‘Caravana 43 pela América do Sul’ passa pelo Rio

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Após passar pela Argentina, Uruguai e pelas cidades de São Paulo e Porto Alegre, a ‘Caravana 43 pela América do Sul’ chegou, em 9 de junho, ao Rio de Janeiro, onde permaneceu até o dia 12, encerrando as viagens. Integrada por familiares e amigos dos 43 estudantes desaparecidos da Escola Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, no estado de Guerrero, México, a Caravana percorreu o nosso continente denunciando o terrorismo do Estado mexicano e exigindo justiça: “¡Vivos se los llevaron, vivos los queremos!”.

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O fotógrafo Ellan Lustosa registrou a atividade realizada na noite de 12 de junho na Cinelândia

Os crimes

Os sequestros forçados e prováveis assassinatos dos estudantes, que ainda permanecem desaparecidos, se configuram em um dos crimes de Estado mais absurdos e cruéis da atualidade. Em 26 de setembro de 2014, os jovens foram em cinco ônibus para a cidade de Iguala, próxima a Ayotzinapa, com o objetivo de arrecadar fundos para participar de uma manifestação no dia 2 de outubro, na Cidade do México, que lembraria o massacre contra estudantes ocorrido em 1968 em Tlatelolco. No trajeto, e em localidades diferentes de Iguala, policiais municipais fardados e em roupas comuns atacaram os estudantes com tiros de armas de fogo. No mesmo dia, outro ônibus que transportava jogadores de futebol também foi atacado por engano. Saldo: após quatro ataques, até a madrugada de 27 de setembro, seis pessoas foram assassinadas, 29 feridas e 43 desaparecidas.

O “governo” (leia-se gerência de turno serviçal do imperialismo) de Enrique Peña Nieto só se pronunciou oito dias após os crimes hediondos, isto quando já não dava mais para manter-se em silêncio diante da ampla repercussão nacional e internacional. O prefeito de Iguala na época, Jose Luis Abarca, e sua esposa Maria de Los Angeles Pineda são acusados como os principais responsáveis pelos ataques. Notícias veiculadas na imprensa internacional deram conta de que os jovens sequestrados foram entregues pela polícia ao bando criminoso narcotraficante ‘Guerreros Unidos’, que tem, entre seus membros, irmãos de Maria Pineda. A investigação oficial diz que os jovens foram executados e incinerados. Apenas um estudante foi identificado com o apoio de um laboratório austríaco.

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Cartaz da campanha de solidariedade

A Caravana

Diante dos acontecimentos, ativistas de diversos países decidiram prestar sua solidariedade militante às famílias que continuam na busca dos corpos de seus filhos, irmãos e parentes, e, através da pressão internacional, exigir uma investigação séria, além de justiça para os desaparecidos. 

No mesmo dia em que chegaram ao Rio de Janeiro, em 9 de junho, os familiares e amigos da Caravana concederam uma coletiva de imprensa no Sindicato dos Jornalistas, na Cinelândia, Centro da cidade.

No segundo dia de atividades, 10 de junho, a Caravana foi até o complexo de favelas da Maré, na Zona Norte. Após uma caminhada para conhecer a comunidade e conversar com os moradores, foi feita uma roda de conversa entre os familiares mexicanos e mães de São Paulo e do Rio que tiveram seus filhos e filhas vítimas da violência policial fascista. Após as conversas, uma nova coletiva de imprensa foi concedida no Museu da Maré. Guardadas as diferenças dos níveis de repressão que se abatem sobre os pobres e sobre os movimentos populares no Brasil e México, os dois países apresentam algumas semelhanças quando o assunto se trata de terrorismo de Estado contra o povo. Nesta favela, os mexicanos puderam presenciar a rotina de militarização que, hoje em dia, se faz presente com a ocupação (ou invasão) pelos tanques e armas de guerra das tropas do exército reacionário brasileiro.

Em 11 de junho, a Caravana participou de uma série de atividades na Aldeia Maracanã, como rituais indígenas ‘pelo retorno dos 43 de Ayotzinapa’, teatro de bonecos, roda de ciclos das mulheres Teko Haw Maraka’ná, apresentação de vídeos e músicas.

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Pienso, luego me desaparecen

O último dia de visita ao Rio, 12 de junho, começou com um ato público no consulado mexicano, onde foi entregue a ‘Carta do Brasil pela justiça e contra a impunidade’, condenando e repudiando “todo ato de violência contra estudantes” e manifestando preocupação pelo fato de que “a busca por justiça e as investigações realizadas pelo governo que Enrique Peña Nieto encabeça, não tenha atingindo o nível e a rigorosidade necessária diante desse tipo de crime”.

No início da tarde, a roda de conversa ‘Pienso, luego me desaparecen: Educação Popular e resistência no México e Brasil’, realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), contou com a participação da  Dona Dira — esposa e companheira de Cleomar Rodrigues, dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas assassinado em outubro de 2014 —, discutiu a situação política do Brasil, as lutas e greves em curso, as prisões de Igor Mendes, Rafael Braga e os processos políticos contra os 23 ativistas presos e perseguidos na véspera da final da Copa da Fifa de 2014 acusados, sem provas, de participarem de “atos violentos”. Por fim, os familiares foram à Cinelândia numa atividade cultural pública durante a noite.

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Familiares e um amigo dos 43 de Ayotzinapa

Abaixo a farsa eleitoral

Assim como no Brasil, as eleições (a farsa eleitoral) no México não passam de um jogo de cartas marcadas para “escolher” quais figuras da velha política irão gerenciar o velho Estado semicolonial nos níveis locais e nacional. No último mês, os mexicanos realizaram uma ampla campanha de boicote às eleições associando diretamente a farsa de “democracia” ao desaparecimento dos 43 estudantes normalistas. Milhares de títulos eleitorais foram queimados e os confrontos com a polícia se sucederam por todo o país.

No último dia 7, o Instituto Nacional Eleitoral (INE) anunciou a anulação das eleições no povoado de Tixtla, também localizado no estado de Guerrero, onde ocorreram os sequestros. Nesta região em particular, o clima de combatividade tomou o ambiente por semanas seguidas. Muros amanheceram pichados em referência aos 43 e conclamando o povo a não comparecer às urnas. Pais e estudantes organizaram grupos de agitação e tiveram de enfrentar bandos paramilitares. Na coletiva de imprensa concedida pela Caravana 43 pela América do Sul’ em 9 de junho, um dos membros afirmou que os parentes e amigos dos estudantes de Ayotzinapa se somaram à campanha de denúncia à farsa eleitoral (ver nota na página 15).

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