“O índio não parou, manteve a intensidade da luta e nunca se ocupou tanto dela”

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Entrevista exclusiva com o Cacique Babau Tupinambá

Em 14 de julho, tivemos a oportunidade de entrevistar o Cacique Babau Tupinambá, em Porto Velho, Rondônia, durante as atividades do IV Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Babau, cacique de uma aldeia da Serra do Padeiro, no Sul da Bahia, é uma das liderançasda luta de seu povo pela retomada do Território e tem resistido àsconstantes ataques das classes dominantes e às campanhas infames de criminalização realizadas pelo monopólio da imprensa. Os tupinambá têm sofrido a mais vis perseguições, prisões e assassinatos perpetrados por pistoleiros a mando do latifúndio e das forças de repressão do velho Estado.

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Babau falou ao AND sobre a situação atual da luta dos tupinambá

AND: Em linhas gerais, como está a luta dos tupinambá hoje? Quais desafios vocês têm enfrentado?

Cacique Babau: Nós tupinambá temos uma luta definida. Sabemos o que queremos. Morreram muitos tupinambá. Até agora, mais de 30 mortos, isso nas outras aldeias, na minha aldeia não morreu nenhum. Houve uma ocupação militar, eles ocuparam e depois saíram ¹ , e prosseguimos a luta.

O cacique explica que há um processo de negociações com fazendeiros para que se retirem do Território Tupinambá mediante indenização, mas que esse processo “não evoluiu”. “Mas, mesmo diante de toda essa situação, conseguimos dar um passo na questão da luta”, afirmou.

AND: Como você avalia a luta dos povos indígenas frente às políticas estatais do latifúndio e do agronegócio?

Cacique Babau: Bem, isso não é novo. Desde que portugueses chegaram aqui, eles tinham prioridade. Então nós, indígenas, nos organizamos na contramão disso. E, nessa contramão, a gente tem avançado, temos conseguido demarcar algumas terras. O que a gente corre é o perigo do retrocesso, estamos lutando contra o retrocesso na legislação brasileira, porque o maior perigo do agronegócio talvez seja o investimento que eles estão fazendo na política. Os políticos do parlamento brasileiro não defendem a nação brasileira, defendem empresas, que os elegeram e financiaram. Nós indígenas estamos atentos para isso.

Somos contra a PEC 215 ² e também estamos de olho na questão da ‘Lava Jato’, que estourou. Uma coisa que todo mundo já sabia, toda a corrupção brasileira basicamente passa por aí. Eu acho que isso vai dar possibilidade, não só do movimento indígena se posicionar e avançar, mas também outros movimentos, porque está escancarado que o dinheiro é desviado e usado para manter aqueles que são contra os brasileiros. Aqueles que querem destruir os índios, os quilombolas, os sem terra, e querem implantar um regime de indústria internacional que se mantém em pé através do capital e do governo, dos impostos que o governo arrecada. Mantém a si mesmos de forma obscura com dinheiro pra eleger deputados, senadores e mais pessoas. A gente tem que estar atento a isso.

AND: Você acha que é possível, dentro desse cenário, ampliar a união entre camponeses sem terra e populações indígenas num objetivo comum?

Cacique Babau: Isso já aconteceu. É uma coisa que já se instalou, não tem volta. Na Bahia mesmo, todos os movimentos estão unificados. O que a gente faz é respeitar as diferenças de cada um. E nós já discutimos coisas avançadas como o zoneamento livre no Brasil. A gente quer entrar com um pedido no governo pra criar um zoneamento no Sul da Bahia voltado para esse povo, agricultura familiar, quilombola, índio. E não mais a cultura do eucalipto, da soja, do café, do gado extensivo. Pode até ter tudo isso, mas em escala bem pequenininha e que dê prioridade à floresta.

Por exemplo, no acampamento Terra Livre, em Brasília [realizado no mês de abril], estiveram juntos 1.500 índios e 800 sem terra. O movimento da agroecologia da Bahia levou 2.500 pessoas para a Assembleia Legislativa, em Salvador, com indígenas e sem terra, todos juntos e bem combinados.

