Três contos sobre a infância de Lenin

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A família Ulianov. Da esquerda para a direita: Em pé, Olga (Olia), Alexander, Ania ; sentados: Maria Alexandrovna Ulianova com a filha menor Maria, Dmitri (Mitia), Ilia N. Ulianov, Vladimir (Volodia). Simbirsk, 1879

I – A cabana

No canto mais afastado do jardim, por trás dos arbustos de groselhas, havia uma cabana cuja existência só era conhecida por duas pessoas no mundo todo: Olia1 e Volodia2 . Foi sua primeira cabana, com a qual, antes de ser construída, haviam sonhado durante anos. E quando a construíram imaginavam que era cercada por um bosque espesso e não arbustos de groselhas, e no bosque não era uma cabana que havia, mas uma cabana de índios. Eles queriam ir toda hora visitar sua cabana, ocultando-se cuidadosamente para que ninguém os visse.

E não era tão fácil conseguir isso: o pequeno Mitia3 lhes perseguia por todos os lados, não se separando deles nem um só passo. Pelo visto percebia que o irmão e a irmã faziam o possível para se esconder dele e, naturalmente, isso lhe ofendia. E se agarrava com todas as forças às saias de Olia.

Se fez necessário pôr os dois dedos na frente, como dois chifrinhos: Volodia o fez, franziu o cenho e entoou queixoso:

Restaram ao cabritinho somente
As patinhas e os chifrinhos 4

Mitia abriu sua pequena boca redonda; queria chorar, perturbado e pela tristeza que lhe dava o cabritinho. Este pequeno cabritinho cinza, sobre o qual se cantava tantas vezes, havia se convertido em um velho amigo. Não era preciso matá-lo.

Mitia sabia que se ficasse com eles um pouco mais choraria. Por isso soltou suas mãos da barra das saias de Olia e foi atrás da mamãe. Sempre fazia isso quando as coisas não iam bem.

Volodia e Olia se esconderam atrás dos arbustos, no jardim, e logo, o mais depressa possível, correram para sua cabana.

A cabana foi construída com ramos de bétula. Só se podia entrar nela de um em um e, além disso, de joelhos, senão podia bater no teto. Por outro lado, por dentro havia um odor agradável, porque acima as folhas frescas haviam secado. E a cabana estava tão admiravelmente escura! Protegia não só da chuva e do vento, mas também dos inimigos. E por acaso os índios têm poucos inimigos? Apenas lhes sobra tempo para defender-se de tantos.

Volodia e Olia entraram se arrastando na cabana, um depois do outro. Ficaram sentados por um momento, tanto quanto lhes pareceu suficiente e saíram. As nuvens haviam se tornado cor de rosa. Isto indicava que logo lhes chamariam para o chá da tarde.

— Vai caçar — disse Olia — enquanto isso eu vou acender a fogueira.

Reuniu um montão de vários raminhos secos e os polvilhou de açafrão, que ontem havia obtido da mamãe depois de muita insistência. O açafrão era dourado, quase vermelho como o fogo. Daria uma boa fogueira, se ninguém enchesse a paciência.

E Volodia ia se arrastando pelo caminho, já era hora de começar a caça: em uma das cercas havia groselhas, e na outra também cresciam groselhas, mas com espinhos não menos pontudos que os dos cactos da América do Sul... Não se via ninguém ao redor. Somente junto aos arbustos de groselhas um grilo cantava com diligência. “Não o apanhará”, pensou Volodia; mesmo assim afastou com cuidado o ramo de groselha. O grilo estava sobre umas ervazinhas secas, cinza e com aspecto de grande obstinação. Volodia abriu a mão, o grilo saltou para cima e caiu entre os arbustos. Os ramos de groselha estavam coloridos pelos frutos esquecidos. Como podiam estar ali, inadvertidos, se já era agosto? Inclusive haviam secado e apareciam com algumas rugas. Assim estavam ainda mais gostosos. Volodia colheu as groselhas, meteu-as no bolso e continuou adiante. No fim do caminho viu o vulto de algo grande e chifrudo que bem podia ser um cervo. Ou uma rena. Era muito mais difícil aproximar-se até ele. Era preciso se estreitar contra a terra, parando de vez em quando e escutar constantemente. Era necessário não espantar a fera.

