Editorial - "Comissão Paz no Campo" e grupos de extermínio

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A luta pela terra no Brasil conheceu, no último mês, um novo incremento de atrocidades com o assassinato de lideranças camponesas e indígenas em Rondônia, na Bahia e no Maranhão.

O assassinato de Paulo Justino Pereira numa tocaia em Buritis, Rondônia, guarda semelhanças com outras mortes de lideranças camponesas, inclusive em outros estados do país. Semelhanças essas que atestam um verdadeiro “roteiro da morte”, como tem denunciado as Ligas dos Camponeses Pobres (LCP), envolvendo a Ouvidoria Agrária Nacional, polícias, Incra, Ibama e outras instituições do velho Estado.

Paulo Justino foi covardemente assassinado a tiros após ter participado como representante dos camponeses do projeto Rio Pardo de uma reunião com o Ouvidor Agrário Nacional, desembargador Gercino da Silva Filho, e membros de outros órgãos estatais, além de latifundiários.

A gravidade dos acontecimentos recentes é muito maior por não se tratar de fato isolado. O mesmo já havia ocorrido, em 2009, com Élcio Machado e Gilson Gonçalves, da LCP, também em Rondônia; e em agosto de 2014 com Ireni e seu marido Josias P. de Castro, no Mato Grosso. Há ainda denúncias de ameaças e tentativas de assassinato contra outras lideranças com as mesmas características.

Não se trata de mera coincidência. Cleomar Rodrigues, dirigente da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia, foi assassinado numa tocaia em outubro do ano passado após participar de uma reunião da “Comissão Paz no Campo”, presidida por Gercino Silva. Comissão que trata com reverência os latifundiários, dá assento a pistoleiros conhecidos e agentes das forças de repressão. O que se percebe é que, na política e na metodologia, a chamada “Comissão de Paz no Campo” opera juntamente com grupos de extermínio, movidos não somente pelos latifundiários, mas com o manejo de elementos dos órgãos repressivos do velho Estado.

Apesar das reiteradas denúncias feitas, essas reuniões continuam sendo realizadas, as lideranças continuam sendo mapeadas e eliminadas sem que respostas ou providências sejam tomadas. Os bandos de pistoleiros, na maioria compostos por policiais ou ex-policiais, arregimentados e pagos por latifundiários, mas sempre acobertados pelo velho Estado, seguem matando e aterrorizando camponeses em luta pela terra em vários estados, complementando a repressão exercida pelos órgãos do velho Estado.

A política agrária do gerenciamento petista é essa: ao mesmo tempo em que assenta uma pesada pedra sobre o tema da falida “reforma agrária”, incrementa o aparelhamento e a presença maciça das forças repressivas e de inteligência do velho Estado no campo. Ou seja, questão agrária é questão de polícia.

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Não nos esqueçamos jamais do episódio da fazenda Forkilha, no Sul do Pará, em novembro de 2007, sob a gerência de Ana Julia Carepa (PT), em que uma operação de guerra montada por diversas corporações das forças de repressão atacou brutalmente um acampamento camponês, prendeu centenas de pessoas, abusou das mulheres, torturou adultos, velhos e adolescentes, e, na sequência da operação de terror no campo, em poucos meses, assassinou 11 coordenadores de grupos do acampamento, culminando com o assassinato do dirigente da LCP, Luiz Lopes.

Já em novembro de 2013, diversas forças de repressão foram enviadas a Rio Pardo, Rondônia, para atacar os camponeses da área que compõe a Floresta Nacional Bom Futuro. A população vivia ali mesmo antes da criação da Flona e foi expulsa sem indenizações justas. A revolta explodiu quando desse ataque e um militar da Força Nacional acabou morto por um colega seu. A repressão que se seguiu também encarcerou e torturou dezenas de pessoas. Foi na defesa desses camponeses que Paulo Justino foi assassinado.

Também os mandantes e executores do assassinato do dirigente camponês Renato Nathan, em Rondônia, no ano de 2012, continuam impunes e o crime sem investigação.

Esses acontecimentos e tantos outros já noticiados pelo AND e fartamente denunciados pelo movimento camponês provam que a política do PT no campo é a de liquidar a luta mais combativa enquanto dá rios de dinheiro para o “agronegócio”, ou seja, “limpar” a luta no campo é decisivo para dar todas as terras nas mãos dos grandes latifundiários, empresas do “agronegócio” (soja, cana e gado), das corporações mineradoras etc. “No que se refere” à natimorta reforma agrária, Dilma, em seu segundo mandato, nomeou como ministra da agricultura a “rainha” dos latifundiários e ignorou solenemente até mesmo a direção governista/corporativizada do MST, que se vê entre a inatividade e a pressão das suas bases por radicalizar a luta pela terra.

Nas cidades a matança de pobres não é diferente, principalmente nas favelas, onde a polícia mata todo dia. Porém, no campo o que ocorre é um aniquilamento seletivo de lideranças, não uma matança indiscriminada. O que estão tentando fazer é destruir a cabeça dos movimentos mais combativos de luta pela terra, principalmente da Liga dos Camponeses Pobres, que vem deslindando com o caminho reformista e oportunista no campo e atraindo cada vez mais massas para o caminho da Revolução Agrária.

Igualmente os povos indígenas vêm sofrendo ataques por todos os lados, seja por grupos de pistoleiros a soldo do latifúndio e das forças de repressão do velho Estado, seja do lobby latifundiário no Congresso. Os assassinatos de lideranças indígenas são uma constante e frequentemente acompanhados da criminalização de sua luta pela demarcação de territórios, muitos já com processos finalizados, aguardando a homologação pelo ministro da justiça, Eduardo Cardozo, do PT, que não o faz, claro, devido aos compromissos da gerência petista com os “heróis da nação”, os latifundiários.

A luta indígena não é apenas por terra, senão que pela autodeterminação, algo que vai ganhando corpo cada dia mais entre muitos destes povos.

Ademais de que a luta no campo é fundamental para a libertação e verdadeira independência do país. Nas cidades, diante da crise econômico/política, setores cada vez maiores do proletariado e dos movimentos populares vêm chamando à preparação da greve geral para derrubar os “pacotões” e demais medidas antipovo dos distintos gerenciamentos. No campo deve se potenciar a mais vigorosa luta pela terra, se livrando das amarras do oportunismo e tomando todas as terras do latifúndio.

E é tarefa também dos revolucionários e verdadeiros democratas das cidades apoiar a Revolução Agrária como parte indispensável e impulsionadora da Revolução de Nova Democracia em nosso país.

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