A Grécia e o duplo estelionato eleitoreiro do Syriza

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No último 3 de julho correu o mundo uma imagem icônica da grave situação em que o capitalismo internacional em crise colocou o povo da Grécia. Os gregos têm sido castigados por um arrocho draconiano e sem fim, um dos mais severos já impostos pelo grande capital e seus capatazes a uma população de trabalhadores nesta fase superior, monopolista, parasitária e agonizante do capitalismo.

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Foto capta o desespero do povo grego frente a quebra da economia

O registro foi feito na cidade de Tessalônica por um fotógrafo da agência internacional de notícias AFP: um idoso sentado, prostrado, na frente de uma agência bancária, aos prantos, enquanto o gerente da agência e um policial tentam retirá-lo dali (a legenda que a AFP, órgão do monopólio internacional da imprensa, deu à foto foi: “Um aposentado chora e é amparado por um gerente e um policial em agência bancária”).

O homem, Giorgos Shatzifotiadis, de 77 anos, diria depois à mesma AFP que naquele dia ele peregrinava em busca de uma agência bancária aberta, onde pudesse tentar sacar pelo menos parte da aposentadoria da sua esposa, que tem problemas de saúde. Depois de passar por três agências fechadas, finalmente encontrou aquela aberta. No caixa, lhe informaram que, por um motivo qualquer imposto pelos “credores” da Grécia ou inventado pela “esquerda radical”, ele não poderia sacar o dinheiro. Então, desabou. Shatzifotiadis disse à AFP, porém, que não foi o seu problema pessoal que o levou àquele desespero: “Não posso suportar ver meu país nessa miséria. Por isso, estava abatido”.

E disse ainda, para que seu drama pessoal não pudesse ser mais revelador do drama coletivo do povo grego oprimido pelas nações centrais do capitalismo europeu:

“Trabalhei muito duro na Alemanha em uma mina de carvão e na fundição. Vejo meus concidadãos mendigando alguns centavos para comprar pão, vejo os suicídios aumentarem. Sou uma pessoa sensível. Não consigo suportar ver meu país nessa situação”.

Naquela altura, primeiros dias de julho, a Grécia estava sob “feriado bancário”, com a grande maioria das agências fechadas por causa do risco de o país ficar sem dinheiro, em todos os sentidos. Às vésperas do referendo convocado pelo gerenciamento do Syriza em que o astuto Alexis Tsipras, “primeiro-ministro” grego, submeteu à consulta popular a decisão sobre aceitar ou não as últimas, porém não menos draconianas, exigências da Europa do capital monopolista para manter o país “solvente”.

Poucos dias depois do choro do aposentado grego na frente de uma agência bancária em Tessalônica, parcela da população grega e os simpatizantes de todo o mundo da “esquerda radical” que se alçou ao gerenciamento do Estado grego comemoravam, cheios de ilusões sobre a “democracia” e suas vias institucionais, a vitória do “não”.

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Ainda no dia do referendo, entretanto, Tsipras já dava a senha de que o resultado daquela distração, inventada para o Syriza ganhar tempo e cacife político, o referendo, não iria ser levado em conta para a costura de novos “acordos” com os algozes das massas gregas. Disse: “O referendo de hoje não teve ganhadores nem vencedores”, emendando que retomaria “imediatamente” as negociações com os “credores”.

No dia seguinte ao referendo, o ministro das Finanças de Tsipras, Yanis Varoufakis, demitiu-se. Era um negociador mal visto pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) por ser mais dado ao espalhafato do estrelato do que à surdina da subserviência. E menos de uma semana depois do referendo os “credores” já tinham em mãos uma proposta de “acordo” com medidas de arrocho quase que idênticas às que foram rejeitadas nas urnas por 61% dos gregos, incluindo aumento do imposto sobre consumo e contrarreforna (mais uma!) da previdência.

O fim de semana seguinte ao do referendo foi de reuniões entre os principais membros do gerenciamento da Grécia e seus “parceiros europeus” (que é como aquela “esquerda radical” se refere a quem exige tudo da Grécia e dos gregos em sacrifício). Primeiro, com o Eurogrupo (ministros de Economia e Finanças dos países da zona do euro), que deu em água. Depois, com os chefes de Estado dos países que adotam a moeda única europeia, sob informes da imprensa burguesa internacional ora de que a Grécia poderia sair temporariamente da zona do euro, ora de que os “líderes europeus” davam um ultimato para que Tsipras aprovasse mais austeridade no Parlamento grego.

Enquanto a Europa do capital monopolista se reunia a portas fechadas, corria a notícia de que o ministro russo da Energia, Aleksandr Novak, anunciara a intenção de Moscou de fornecer combustível diretamente para a Grécia a fim de “ajudar na recuperação da economia” do país. Era Putin, com quem Tsipras se reuniu duas vezes em três meses, farejando terreno fértil para a expansão do imperialismo russo.

Por fim, no dia 13 de março, segunda-feira, o presidente do Conselho da União Europeia, Donald Tusk, anunciou que a Europa e o gerenciamento grego haviam enfim chegado a um “acordo unânime”, depois de 17 horas de reunião (a mais longa da história das reuniões entre “líderes” europeus). As agências de notícias do capitalismo davam conta de que o “acordo” havia sido fechado mesmo em uma reunião a quatro: o próprio Tusk, Angela Merkel (Alemanha), François Hollande (França) e o gerente Tsipras. Naquele dia, data de fechamento desta edição de AND, não foram divulgados detalhes do trato. Tusk adiantou apenas que ele prevê “reformas sérias” na Grécia.

Tsipras, por seu turno, saiu da longa e famigerada reunião dizendo que seu “governo” tomou “decisões difíceis”, prenunciando assim e afinal mais um longo período de draconianas medidas antipovo e fechando o ciclo do seu imenso e duplo estelionato eleitoral (a eleição da “esquerda antiausteridade” e o referendo do “não” a mais arrocho). Arrematou com chave de ouro, por assim dizer, um semestre inteiro de prática precisamente inversa ao discurso “antiausteridade” mediante o qual Tsipras conduziu sua camarilha oportunista à condição de “alternativa” na Grécia. O tipo de “alternativa” que tanto é funcional ao grande capital nesta sua fase última, monopolista e agonizante: aquela que vence eleições travestida de “esquerda” e governa como autêntica direita, por vezes ainda mais realista que o rei.

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