de tempo parcial, surgirá nesse Terceiro Mundo a grande escola que unirá o ensino intelectual à instrução física e politécnica.

Certo, mas quando o povo governar.


*Nos campeonatos de grande patrocíno, a vitória de uma equipe, obrigatoriamente deve corresponder ao desapontamento de uma das torcidas, e nunca à alegria de ter assistido a um espetáculo — ou seja, o final de um torneio de maior envergadura é, obrigatória e necessariamente, marcado por prantos, tanto entre a equipe vencedora quanto a que, considera-se, teve sua expectativa malograda.

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Ao longo da história da sociedade, sem ter realizado sensíveis modificações em sua estrutura física, o homem foi superando em longevidade os demais bichos. Especializou entre os seus, técnicas que permitem desenvolver grande habilidade na natação, em andar e correr por mais tempo que os demais bichos, em fazer acrobacias incríveis, etc. E, como recentemente, a atingir num salto a mesma distância que os tigres de bengala alcançam. O homem se fez desafiando as mais terríveis tormentas, o frio e o calor insuportáveis. Domou bichos, correntezas, alongou suas energias e transformou suas abstrações em pensamento científico.

Os aparatos inventados pelo homem deram a ele a autonomia de permanecer submerso como nenhum outro anfíbio se encoraja tentar, chegar às águas profundas, emitir voz e imagem capazes de contornar a Terra, a voar numa velocidade superior à do som. Em outras naves de transporte, o homem é capaz de chegar ao espaço adjacente ao planeta, nele permanecer durante meses em plataformas espaciais e retornar com toneladas de presentes destinados à Ciência: materiais no estado de imponderabilidade que serão aproveitados para cristais semicondutores, por exemplo.

Hoje, a engenharia técnica consegue apropriar-se da energia solar, fazendo com que um refletor artificial possa prolongar o dia-luz, de acordo com as necessidades de edificações em determinadas partes do planeta, o que permite transformar desertos em imensos territórios férteis num espaço de tempo mil vezes superior ao que se poderia obter no início do século passado.

O trabalho é uma necessidade vital, de tal forma que ele não só proporcionou ao homem os meios de existência, como também criou o próprio homem. E quando o trabalho se converte numa exploração cega e feroz, toda sociedade se degenera. O homem se torna um apêndice das máquinas, vive sob a disciplina da fome, mutilado física e materialmente.

Desenvolver, e mesmo reabilitar as faculdades físicas de populações inteiras, adaptar o ser humano ao meio natural (a exemplo do que propugna o pensamento brasileiro nas palavras do professor Josué de Castro para a habitação, alimentação, vestuário), exige a libertação e o desenvolvimento das forças produtivas como um todo e o definitivo ingresso numa era de reinado absoluto da capacidade criadora do povo trabalhador. O homem integral é o objetivo, aquele capaz de desenvolver plenamente suas faculdades físicas e intelectuais para produzir coisas úteis, viver de suas próprias mãos e governar o mundo livre de opressões.

Lutando pela produção, estendendo suas energias, enfrentando as tormentas, forjando o pensamento científico, o homem prova todos os dias que tudo isso é possível.

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