A terra estava seca, gretada. Um escaravelho verde-negro, fino e com bigodes, corria ao longo de uma greta, procurando um caminho. Seus longos bigodes lhe caiam dos lados como sabres curvos e eram maiores que ele próprio.

Foi necessário deixar de lado o escaravelho. O combate com a cornuda fera aguardava o caçador adiante.

Mas quando Volodia agarrou os rugosos chifres, da cabana chegou uma voz. Era a voz de Mitia. Foi preciso terminar antes do tempo a contenda com a fera. O caçador carregou a fera nas costas e voltou correndo para a fogueira. Junto do lume estava Mitia, olhando enfadado para Olia, enquanto chorava:

— Si-i. Está aqui sem mim. Por que está aqui sem mim?

O caçador jogou na terra a fera morta.

— Isto é uma rena – esclareceu a Mitia — pesa terrivelmente. Ah, como estou cansado!

Mitia se aproximou mais e se pôs a olhar por todos os lados a fera.

Depois disse:

— Isso é uma raiz de afeto.

— Afeto não, abeto — Olia gritou para Mitia – Quem te chamou aqui?

— Representamos os índios — disse rapidamente Volodia — eu sou o caçador “Ameaça da Floresta”. Irmão de rosto branco, receba este presente.

Entregou a Mitia algumas groselhas e este as pôs na boca. E seu rosto se iluminou com um sorriso feliz.

— Você será “Asa de Águia” — disse Volodia — Seu irmão “Ameaça da Floresta” está cansado da luta com a fera e tem fome. Tente entrar na cozinha com malícia, somente para que ninguém te veja, e traga pão negro. Comeremos junto à fogueira. Tome cuidado para não ser atacado pelos inimigos.

Depois da conversa, tão agradável para ele, Mitia iria não só à cozinha, mas até o fim do mundo.

Ocultando-se atrás dos arbustos e agachando-se onde era necessário para que não o vissem, chegou correndo na cozinha. Felizmente não havia ninguém. Abriu o armário, apanhou um pedaço de pão duro e voltou. Tinha mais medo de que Volodia e Olia se escondessem dele do que de um encontro com os inimigos.

Mas eles o esperavam, e diante deles ardia o fogo de açafrão.

Volodia dividiu o pão em três partes iguais e se sentaram todos ao redor da fogueira.

— Agora guardamos um segredo — disse Volodia — assim é melhor. Você Mitia, não revelará a ninguém nosso segredo? Ficará fiel até a morte?

Mitia olhou para a cabana, para a fogueira amarela, para Volodia e Olia e disse:

— Permanecerei fiel até a morte.

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Lenin e Olga em 1874

II – “Brikaska”

Depois do chá da tarde Brikaska se apresentou. Era conhecido por sua lã avermelhada e espessa. Não se via o rosto, o que causava espanto a todos. Brikaska entrou na casa saltando. Todos davam gritinhos e cada um se lançava para onde podia.

Brikaska se enfiou debaixo do divã.

É impossível adivinhar hoje se Brikaska está ou não de bom humor. Pode ser que grunha. E também é possível que deixe acariciar sua suave lã. Às vezes permitia que passeassem montados sobre ele desde o quarto das crianças ao corredor, e de volta. A cada dia Brikaska tinha novos caprichos.

As crianças começaram a se aproximar furtivamente do divã.

Brikaska calado.

Mitia subiu audaciosamente no divã e olhou atrás do encosto para baixo: estava escuro, não se via nada.

De repente, Brikaska saiu grunhindo debaixo do divã. Parecia que ia atacar o primeiro que visse diante de si. Em casos como esse cada um sabia que podia contar só com sua agilidade e rapidez. Ademais, sabiam que era mais difícil para Brikaska correr como os outros por causa de seus pesados pelos e por caminhar com quatro patas.

Mas isso, pelo jeito, era conhecido pelo próprio Brikaska que correu até o centro do cômodo e ficou ali parado. Depois começou a dar saltos, comicamente, sem se mover do lugar. Não perseguiu ninguém; se alguma criança se distraísse ou ficasse sem forças devido às risadas, ela seria apanhada.

Ania5, a maior, começou a rir às gargalhadas quando viu os saltos de Brikaska. Adivinhando logo as artimanhas de Brikaska, representou ainda mais comicamente a cena. Cômica a tal ponto, que a risada, sem dúvida, lhe impediria de correr. E antecipadamente lhe dizia em tom carinhoso:

— Brikaska querido, Brikaska bonito!

