A experiência da produção em massa de biodiesel

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Em todo o mundo existem inúmeras pesquisas sobre formas de energia capazes de, num futuro não tão distante, substituir os combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão mineral.

No Brasil, de tempos em tempos, são divulgadas pesquisas bem sucedidas no campo do aproveitamento da biomassa como combustível. Tais pesquisas utilizam óleos extraídos de variadas plantas e até óleos já utilizados por restaurantes e lanchonetes. As experiências, depois de divulgadas, curiosamente mergulham num esquecimento que seria espantoso, se os métodos dos monopólios internacionais do petróleo não fossem conhecidos.

Na Europa e no USA já existe produção de biodiesel em especificações próprias para as espécies das quais é extraído o combustível, que pode ser adicionado ao diesel de petróleo ou mesmo usado puro. O Brasil possui enorme potencial de produção de plantas oleaginosas e, consequentemente, de produção do biodiesel, que é tido como substituto inesgotável do diesel de petróleo.

Os monopólios, entretanto, já perceberam todo esse potencial e começaram a assegurar para si a posse dos meios de produção dessa forma de combustível. A tática vai desde a aquisição das refinarias de óleos vegetais até a compra de latifúndios que assegurem a produção. Principalmente da soja, monocultura que foi introduzida no Brasil para que sua torta (matéria resultante da extração do óleo) fosse alimentar animais na Europa e no USA. Basta dizer que esse tipo de cultura só é economicamente viável em grandes extensões de terra (latifúndio) e não atende a nenhum interesse nacional.

Mas existem iniciativas que mantêm vivo o sonho de um projeto nacional de produção de combustível renovável. É o caso da empresa Soyminas Biodiesel, estabelecida na pequena cidade de Cássia, Minas Gerais. O município, que fica próximo a Passos, compõe a grande região que faz fronteira com o estado de São Paulo através do Rio Grande. Sua principal atividade econômica é a agropecuária.

A Soyminas Biodiesel está em atividade há dois anos e meio por iniciativa de Artur Augusto Alves, um engenheiro elétrico de 50 anos que dedicou grande parte de sua atividade profissional em aperfeiçoamento de motores diesel e participou de pesquisas com os caminhões da Formula Truck (corrida de caminhões).

Artur desenvolveu um projeto amplo, que envolveu palestras nas escolas da cidade, parcerias com pequenos, médios e grandes produtores agrícolas, desenvolvimento de tecnologia própria, totalmente nacional, testes do biodiesel em veículos próprios e uma série de participações em eventos para divulgação da produção do biodiesel.

Em um pronunciamento feito em uma audiência pública da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, na Câmara dos Deputados, em Brasília, Artur afirmou:

“O Brasil tem o maior potencial do mundo nesta energia. Energia é poder e esse poder tem que ser usado primeiramente para devolver o desenvolvimento social e econômico dos brasileiros, e a partir daí se pensar em exportação e se pensar em produzir energia para outros países. Com o fim da civilização do petróleo, que está bem próximo, acreditem os senhores, a única forma de energia que existe é a energia solar. E o Brasil é o único país do planeta que tem condição de transformar essa energia em energia química. Porém, tal modelo como apresentado aqui, de implantação do biodiesel vai colocar esse enorme potencial diretamente na mão das multinacionais, que irão controlar principalmente o nosso combustível.”

O “modelo” mencionado por Artur em seu pronunciamento é a especificação estabelecida pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) para a produção do biodiesel, que excluiria os óleos derivados de várias plantas, pois essas não atingiriam tal especificação.

Mantendo a tradição de importar os chamados pacotes tecnológicos estrangeiros, a ANP aplica uma especificação que é praticamente uma cópia da européia, o que deixa quase todas as espécies de oleaginosas brasileiras fora dos parâmetros para produção de biodiesel.

“Na verdade, essa especificação permitiria que se fizesse biodiesel apenas de soja. Porém, a soja está 75% controlada por multinacionais. A produção da soja não gera emprego. Aqui se diz que um modelo desse formato para se produzir D-5 (diesel com adição de 5% de biodiesel) geraria 180 mil empregos. O modelo que nós propomos, e estamos aplicando há dois anos, geraria, no primeiro ano, em torno de 1,3 milhões de empregos, promovendo o assentamento rural, e principalmente mantendo o pequeno produtor na terra, agregando valor ao que ele está fazendo”, disse Artur na audiência.

A reportagem de AND esteve em Cássia para conhecer a Soyminas Biodiesel. Ainda que seja preciso certo conhecimento técnico para compreender o processo de produção, a estrutura da empresa impressiona pela simplicidade aparente e o pouco espaço ocupado pelas máquinas. Sobre esta tecnologia, Artur disse à comissão:

“O custo do biodiesel foi calculado por tecnologias estrangeiras, que é a mesma tecnologia utilizada nos países europeus ou no USA. Não se pensou em desenvolver uma tecnologia nacional, como nós fizemos na Soyminas Biodiesel — tecnologia essa que está em processo de patente. Nós conseguimos fazer um biodiesel com um custo baixíssimo. Só para se ter uma idéia, se for de girassol, por exemplo, a gente tem um custo de produção de R$ 0,20, com um biodiesel de qualidade e especificação técnica muito superior a esta aqui (ANP), com separação de glicerina instantaneamente e alto grau de pureza. Além disso, o custo de implantação dessa tecnologia nacional é de menos de R$ 400 mil, ao passo que a estrangeira não custa menos que R$ 1 milhão.”

