América Latina: o imperialismo e a pilhagem arqueológica (PARTE 2)

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Funcionários da empresa Odyssey Marine Exploration

Nos últimos 20 anos a preocupação dos povos da América Latina com o roubo de seu patrimônio histórico expandiu-se da terra para a água. O avanço da tecnologia dinamizou os estudos de Arqueologia Subaquática em universidades, mas ao mesmo tempo proporcionou o surgimento de empresas capitalistas apelidadas de “caça-tesouros”, que investigam navios afundados visando lucro monetário, muitas vezes sob o disfarce de trabalho cultural.

Uma das palestras do 1o Seminário Internacional de Arqueologia Subaquática, promovido no ano passado pela universidade Unisul (campus de Tubarão, SC) mencionou justamente o conflito ocorrido entre a Espanha e uma dessas empresas, a ianque Odyssey Marine Exploration, por causa da carga de ouro e prata da Nuestra Señora de la Mercedes, embarcação proveniente do Peru (via Uruguai) e que naufragou nas vizinhanças do porto espanhol de Cádiz em 1804.

A fragata castelhana transportava 500 mil moedas de ouro e prata, têxteis feitos com lã de vicunha e algumas toneladas de quina e canela. Foi encontrada em 2007 pelos mergulhadores da Odyssey, que levou o carregamento para o USA, o que deu início a um litígio jurídico internacional.

Em 2011 um juiz do estado ianque da Flórida determinou a entrega do material à Espanha, porém a empresa negou-se a cumprir, seguindo-se uma troca de apelações e contra-apelações que culminou com a devolução dos achados aos espanhóis em fevereiro de 2012.

Mas a batalha não tinha terminado.

Ao conferir o acervo recebido, o Museu Nacional de Arqueologia Subaquática de Cartagena constatou que estava incompleto. Ou seja, descobriu-se que a empresa ianque, tentando uma esperteza, havia escondido parte da carga da Mercedes em Gibraltar, fraudando o inventário. Após alguns vai-e-vens, as peças ocultadas finalmente foram devolvidas em julho de 2013.

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No entanto, talvez o último capítulo desse episódio ainda não tenha sido escrito.

Porque o povo do Peru, por acaso, não tem o direito de reivindicar o carregamento da fragata (hoje tido como um bem arqueológico), já que este foi fruto da espoliação colonial castelhana realizada naquele país?

Tudo indica que a Espanha preocupa-se com isso, pois está tratando de tomar suas precauções num outro caso, que envolve riquezas do México.

O caso do galeão Juncal

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Moedas de prata do navio Nuestra Señora de la Mercedes

No ano passado as gerências antipovo mexicana e espanhola anunciaram um acordo “de cooperação na investigação, proteção, conservação e preservação de recursos e sítios (arqueológicos) do Patrimônio Cultural Subaquático”.

Tal documento, aparentemente benéfico à “cultura”, na verdade oculta uma armadilha contra o povo do México, que a partir desse pacto provavelmente ficará impedido de reaver a totalidade de suas riquezas naufragadas em navios castelhanos.

Em outras palavras: tudo indica que os herdeiros dos astecas, se não protestarem, vão terque se contentar em dividir seus bens arqueológicos com aqueles que os arrebataram. 

Mas o conflito está no ar.

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As moedas foram resgatadas no fundo do mar

Por isso, junto com as crescentes investigações submarinas, é que veio a rápida precaução espanhola para fugir de eventuais reivindicações populares da ex-colônia (as quais a gerência mexicana também teme e quer abafar). Tal coisa ficou clara em afirmações feitas no ano passado, a respeito do acordo.

“É a oportunidade para gerar um modelo de participação conjunta e mostrar que trabalhando em equipe se consegue melhores resultados do que os dois países ficarem discutindo a favor ou contra” — disse uma fonte de um museu mexicano.

O monopólio da imprensa, por sua vez, noticiou: “(O pacto) dissolveria uma hipotética pugna diplomática pelos restos do mítico Juncal”.

Este galeão, que afundou em 1631 durante a travessia entre o porto mexicano de Veracruz e Havana, estava lotado de bens tirados do país asteca: um milhão de moedas de prata, peças feitas de outros metais preciosos, chocolate (produto originário, desenvolvido por indígenas), tecidos e tinturas.

O Instituto Nacional de Antropologia e História do México vinha tentando, sozinho, localizar a embarcação há vários anos. Parece que conseguiu (Obs: os informes são obscuros, pois o assunto é tido como “segredo de Estado”). Mas agora, depois que muitos recursos públicos dos mexicanos já foram investidos, o acordo prevê a participação da Espanha na próxima etapa dos trabalhos, neste 2015. Aí é moleza, para não dizer outra coisa...

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