O bonito Brikaska se lançou com um terrível rugido sobre ela, apanhando-a pelos sapatos. Ania gritava desaforadamente.

A mamãe olhou o cômodo e disse em voz baixa:

— Silêncio, papai está ocupado.

Mas não interrompeu a brincadeira e se foi.

Já não se podia gritar.

Pode ser que por isso Brikaska se tornou de repente mais amável. E dando-se conta de sua repentina amabilidade, puseram-se todos a pedir:

— Brikaska, me carregue.

— Leve-me, Brikasochka.

Trouxeram um longo cordão da persiana a amarraram Brikaska com cautela. Mitia se colocou por trás, segurando em seus pelos.

Ania continuava, mimosamente, a persuadir Brikaska.

— Como você é bonzinho, Brikasochka!

E o convenceu. Ficou completamente tranquilo, sobretudo quando passavam pelo escritório de papai. Ali, na verdade, todos se calavam.

Em troca, pela sala de jantar passavam estrondosamente. As cadeiras caíam, uma depois da outra...

Voltaram saltando ao quarto das crianças. Brikaska começou de novo a saltar. E logo apanhou Mitia, que não esperando aquilo gritou com todas as suas forças.

Novamente mamãe apareceu na porta e disse num tom de voz que dava a entender que os truques de Brikaska haviam terminado por hoje.

— Está na hora de fazer a lição.

— E eu? — perguntou Mitia, queixosamente.

Ele ainda não estudava.

— Você vem comigo. Vamos fazer uma massa.

Naturalmente que fazer massa também era interessante, pensou Mitia. Que uns resolvam seus problemas e que os outros vão à cozinha fazer massa com a mamãe.

Neste momento, Brikaska se levantou e sua pelagem caiu no chão... E todos viram que era Volodia.

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O pequeno Lenin em 1879

III – A poltrona negra

A mamãe pôs uma grande lâmpada sobre a mesa da sala de jantar e fez com que todos se sentassem para fazer as lições, menos Mitia, que levou consigo.

Mitia, enquanto caminhava, não parava de olhar para Volodia.

Volodia, com pena, crispou os lábios e mostrou a Mitia seus dois dedos encurvados sobre a testa: os chifrinhos do pobre cabritinho.

A porta se fechou e atrás dela se ouvia a voz de Mitia:

— Mamãe, porque Volodia fica me provocando?

Volodia pegou um caderno de linhas e quadrinhos azuis. Era necessário solucionar um problema. Um comerciante misturou para vender três tipos de chá... Volodia conhecia bem este comerciante. Perto da casa dos Ulianov, na esquina, tinha um quiosque com um torrão de açúcar pintado sobre a entrada. No balcão estava sentado o comerciante brincalhão, que tinha a barba negra e as bochechas vermelhas. O comerciante tirava as mercadorias rapidamente sob o peso do cobre.

E Volodia resolveu rapidamente o problema sobre esse comerciante.

Agora faltava copiar uma poesia.

“O passarinho de Deus não conhece nem as inquietudes nem o trabalho.”

Logo a poesia estava copiada.

Depois Volodia se sentiu muito aborrecido.

As meninas, sobre os livros, moviam os lábios. Olia estava tão concentrada que inclusive mexia a cabeça no compasso dos versos que aprendia.

Volodia olhava para uma mosca que andava pela toalha de mesa em volta da lâmpada: talvez começasse a soltar fumaça. Mas a lâmpada não esfumaçava, ardia tranquilamente com uma chama amarela.

Olia movia de tal forma a cabeça que até as tranças saltavam. Os versos eram difíceis.

Volodia lhe diz:

— Suas tranças estão dançando.

— Não me estorve!

Durante o tempo da lição era melhor não incomodar Olia.

Em compensação as brincadeiras com ela eram muito boas. Na semana passada, Volodia quis construir novamente a cabana dos índios. Olia gostava dela porque era pequenininha. Gostava de tudo que parecesse um brinquedo. Volodia lhe disse: “lembra-se de quando roçaste o teto mesmo de joelhos e por pouco não derrubou a cabana inteira?” Ela não respondeu nada. E Volodia percebeu que Olia não estava de acordo com ele, mas não compreendeu que ela não ia discutir com ele para não arriscar perder o jogo. Então disse: “sabe que... como é tão pequena e encoberta por arbustos de groselha, ninguém se deu conta de nossa cabana. Não é um arbusto de groselha, mas uma moita de bambus”.