A tecnologia desenvolvida pela Soyminas (em fase de patenteamento), permite que, com o mesmo maquinário, se extraia óleos de uma grande variedade de grãos, como girassol, canola, soja e variedades que estão sendo produzidas em conjunto com os agricultores da região, como o nabo forrageiro e o pinhão manso. A extração é feita a frio e sem solventes, o que faz com que a torta resultante do esmagamento seja ainda rica em óleo e sem contaminação, dando outra qualidade ao leite e à carne dos animais que a consomem. Para se ter uma idéia, a extração a quente e por solvente faz com que as refinarias tenham que adicionar óleo à torta para que esta sirva de alimento aos animais, além de carregar a contaminação do solvente químico.

O nabo é comumente cultivado na entressafra, servindo para descompactação do solo e adubação verde. Suas sementes só serviam para este fim, até que Artur esmagou algumas e descobriu a grande concentração de óleo em seu interior.

O pinhão manso é uma espécie nativa do Brasil que quase desapareceu. As últimas mudas foram recuperadas por Artur, que pretende iniciar sua reprodução e distribuição entre os pequenos agricultores. Trata-se de um arbusto, com o mesmo porte do cafeeiro. Suas sementes também têm grande concentração de óleo e ele produz bem nos solos mais pobres e secos, como o semi-árido. No inverno suas folhas caem, possibilitando uma cultura de inverno aos agricultores, que podem cultivar outra coisa entre as plantas.

O projeto da Soyminas inclui educação ambiental nas escolas e incentivo para que os pequenos produtores cultivem o girassol e o nabo na “safrinha”, assim como para que utilizem a torta para alimentação animal e o próprio biodiesel. Ambos podem ser trocados pela produção.

Grande produção

A produção da Soyminas não é apenas demonstrativa, ela prova que a produção do biodiesel é viável em escala industrial e não apenas em laboratórios. Os números provam isso:

“Nós desenvolvemos um programa, há dois anos, e já rodamos 3,5 milhões de km com B-100 (100% biodiesel). Rodamos 1 milhão de km com B-5 (5%), 150 mil km de teste num motor de alta performance, ou seja, de última geração, assistido por concessionárias, que analisaram, tiraram a bomba e o motor, desmontaram. Temos análises da Shell mostrando que não há contaminação do óleo, e nenhuma alteração nesses motores. É um teste que temos feito em nível particular, há anos”.

Mais ainda: a Soyminas conta já com cerca de 200 clientes que abastecem regularmente seus veículos na bomba que fica na porta da empresa, e não são necessárias alterações nos motores.

No apagar das luzes

Outra preocupação de Artur é que se obrigue à Petrobrás a adicionar 5% de biodiesel ao diesel de petróleo. Isso, que a primeira vista pode parecer bom, seria um desastre comparável ao do Proalcool, segundo ele. O motivo de tal preocupação é o sistema de controle de preços que em alguns produtos, como a soja e o açúcar, são controlados internacionalmente pelos monopólios. São os chamados commodities.

“Nós temos tecnologia brasileira, não temos que importar nada. Nós não podemos atar o biodiesel à rota do petróleo, como aconteceu com o álcool, que um simples aumento do preço do açúcar desestabiliza todo o processo de distribuição do álcool. Como o biodiesel precisa de 27% de álcool (necessário à produção), é só aumentar o preço internacional do açúcar lá fora que a nossa distribuição vai estar altíssima. Caso se obrigue a Petrobrás a colocar 5% de biodiesel no combustível feito na destilação, nós estaremos entregando de bandeja o controle desse imenso potencial energético para multinacional, que está simplesmente controlando o preço internacional do açúcar. O biodiesel não pode ser atado à rota do petróleo. Se alguém quiser misturar esse biodiesel, que sejam as distribuidoras, que hoje estão na mão de multinacional também.”

No caso de se obrigar a Petrobrás a fazer a mistura, esta ficaria forçada a comprar um biodiesel que incorporaria os preços internacionais de suas matérias-primas. Isso será ainda mais agravado se for aplicada aqui a especificação similar à européia, que só é atingida pelo biodiesel de soja.

O cerco se fecha quando se vê a produção de soja quase toda nas mãos das corporações estrangeiras. Há uma superprodução de óleo de soja no Brasil porque o principal produto da soja é exatamente a torta para alimentação animal, quase totalmente exportada para a Europa e USA. O que resta, o óleo, é um subproduto que hoje sobra nas refinarias. O remédio para desaguar esse estoque é impor a Petrobrás misturar esse excedente como biodiesel ao diesel comum, o que garante que nosso enorme potencial energético continue nas mãos dos países imperialistas.

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