Chacinas em São Paulo: a marcha fúnebre prossegue

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“A paz tá morta, desfigurada no IML... A marcha fúnebre prossegue”. O refrão da música do grupo de rap paulista Facção Central, de 2001, retrata as chacinas que, periodicamente, ocorrem pelo país, em particular na Grande São Paulo, e que, volta e meia, voltam a ocupar as manchetes dos principais jornais brasileiros. Os assassinatos cometidos por policiais e seus grupos de extermínio, verdadeiras gangues que levam o terror às favelas e bairros pobres dos grandes centros urbanos, são rotineiros, mas só voltam a “indignar” (entre mais de duas aspas) as “autoridades” quando extrapolam o limite da selvageria.

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Ato em Osasco denunciou o terrorismo de Estado

A última chacina ocorrida em 13 de agosto que vitimou 18 pessoas — pobres e moradores da periferia — e feriu outras seis em Osasco, Itapevi e Barueri, Região Metropolitana de SP, foi amplamente noticiada pelo monopólio da imprensa, mas sem muito alarde, para não criar um clima de insatisfação entre o povo, e já que se comprovou a participação de agentes de repressão do velho Estado (mais uma vez) nas mortes. Foi a maior chacina deste ano em São Paulo.

O monopólio da imprensa, numa maneira sutil e execrável de criminalizar as vítimas, no início, insistiu em afirmar que algumas delas tinham passagem pela polícia, o que, mesmo que seja verdade, não justifica os assassinatos. Mas, mesmo assim, não é o caso de todos os mortos, que eram trabalhadores e, os que já haviam sido presos, não deviam mais à “justiça”.

Dos 18 mortos, 8 foram executados num bar de Osasco, que só reabriu as portas no último dia 21 de agosto. O irmão do dono do estabelecimento foi uma das vítimas. As imagens registradas pelas câmeras de segurança mostraram homens encapuzados entrando no local e fazendo abordagens que muito se assemelham com as que a polícia faz nos subúrbios Brasil à fora. Em declaração à imprensa, o secretário de Segurança Pública do estado, Alexandre de Moraes, disse não estar descartada a hipótese de retaliação pela morte de um PM e um guarda civil metropolitano. Outras seis pessoas haviam sido assassinadas em Osasco no fim de semana anterior.

Em 20 de agosto, a PM, que investiga a participação de 19 pessoas nos crimes (18 delas policiais), se manifestou sobre o caso. A nota foi postada no Facebook, um gesto incomum por parte da polícia, por motivação de uma charge de 2012 que voltou a circular nas redes sociais. O desenho mostra um policial em seu uniforme “modelo diurno” (a farda oficial) e o “modelo noturno” (capuz, capacete e arma). A “charge discriminatória contra a Polícia Militar” — que apenas ilustrou a realidade — causou indignação em seu comando.

Na nota, a corporação dizia que não se pode “generalizar toda uma classe de trabalhadores por conta de atos supostamente praticados por bandidos que integram temporariamente a instituição”. No entanto, os números de assassinatos praticados por PMs não atestam serem estes apenas “casos isolados”, e nem poderiam ser, já que a função social que as odiosas polícias militares cumprem é exatamente a de manter a pobreza sobre a mira de suas armas.

Somente no primeiro trimestre de 2015, o número de mortos pela PM paulista foi o maior dos últimos 12 anos. Em 90 dias, 185 pessoas foram assassinadas. A chacina de 13 de agosto foi só o estopim, pois ultrapassou a “meta” da polícia, que é de 2,05 mortos por dia. Grande parte destas mortes ocorreu sob formas suspeitas e, claro, elas sempre estão sendo “averiguadas” pela corregedoria. Então, a afirmação da polícia na nota lançada em 23/8 de que ela própria é “uma das instituições mais sérias do poder público, agindo prontamente em casos de crimes eventualmente praticados por seus integrantes” e seus membros são “implacáveis contra desvios de conduta”, não parece ser uma afirmação tão séria assim. Ou, olhando por outra ótica, reconhecendo a PM como um órgão de repressão das massas, ela, realmente, é eficiente no seu trabalho. De toda a corporação, as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (a famigerada Rota), a “tropa de elite” da PM, é o batalhão que mais matou.

No dia 24 de agosto foi noticiado que um soldado de 30 anos que prestava serviços administrativos para a Rota foi preso acusado de participação.

A ordem do fascismo

O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), destacada entidade democrática e de defesa dos direitos do povo, se pronunciou sobre os acontecimentos em nota publicada em 21/8 com o título Chacina de Osasco, crime de Estado. Reproduzimos trechos da nota por conter concordâncias com nossos pontos de vista.

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Faixa em memória dos mortos na chacina de 13 de agosto

Em relação aos episódios de 13/8, o Cebraspo afirma que “é o que ocorre não só na Grande São Paulo, mas milhares de vezes em todos os estados. Policiais civis e militares assassinaram recentemente 15 no Cabula, Bahia; 29 em Manaus; como mataram em Vigário Geral, Acari, Candelária e Baixada, no Rio; em maio de 2006, em São Paulo, entre muitas outras matanças. O modo de operar dos assassinos que agem em nome da ‘segurança pública’ e o acobertamento e impunidade garantidos pelo judiciário são iguais em todos os lugares. Não existem leis para o Estado e seus agentes”. 

E prossegue: “O mesmo desprezo pela vida da população se repete. Assim como arrastaram Cláudia Ferreira presa a um camburão pelas ruas depois de a matarem, nas repetidas vezes que invadem as comunidades, assassinam indiscriminadamente jovens e crianças de 10, 13 anos, como no Complexo do Alemão, na Maré, etc. Ocupam, humilham e maltratam, forjam flagrantes e provas contra os filhos do povo, torturam e assassinam. Quando estão fora de serviço seguem agindo da mesma forma nas milícias e nos grupos de extermínio. Têm autorização explícita e estímulo para matar. Isso é o verdadeiro terrorismo de Estado em ação. Essa não é uma realidade ‘localizada’, não são assassinos que agem isoladamente. É uma política de um tipo de Estado onde se instala o verdadeiro crime organizado, que age de forma ora aberta, ora encoberta. Matam uniformizados e depois do expediente, matam mascarados”.

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Sobre o papel que o monopólio da imprensa cumpre, o Cebraspo aponta que ele é “financiado pelos que governam” e “descaradamente difundem informações que mais confundem do que esclarecem. Reproduzem mentiras entre meias verdades, repetem outras centenas de vezes que os assassinos perguntavam antes de matar por quem tinha ‘passagem’ na polícia. Todo um trabalho para induzir a opinião pública a pensar mais na qualificação das vítimas, ou porque estavam lá naquela hora. Não a identificação do Estado e seus agentes como instrumentos da matança. Isso para conter a revolta e criar dúvidas sobre quem pratica sistematicamente a violência. Repetem à exaustão, através de seus ‘noticiários’ e de seus ‘analistas’, a surrada tese da ‘violência da sociedade’, num claro movimento para desviar as atenções. Assim age a imprensa antipovo, comprometida com os monopólios, sustentada com milhões pelos grupos de poder. Potencializa a gritaria em torno da corrupção, da qual é parte integrante, exatamente para manter fora do foco toda a natureza de classe, a natureza criminosa desse Estado, que é o primeiro a rasgar e passar por cima das leis que diz defender”.

 

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