Milhões se batem em fuga da barbárie imperialista

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Há muitas nuances desta “crise” migratória que assola vários países do Oriente Médio, do norte da África e do sudoeste asiático, e que ora bate forte à porta da Europa: a atuação infame dos “traficantes de pessoas”, que, em vez de agenciadores da sobrevivência, muitas vezes se revelam facilitadores da morte agonizante; as perseguições e a violência sem sentido e sem limites do famigerado Estado Islâmico, que leva às últimas consequencias, no Iraque e na Síria, a barbárie promovida pelas potências capitalistas naquela região do mundo; a natureza fascista dos discursos e das políticas dos chefes de Estado e de governo dos países das União Europeia ante o “enxame” que foi a designação escolhida pelo “primeiro-ministro” britânico, David Cameron, retirada diretamente do léxico da xenofobia, para classificar as multidões de migrantes que tentam ingressar no continente europeu.

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Confronto entre refugiados e a polícia na Macedônia

Todas estas questões, porém, são laterais para a compreensão desta “crise” migratória que se desbodra com particular dramaticidade e com especial repercussão em meio à crise geral dos monopólios, e como parte e consequência dela. A questão central que empurra todas as outras para os lados é o processo de repartilha do mundo entre as potências imperialistas divididas em blocos de poder geopolíticos e ora em franca disputa por hegemonia em várias nações-posições nevrálgicas para seus projetos de dominação.

São países submetidos a sua condição semicolonial, pelas ingerências, sabotagens, agressões, ocupações e rapinas levadas a cabo pelo imperialismo em suas empreitadas de conquista de mercados, usurpação de matérias-primas e consolidação de estratégias militares, e por vezes devastados por sangrentas guerras civis provocadas e manobradas principalmente por USA, superpotência única hegemônica, e Rússia, que como superpotência atômica luta desesperadamente por manter suas áreas de controle e influência. Essas contradições se agudizam mais e mais, como na Ucrânia e na Síria, de onde parte uma grande parcela das milhões de pessoas que agora se batem em fuga de toda a desgraça que as potências e os monopólios em crise lhes puseram no encalço.

Máquina de moer refugiados

O discurso e a prática dos chefes políticos da Europa do capital monopolista no que tange à “crise” das centenas de milhares de pessoas que tentam chegar à União Europeia na condição de refugiados discurso da “blindagem” do território europeu; prática da militarização sobretudo em um dos portões-leste da União Europeia, nomeadamente na fronteira servo-húngara começaram a sofrer algum abrandamento no último dia 27 de agosto, quando policiais austríacos abriram o baú de um caminhão abandonado cerca de 24 horas antes na fronteira do país com a Hungria e encontraram lá dentro 71 pessoas mortas. Eram corpos de imigrantes sobretudo sírios e afegãos que tentavam entrar clandestinamente na Europa depois de acertarem o traslado, que se mostrou mortífero, com um dos muitos atravessadores de pessoas, “profissão” em alta do capitalismo internacional, que atuam nesta “crise” oferencendo seus serviços na Europa do Leste e na costa do mar Mediterrâneo.

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Refugiados sendo barrados pela polícia húngara

Eram 59 homens, oito mulheres e quatro crianças, uma delas um bebê recém-nascido, que tentavam desesperadamente fugir da devastação em todos os sentidos e em todos os níveis da vida promovida pelas potências em seus países de origem.

No dia 28 de agosto, o jornal Público, um dos maiores de Portugal, publicou uma reportagem com o título “Já tinham morrido refugiados na Europa, mas nunca sufocados dentro de um caminhão”, já dando o tom do recuo, pelo menos no palavrório, que se daria entre os mais afoitos, os da própria imprensa capitalista e entre os chefes políticos da UE, no discurso da “blindagem” e na prática da militarização depois do “choque” dos migrantes achados mortos na fronteira austro-húngara.

