Aldeia Maracanã atacada novamente

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Em 12 de junho, a Polícia Militar e o serviço de operações especiais da Guarda Municipal foram ao estacionamento construído ao lado do estádio Maracanã, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para despejar cerca de 50 indígenas que acampavam no local. Naquele mesmo lugar, há pouco menos de um ano, existia um amplo prédio construído pela Empresa de Obras Públicas do Rio de Janeiro, a EMOP, anexo à Aldeia Maracanã, local sagrado para os indígenas e motivo central das seguidas tentativas de retomada do prédio de onde foram despejados às vésperas da Copa da Fifa no ano passado.

Como já noticiamos incontáveis vezes, no prédio, hoje chamado pelos indígenas de Aldeia Maracanã, em 1953, Darcy Ribeiro criou o primeiro Museu do Índio da América Latina. O espaço é Patrimônio Público Indígena desde 1865 e foi onde o Marechal Rondon inaugurou, em 1910, o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), atual Funai. O prédio estava abandonado desde 1978, mas, em 2006, indígenas de diversas etnias ocuparam o espaço e criaram a Aldeia, em defesa da preservação, da cultura e da memória dos povos ancestrais.

Além do prédio histórico — de onde foram violentamente despejados pela primeira vez em março de 2013 —, os indígenas reivindicavam também a propriedade do prédio anexo da EMOP, demolido para a construção de um estacionamento. A decisão pela demolição foi tomada pela empreiteira Odebrecht, que administra todo o complexo do Maracanã através de uma parceria público-privada, incluindo as ciclovias e demais áreas no entorno do estádio.

Após o início da concessão para a Odebrecht, as piscinas do parque aquático Júlio Delamare foram desativadas e estão entregues ao abandono, as pistas de atletismo do estádio Célio de Barros foram destruídas e todos os equipamentos esportivos gratuitos que haviam no entorno do Maracanã foram removidos. Provas claras de que a administração da Odebrecht não serve nem nunca serviu aos interesses públicos, nos quais se incluem os centenários interesses dos povos indígenas, legítimos proprietários do terreno e do imóvel da Aldeia Maracanã.

Poucos dias depois que acamparam no local, indígenas e seus apoiadores receberam a desagradável visita dos cães de guarda do velho Estado, acompanhados, é claro, de uma representante da Odebrecht. Comandados pelo capitão PM Saldanha, indígenas foram coagidos a sair, cercados por mais de 100 homens armados e vestidos com armaduras, prontos para uma verdadeira guerra. No local, havia muitas mulheres e crianças. Como não havia a mínima correlação de forças para resistir, diferente das outras vezes, os indígenas recolheram seus pertences e saíram do local.

Nossa reportagem teve seu veículo guinchado sorrateiramente pela Secretaria de Ordem Pública após uma discussão com o capitão Saldanha que, usando de coação e intimidação, violou a prerrogativa dos jornalistas e entrou na frente das câmeras quando a representante da Odebrecht exigiu não ser filmada quando falava. Já os indígenas, quando se pronunciaram na negociação, foram cercados pelos mesmos agentes filmando com seus celulares em punho, em uma clara tentativa de intimidá-los.

Essa polícia que vem aqui defender os interesses da Odebrecht é a mesma polícia que, todos os dias, mata jovens pobres e negros nas favelas. Essa polícia e esse Estado que há 515 anos massacra a vida, a soberania e a autodeterminação dos povos indígenas. Esse terreno é nosso por direito, mas esse direito sempre foi negado. Porém, nós não iremos desistir de lutar pelo que é nosso. Vamos voltar e voltaremos mais fortes. Ayaya! — disse a indígena e professora de geografia, Mônica Lima, de 49 anos, da etnia Manauara Arwak.

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