E assim nunca se enfadavam durante as brincadeiras.

Mas durante a lição o melhor era não incomodar Olia.

Disse-lhe:

— Eu não tenho culpa se suas tranças balançam.

— Não me incomode enquanto estudo. Ania, por que o Volodia me incomoda?

Ania disse:

— Você sempre faz isso Volodia. Acaba a lição antes de todos e depois começa a incomodar os outros. Lembra que a mamãe ameaçou te sentar na poltrona negra?

Não, não havia esquecido. Volodia decidiu se calar. A mosca chegou até a lâmpada, limpou uma pata com a outra e voou. Onde estaria agora o grilo obstinado? Todos os dias cantava e cantava sem cessar. E seu cansado cri-cri parecia um martelo golpeando constantemente sobre os raminhos, como os movimentos de uma máquina de costura funcionando com toda pressa. Podia-se dizer que estava golpeando o ferro para fazer umas asas para o escaravelho bigodudo.

— Ania, o grilo canta com o quê?

— Com as patas. Me deixe em paz. Pergunta pro papai.

O gabinete estava vazio. Não se via o chapéu de papai em nenhum lugar. Isso queria dizer que papai havia saído.

Volodia voltou à sala de jantar, mas logo — ele mesmo não esperava por isso — chegou a seu lugar dando cambalhotas. Não fazia muito tempo que havia aprendido, depois que viu uns artistas fazendo isso num circo. A coisa não era difícil: põe-se as mãos no chão, salta-se e, em seguida, coloca-se os pés.

Olia gritou:

— Mamãe, Volodia não nos deixa estudar.

“Agora, agora”, disse Volodia a meia voz, rapidamente. E passou a cabeça para baixo, andando com as mãos, com os pés para cima, ao redor da mesa.

A porta chiou. A mamãe entrou e viu atrás da mesa as pernas balançantes de Volodia.

— Ah, amiguinho, vamos — disse ela — vamos, vamos. Já da outra vez já queria te levar à poltrona negra.

Levou-o ao gabinete do papai e sentou-o na poltrona.

E daí? Durante os primeiros minutos não estava ruim na poltrona. Era largo, profundo e alto. As pernas se dobravam sem alcançar o chão. Podiam se mover no ar. E Volodia podia se sentar na poltrona ainda de outra maneira. Por exemplo, passar as pernas sobre um braço da poltrona e pôr a cabeça sobre o outro. Assim fez Volodia.

A mamãe voltou para a cozinha. Ela tinha muito o que fazer porque a família era numerosa.

E se esqueceu de Volodia e da poltrona negra. Se lembrou somente quando levou o pequeno Mitia para dormir. Já havia passado uma hora desde que havia sentado Volodia na poltrona negra. Pobre Volodia! Certo de que era um traquinas, mas nunca ofendeu ninguém com suas travessuras. Pra dizer a verdade, sem suas travessuras se viveria com muito mais enfado naquela casa.

E, o mais importante, ele, naturalmente, não havia descido da poltrona.

Permaneceu sentado e ficou sofrendo, a pobre criança, durante mais de uma hora.

A mamãe correu até o gabinete a abriu a porta.

Volodia estava estendido, com a cabeça clara e arrepiada jogada sobre o braço da poltrona negra, e dormia profundamente.

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Notas

O texto foi traduzido da revista Literatura Internacional, uma publicação soviética em língua espanhola destinada a divulgar a arte em geral desenvolvida principalmente na URSS nos tempos da II Grande Guerra Imperialista, publicada entre 1942 e 1945. Há, nas edições da revista, inúmeros relatos de guerra, já que vários artistas, nas condições de membros do Partido Comunista da União Soviética, se alistaram nas tropas para combater a besta nazista e relatar as batalhas. Não sabemos a data da publicação, já que a encadernação que temos em mãos traz várias edições sem as capas. A. Kononov foi autor de livros infantis, inclusive um intitulado Anedotas de Lenin. Não foram encontradas informações biográficas.

1 Olga Ilinichna, irmã de Lenin

2 Vladimir Ilich Lenin

3 Irmão menor de Lenin

4 Verso de uma canção infantil russa sobre um cabritinho cinza que quis dar um passeio pelo bosque e foi devorado pelos lobos.

5 A irmã maior de Lenin

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