Encontro nacional repudia o terrorismo de Estado

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Há um ano, em 12 de julho de 2014, 23 ativistas eram presos e perseguidos na véspera da final da Copa da Fifa pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. No dia seguinte, 13, manifestantes que se concentravam na Praça Saens Peña, no tradicional bairro da Tijuca, Zona Norte da cidade, foram alvos de brutal repressão levada a cabo por um verdadeiro esquema de guerra montado pelas diversas forças policiais do velho Estado. De lá pra cá, seguiram-se processos contra aqueles que ousaram contestar a farra da Fifa no Brasil. Na passagem do primeiro aniversário destes episódios, agora, em 2015, entidades e organizações populares da capital fluminense convocaram o Encontro Nacional Contra as Perseguições e Prisões Políticas. Realizado nos últimos dias 11 e 12/7, o evento discutiu a campanha pela liberdade de todos os presos políticos e a luta contra o terrorismo de Estado.

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Ato no dia 12/7/2015 fez o trajeto que foi impedido há um ano: Saens Peña - Maracanã

Bastante representativo, o Encontro foi realizado em dois dias.

No dia 11 de julho, foram realizadas duas mesas de debates no salão do Sindsprev, na Lapa, região central da capital. A primeira mesa teve o tema ‘A luta contra o terrorismo de Estado’ e contou com a participação de Daniel Mazola, editor chefe da Tribuna da Imprensa; Gerson Lima, da Liga Operária; José Ricardo Prieto, diretor geral do jornal A Nova Democracia; Gizele Martins, comunicadora popular da favela da Maré; Deise Carvalho, destacada ativista contra a violência policial que teve seu filho assassinado no Degase em 2006; Ana Paula Oliveira, mãe do jovem Jonathan, assassinado pela polícia em maio de 2014 na favela de Manguinhos; e Rebeca de Souza, professora grevista perseguida pelo Estado e uma das presas políticas na véspera da Copa. João Batista Damasceno, membro da AJD (Assossiação Juízes para a Democracia), que participaria do evento, não pôde comparecer, mas enviou suas saudações.

A segunda mesa, que teve o tema Prisões políticas na cidade e no campo e o direito de manifestação, foi enriquecida com a presença do professor Evson Malaquias, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); Fábio Hideki, ex-preso político de São Paulo; Nilo, da Liga dos Camponeses Pobres (LCP); uma representante do Comitê de Solidariedade aos Presos Políticos – Ceará; um representante do Comitê Pela Liberdade de Rafael Braga; Igor Mendes, jovem ativista que teve sua liberdade concedida recentemente após mais de seis meses de prisão; além de companheiras presas e perseguidas políticas da Copa.

Após os debates, foram realizadas apresentações musicais com os grupos Corisco, Canto Cru, Esquizo Farofa e com os músicos Marcinho da Gaita e Scott Fraga.

A representatividade do Encontro se fez notar não só pelas mesas, mas também pelas mensagens enviadas e pelo número de pessoas, organizações, familiares de presos políticos e advogados do povo presentes no salão do Sindsprev, que ficou lotado durante o dia inteiro. Como se pode notar pelos temas abordados, foram discutidos as diversas formas de terrorismo de Estado contra o povo brasileiro, que vão desde a violência policial nas favelas e bairros pobres, inúmeras políticas de criminalização da pobreza, até o ataque ao direito de lutar e se manifestar. Este último ponto, abordado por Emerson Raphael Fonseca em seu artigo ‘O direito de livre organização é parte do direito de livre manifestação’, publicado em AND nº 153, atualmente tem sua expressão maior nas prisões e processos movidos contra os 23 ativistas cariocas, e em particular contra a Frente Independente Popular (FIP-RJ), alvo central do processo.

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Igor Mendes fala durante a segunda mesa do Encontro

Em nota, os organizadores do Encontro afirmaram que “dezenas de organizações populares e ativistas participaram das mesas e espaços de nossa atividade. Um trabalho imenso de organização e mobilização, que se prolongou por quase três meses e somente se concretizou devido à dedicação de um grupo de companheiras/os destemidas/os e dedicadas/os”. 

“A importância desse Encontro não pode ser medida apenas, nem principalmente, pelo seu número de participantes, entretanto. E sim pela coesão e espírito combativo com que saímos dele; pela reafirmação da nossa disposição em prosseguir nas trincheiras de luta ao lado do povo, apesar da duríssima repressão a que temos sido submetidos por esse Estado cada vez mais fascista. Pela unidade fortalecida entre os movimentos e setores realmente independentes e combativos, que têm se posicionado ombro a ombro com os oprimidos durante e depois das históricas jornadas de junho, rechaçando o caminho da conciliação de classes proposto pela velha esquerda oportunista, que há mais de uma década ‘governa’ o País.” 

Pelo direito de manifestação!

No segundo dia, 12 de julho, data em que se completou um ano das prisões, como parte do Encontro Nacional, ativistas realizaram uma manifestação que teve concentração na mesma Praça Saens Peña, onde ocorreu o histórico ato da final da Copa em 13/7/2014. Após se concentrarem no local, eles saíram em passeata até o estádio do Maracanã, onde ocorria uma partida entre Flamengo e Corinthians.

Durante todo o trajeto do ato, a Polícia Militar tentou empurrar os manifestantes para o canto da rua e intimidar, porém sem sucesso, pois a passeata seguiu seu trajeto de forma combativa.

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Entre as organizações que compareceram a manifestação estão, além da FIP-RJ, o Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), a Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), a Unidade Vermelha, o Movimento Feminino Popular (MFP), o Grupo de Educação Popular (GEP), a Ação Direta em Educação (ADEP), a Liga Operária, o Fórum de Oposições Pela Base (FOB), o Comitê Pela Liberdade de Rafael Braga, o Movimento de Moradores e Usuários em Defesa do Iaserj/SUS, a Aldeia Maracanã, ativistas independentes, entre outros.

Ao término do ato, em frente à ‘entrada do Bellini’, no Maracanã, nossa reportagem conversou com Igor Mendes, ativista da FIP-RJ e do MEPR. O jovem, que já havia sido perseguido na véspera da Copa, passou mais de seis meses encarcerado em Bangu e uma ampla campanha pela sua liberdade foi promovida em todo o Brasil e outros países. Igor foi preso em dezembro de 2014 por ter, supostamente, desrespeitado uma medida cautelar imposta pelo juiz Flávio Itabaiana.

— Nosso fim de semana foi muito bom. Tivemos um Encontro com dezenas de organizações presentes e centenas de ativistas. Na manifestação de hoje o importante não era o tamanho, mas sim marcar posição, marcar que estamos aqui. Então, creio que todos nós temos motivos para nos sentir vitoriosos! — afirma Igor, que também falou sobre a importância política do Encontro:

— O país está numa encruzilhada. O Brasil vive uma crise política, econômica e cultural muito grave. Um aumento da repressão em vários níveis e terrenos. Ou nós vamos, no meio da crise, encontrar alternativas para superar esse estado de coisas, passar à frente, ou nós vamos ver o crescimento do fascismo, que é o que nós estamos enfrentando. A idéia do Encontro era marcar bem isso: a unidade dos lutadores! Óbvio, não dos oportunistas do PT e essa turma que fica posando de ‘esquerda’ em torno do tema da maioridade penal, por exemplo, mas que estão há 12 anos governando o país. Inclusive, nós fomos presos políticos da Copa, da Fifa e do PT. Nós precisamos da unidade dos autênticos lutadores, isso é fundamental nessa situação. Eu acho que o Encontro e essa manifestação afirmam exatamente isso — conclui.

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