Encontro com a tradição do samba

Importante projeto de samba de Campinas/SP, o Núcleo Cupinzeiro trabalha a memória do gênero com novos arranjos e interpretações. Com repertório diversificado, que abrange o samba de várias partes do país, o Núcleo promove também rodas, oficinas e seminários, tudo voltado para a tradição.

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— Surgimos da vontade de termos um espaço próprio para desenvolver nossa maneira de fazer música. Começamos a nos reunir no quintal da casa, para mostrar composições e compartilhar a pesquisa fonográfica que fazíamos — diz Anabela Leandro, componente do grupo.

—Esses encontros foram agregando cada vez mais pessoas, e logo sentimos que precisávamos pensar na estrutura do lugar. Compramos cadeiras, depois veio uma lona e o caldinho de feijão — continua.

O núcleo ficou durante um bom tempo nesse quintal, depois ocupou outros espaços de Campinas, realizando rodas de samba quinzenais.

— Pela dificuldade em manter um espaço para rodas, concentramos o trabalho por alguns anos no Núcleo Musical, um grupo de 7 músicos que trabalha com pesquisa e criação. Produzimos e gravamos CDs, ganhamos vários editais para circulação — fala.

— Fizemos viagens e criamos os shows ‘Samba Paulista Sim Senhor’ e ‘Velho Canto Novo’. Agora estamos na fase inicial da construção de um pequeno espaço para o grupo, que será nossa sede, no Distrito de Barão Geraldo.

Anabela conta que ao longo dos 14 anos de trabalho do Cupinzeiro, os objetivos do grupo foram mudando.

— No início do projeto pesquisávamos sambas pouco conhecidos, a vida dos compositores. Vivíamos em sebos garimpando vinis. O objetivo era fazer com que esse material ficasse de certa maneira mais acessível ao público, já que não estava nas rádios e nem em outros veículos — explica.

— Então usávamos o espaço da nossa roda de samba para tocar essas canções, falar sobre os compositores e questões da cultura em geral. Hoje, podemos dizer que basicamente trabalhamos com pesquisa e criação de palco.

O Cupinzeiro é formado por Anabela Leandro (voz e percussão), Edu de Maria (voz, percussão e violão), Guilherme Soares (violão de 7 cordas), Eduardo Guimarães (acordeon), Lucas Arantes (cavaco) e Roberto Amaral (pandeiro).

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Resgate e características próprias

— Quando se trabalha com cultura popular é difícil encontrar um equilíbrio entre o que se deve manter da tradição e o que podemos acrescentar sem que ela se perca. Aos poucos fomos criando nossos arranjos — conta.

— Fomos desenvolvendo nossa forma de expressão através da música. Tentando dar um passo além da simples reprodução dos sambas pesquisados.

— Pesquisamos o samba, mas também pesquisamos a linguagem musical dentro do campo da arte e da cultura. A partir disso, buscamos criar algo que seja a nossa cara, a nossa relação com o repertório — acrescenta Anabela.

O Cupinzeiro mantém, todavia, suas características fundamentais e convicções.

— Percebo algo interessante quando falamos em samba: muitas pessoas buscam uma ‘legitimidade’ que está fora da música. O modo de vestir, a cor da pele, o bairro onde mora, tudo isso pode dar ou não uma ‘legitimidade’ com o samba — expõe.

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— Vejo assim principalmente em São Paulo. Aqui no núcleo não temos essa preocupação, amamos o samba, pesquisamos, criamos e fazemos o nosso melhor — diz.

— Eu, por exemplo, nunca ouvi samba em casa, tinha outras referências. Com o Cupinzeiro passei a ouvir muitos compositores, a me interessar e dedicar o meu trabalho de intérprete e percussionista para o samba — continua.

O grupo vê o samba como responsável por grande parte da cultura musical brasileira.

— Ele influenciou e ainda influencia toda uma geração, da bossa nova ao rap. Para nós não se trata de um ritmo, mas de uma manifestação da cultura popular, de todo um contexto sócio cultural — declara Anabela.

— O samba nasceu como a voz de protesto do subúrbio, da periferia, então tem uma importância muito grande para a construção da nossa identidade. Uma pena que hoje alguns grupos modernos apresentem letras tão pobres em seu conteúdo — lamenta.

 Anabela diz que não trabalham algum tipo ou estilo de samba em especial.

— Fazemos uma pesquisa coletiva e cada um vai apresentando o que está ouvindo, e assim vamos construindo os repertórios. Nos identificamos mais com alguns compositores e menos com outros, é muito subjetivo —explica.

— Só não gostamos de tocar o samba que hoje é chamado de pagode. Não é algo que gostamos de ouvir, logo não faz parte da nossa expressão artística.

O repertório do grupo traz uma mistura das tradições do samba paulista, carioca, baiano. Obras de Elton Medeiros, Baden Powel, Roque Ferreira, Gonzaguinha, Wilson Moreira, Mauro Duarte, Eduardo Gudim, entre outros, além do trabalho autoral.

— A escolha dos repertórios vem das nossas pesquisas e também das vivências. Viajamos bastante com o grupo e com isso tivemos oportunidade de conhecer diversos sotaques do samba, e muitos compositores maravilhosos — fala a artista.

— E somos um grupo bem variado: sou natural de Curitiba, o Edu de Maria é paulistano, Eduardo é baiano, Roberto e Lucas são campineiros, e o Guilherme é de Ribeirão Preto — relata.

— Temos um trabalho autoral, o Edu de Maria compõe e tem parcerias com vários outros compositores. E mantemos atividades permanentes: rodas de samba, shows, bloco de carnaval e oficinas. Individualmente frequentamos e participamos de outras rodas e de outros projetos.

Nos últimos quatro anos, o grupo realizou um projeto de extensão na Universidade Federal de São Carlos.

— O Edu de Maria é professor da universidade. Este projeto envolveu oficinas, rodas, apresentações, produção de material didático. Realizamos também algumas atividades com o Lume Teatro de Campinas, com trilhas, performances.

— Circulamos por várias cidades com os shows ‘Samba Paulista Sim Senhor’, e ‘Velho Canto Novo’. Atualmente iniciamos a criação de um show que traz o samba de compositores nordestinos, com a temática do mar e do sertão — avisa.

— Fora isso, estamos concentrados na construção do nosso espaço, e provavelmente tentaremos um projeto de gravação dos sambas do Bloco do Cupinzeiro, que já tem 12 anos de atividade — conclui.

O contato do grupo  é Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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