O heroísmo e o exemplo da Resistência de Corumbiara

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Nas duas últimas edições do AND viemos destacando a história da Resistência Camponesa de Corumbiara, no Sul de Rondônia, a batalha de Santa Elina de 9 de agosto de 1995, acontecimento que representou um divisor de águas na luta pela terra em nosso país. Ao contrário do que almejavam o latifúndio e todos os reacionários — afogar em sangue a luta dos camponeses pobres —, a feroz resistência das massas oposta ao massacre covarde fez explodir a luta pela terra em todo o país. Tal resistência deu-lhe nova dimensão, criando condições para novo desenvolvimento do movimento camponês revolucionário desde a primeira metade da década de 1960, quando as Ligas Camponesas tiveram sua direção destruída pelo regime militar fascista.

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Bandeiras vermelhas tomaram as ruas de Corumbiara nos 20 anos da Batalha de Santa Elina

A luta dos camponeses pelas terras da Fazenda Santa Elina, que foram em parte retomadas pelos remanescentes da batalha histórica em meados de 2010, repercute profundamente até os dias atuais em todo o estado de Rondônia. O significado dessa luta fica vivamente expresso no respeito e reconhecimento das massas camponesas, estudantes, professores, pequenos comerciantes, enfim, apoiadores do movimento camponês, que responderam prontamente a convocação da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de Rondônia e Amazônia Ocidental e do Comitê de Defesa das Vítimas de Santa Elina (Codevise), participando do trabalho coletivo de preparação e organização da celebração dos 20 anos da Resistência nos dias 8 e 9/8.

Os camponeses também celebraram os cinco anos da retomada da Santa Elina e do Corte Popular nas terras retomadas, local sagrado, conquistado através de sofrimentos, persistência e muita luta.

O barracão da Associação dos Produtores da área Renato Nathan, onde ocorreram o ato político e as festividades, foi construído pelos associados especialmente para a data da celebração. Camponeses e apoiadores da luta fizeram a convocação percorrendo as casas dos camponeses, colando cartazes e realizando panfletagens, debates nas escolas de Corumbiara e região, promovendo intensa agitação política.

Como prova do reconhecimento do papel da produção dos camponeses nas áreas tomadas do latifúndio para o abastecimento do comércio de toda a região, comerciantes doaram grande parte dos alimentos e produtos destinados às festividades e camponeses recolheram os frutos da produção nas áreas.

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No dia 8 de agosto, foi dado início à celebração com uma vigorosa manifestação que contou com a participação de mais de 200 pessoas, tomando as ruas de Corumbiara. Participaram camponeses de diversas áreas de Rondônia: Canaã, Renato Nathan I e II, Raio de Sol, Zé Bentão, Alzira, Rancho Alegre, etc. Além disso, participaram organizações como o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Corumbiara, o Sindicato dos Operários da Construção Civil (Marreta-BH); estudantes da Universidade Federal de Rondônia e do Instituto Federal de Rondônia - IFRO (Porto Velho, Rolim de Moura e Vilhena), professores do IFRO (Vilhena e Porto Velho), professores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR - Vilhena e Rolim de Moura), professores da rede pública estadual mobilizados pelo Movimento Classista dos Trabalhadores em Educação (Moclate); organizações democráticas e populares como a Associação Brasileira dos Advogados do Povo (Abrapo), o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo), a Liga Operária, o Comitê de Apoio ao Jornal A Nova Democracia, Movimento Feminino Popular, Movimento Estudantil Popular Revolucionário, entre outros.

Após a manifestação, na área Renato Nathan, foi servido almoço aos participantes. À tarde, foi realizada homenagem em memória dos heróis da luta pela terra em Rondônia e o ato político marcando os 20 anos da Heroica Resistência de Corumbiara. Na abertura do ato, A Internacional, hino dos trabalhadores de todo o mundo, foi cantada solenemente pelos presentes. A resistência e seus heróis tombados foram saudados pelas organizações e personalidades presentes e a história da luta de Corumbiara foi saudada pelos oradores, que destacaram que, desde aquele 9 de agosto de 1995, os camponeses jamais deixaram de lutar pela retomada e posse das terras da Santa Elina.

O ato político foi encerrado com uma simples, mas comovente homenagem aos mártires do povo brasileiro. Foram entregues quadros e poesias a parentes de Sérgio Rodrigues e de Nelinho, representando os heróis tombados na batalha de Corumbiara; a familiares do companheiro Zé Bentão, um dos fundadores e coordenador da LCP de Rondônia, assassinado em uma tocaia em 2008; e do dirigente camponês Renato Nathan, assassinado pela polícia e pistoleiros em abril de 2012. Também recebeu a homenagem, a irmã de Paulo Justino, combativo ativista camponês assassinado em Rio Pardo em maio. Eles tiveram seus nomes saudados e respondidos com um uníssono “Presente na luta!” em nome de todos camponeses que lutam pelo sagrado direito à terra.

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A noite foi dedicada a atividades culturais e, no dia 9, mais de quatrocentos camponeses e camponesas das áreas retomadas da antiga Fazenda Santa Elina se reuniram para festejar os cinco anos da retomada e participar de festejos que incluíram torneios de futebol de campo (masculino e feminino) e bingo. Durante as atividades, os professores do IFRO e UNIR anunciaram a realização de projetos de extensão (Seminário de Educação Popular e de Produção) com ações de apoio às áreas Renato Nathan, Alzira, Zé Bentão e Maranatã.

Em notícia publicada sobre a celebração, o Jornal Resistência Camponesa ressaltou: “a luta dos heróis de Corumbiara continua nas mobilizações e tomadas de terra pelo país, na luta pela Revolução Agrária. Mas é preciso, acima de tudo , retomar o que resta da Fazenda Santa Elina, a Nossa Senhora Aparecida (em torno de 25% do total). Após o despejo da Fazenda Santa Elina, em 1995, a direção da CUT–RO e do PT aceitaram a proposta do Incra de ‘assentar’ as famílias em outras e diferentes terras, quando a situação era totalmente favorável à desapropriação da Santa Elina pelo governo FHC, que estava sendo bombardeado por cobranças e condenações de diversos países. Com a aceitação pelos oportunistas de ficar fora da Santa Elina, o latifundiário logo aumentou as derrubadas e a formação de pastos em quase toda ela e a dividiu em várias fazendas. E a indenização das famílias dos assassinados, dos feridos e traumatizados só pode ser conseguida com luta dura. A luta camponesa em geral também se aprofunda, pois está claro que o Incra não desapropriará as terras do latifúndio e a justiça não punirá os assassinos de camponeses e seus mandantes. O latifúndio fez o terror em 1995 para que ninguém mais ousasse tomar um palmo de terra sequer.

As vidas camponesas ceifadas, seu sangue derramado regou o solo da Fazenda Santa Elina, que hoje floresce como áreas revolucionárias Zé Betão, Renato Nathan, Maranatã 1 e 2, Alzira Monteiro e Alberico Carvalho. É solo sagrado. Que o latifúndio trema de medo, pois a Revolução Agrária cresce, os camponeses aprofundam sua organização e consciência, e já se levantam para cobrar toda injustiça, exploração e opressão. E o povo brasileiro que, aos milhões, ganhou as ruas em 2013, começa a perceber que o seu sonho de um novo Brasil só pode tornar-se realidade a partir da Revolução Agrária, caminho apontado pelos combatentes de Corumbiara que segue sendo trilhado por mais e mais camponeses país à fora”.

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