AND: Qual a posição das organizações indígenas sobre aguardar ou não iniciativas estatais para atender as suas demandas?

Cacique Babau: Olha, eu vejo o seguinte. No momento em que Lula foi eleito, ele traz uma expectativa a todos. Na hora que Lula entra, por que diminuiu o avanço [das lutas]? Não foi pra agradar o Lula não, mas foi para repor as energias para outro momento. A luta não morreu.

Havia vários fóruns de discussão que até então estavam satisfazendo. Com a entrada da Dilma, paralisaram as negociações e o governo então não conversa com quase ninguém . E o povo já estava se preparando para isso. Os movimentos procuraram seguir com as discussões na mesma intensidade para não paralisarem as negociações.

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Está todo mundo muito atento, muito bem organizado...

O brasileiro está pronto pra batalha, só não precisou ‘botar a perninha fora do tempo’. Mas, se o agronegócio for pra cima, então aí sim... Você vê que, de norte a sul, está todo mundo se encontrando, todo mundo está reunindo.

Nunca se teve tantos líderes indígenas na cadeia quanto no governo Lula e Dilma. E olha que ninguém se revoltou ainda. Também nunca se teve tanta polícia nas áreas quanto no governo Lula e Dilma. Isso é um treinamento, pois, se vier coisa ruim, a gente já sabe lidar com tudo isso. Mas vamos conversar com a América Latina inteira, os movimentos todos estão conversando entre si, buscando suas falhas e corrigindo. Isso é bom.

AND: Você avalia então que a repressão aumentou?

Cacique Babau: Aumentou. Isso só não foi percebido por causa dos ‘sorrisos’, mas a repressão triplicou no governo Lula e Dilma.

AND: E a quantidade da regularização de áreas, demarcação, homologação: aumentou ou diminuiu?

Cacique Babau: Despencou vertiginosamente. Por exemplo, quem fez mais demarcação de terras indígenas aqui no Brasil foi o governo Fernando Collor de Mello. Depois vieram os oito anos de mandato de Fernando Henrique, que chegou a demarcar 30 áreas. O Lula chegou a 18 e Dilma a 4. Juntos, eles não chegam aos números de demarcação de terras do governo Fernando Henrique.

Horrivelmente, as demarcações paralisaram. Só empurraram com a barriga e conversaram. Mas o povo não reagiu não porque era o Lula, mas porque nós tínhamos um desgaste de luta contínuo.

Os guerreiros também precisam de descanso para depois retomar [a luta]. Mas você vê que o índio não parou, manteve a intensidade da luta e nunca se ocupou tanto dela. Quando o congresso nacional disse assim, ‘vamos tirar direitos’, os índios pararam de retomar fazenda e passaram a tomar território, ou seja, o território inteiro. Então foi demonstrada uma forma de luta incrível. Está todo mundo deixando claro pro governo: ou faz a demarcação guarani ou o povo do país inteiro vai marchar pro Mato Grosso do Sul.

Outra coisa importante é a autonomia do movimento. De cada ação realizada, pelo menos 70% são bancadas pelos índios, com recursos próprios. Então eles também estão discutindo autonomia na luta . Isso é uma diferença, porque antes não, antes se pegava o dinheiro na Funai. Hoje, índio nem vai na Funai pedir nada. Faz os movimentos sem pedir nada ao governo.

Notas

1. Em março de 2014, efetivos do exército, da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal realizaram operações de cerco e ocupação no Território Tupinambá, particularmente contra os tupinambá da Serra do Padeiro, liderados pelo Cacique Babau no Sul da Bahia (ver em na edição 127 de A Nova Democracia). Nos últimos anos, de forma mais concentrada, os tupinambá do Sul da Bahia têm sido alvos de campanhas odiosas do monopólio das comunicações, criminalização, perseguições, prisões e assassinatos.                 

2. Proposta de emenda a constituição que transfere ao congresso nacional a prerrogativa, atualmente do executivo, de demarcar as terras indígenas.

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