Um trecho da reportagem dá conta de episódios recentes que não alcançaram maior repercussão entre os oligopólios da imprensa capitalista:

“Não foi a primeira vez que morreram refugiados na Europa. Nove morreram este ano ao tentarem passar da França para o Reino Unido, através do túnel de Calais — o último, um homem sudanês, foi atropelado ao tentar alcançar um caminhão. Em março, dois iraquianos morreram de frio na fronteira entre a Bulgária e a Turquia. Em abril, 14 somalis e afegãos foram mortos quando o trem de alta velocidade os atropelou na Macedônia; iam a pé pela linha em direção à Hungria. Em novembro do ano passado, morreram atropelados na mesma linha um bebê de 45 dias e o pai que o levava ao colo.”

Traficantes de pessoas: bodes expiatórios

Ainda naquele mesmo 27 de agosto, uma quinta-feira, uma embarcação que acabara de deixar a cidade líbia de Zuwara com mais de 400 migrantes desesperados para chegar à Europa naufragou na costa africana do mar Mediterrâneo, matando pelo menos 200 pessoas provenientes de vários países da África subsaariana, mas também da Síria, do Paquistão e do Bangladesh. Os outros cerca de 200 migrantes resgatados com vida das águas do Mediterrâneo foram presos e levados para o centro de detenção de imigrantes “sem documentos” em Sabratha, cidade que fica a leste de Trípoli, na Líbia.

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Foto do menino sírio morto na praia indignou todo o mundo

Só naquela última quinta-feira de agosto as patrulhas da União Europeia “resgataram” um total de 1.430 deserdados da terra que arriscavam a vida em alto mar (“resgataram”, entre aspas, porque a maioria dos “resgatados” teve o mesmo destino dos sobreviventes do grande naufrágio do dia: os centros de detenção de “ilegais”). Além do incidente com o barco que partira de Zuwara, outros dois corpos foram encontrados numa embarcação de madeira “interceptada” que transportava 125 pessoas. No dia anterior, quarta-feira, 26 de agosto, a tripulação de um navio da guarda-costeira da Suécia relatou que encontrara 51 corpos no porão de um navio que transportava perto de 500 migrantes “ilegais”.

De janeiro último até aquele fatídico dia, em que mais 200 pessoas perderam a vida afogadas no Mediterrâneo e outras 71 foram encontradas já com seus corpos em decomposição enlatadas em um caminhão na fronteira austro-húngara, foram registradas 2.300 mortes só nas tentativas de travessia das águas que separam a África da Europa. Em todo o ano de 2014 foram 3.279 mortos.

Apenas 48 horas mais tarde, no sábado, 29 de agosto, a polícia da Áustria parou em uma blitz um caminhão frigorífico que, flagrou-se, transportava 26 migrantes que, naquela altura, estavam desidratados e em estado crítico, especialmente as três crianças do grupo. Os médicos que atenderam os migrantes disseram que foram encontrados com vida “por pouco”, afirmando que eles “não aguentariam por muito tempo”.

Em meio a todo este inferno instalado, as “autoridades” da União Europeia, sempre com a retaguarda do oligopólio dos meios de comunicação da grande burguesia, já se esmeravam em apontar os bodes expiatórios para esta assim chamada “crise migratória”: os “pequenos empresários” clandestinos, atravessadores, “traficantes de pessoas” que lucram com este empreendimento infame que é a transformação de uma tragédia coletiva em fonte de renda, “despachantes” da fuga internacional em massa de pobres diabos que muitas vezes terminam por eles abandonados à deriva em uma barcaça ou abandonados e trancados à chave na câmara fria de um caminhão.

Assim, os suspeitos de serem os responsáveis pela tentativa letal de migração para a Europa das 71 pessoas que morreram asfixiadas em um caminhão na fronteira austro-húngara se viram na frente de um juiz menos de uma semana depois do dramático episódio; assim, várias prisões foram feitas na costa da Líbia menos de uma semana depois do naufrágio que vitimou centenas de sírios no meio do mar Mediterrâneo; assim o motorista romeno do caminhão-frigoríco onde quase morreram mais 26 migrantes na fronteira da Áustria com a Alemanha foi preso na hora; tudo de maneira tão fulminante e exemplar quanto é efetivo e categórico o acobertamento dos crimes cometidos pelos primeiros e últimos responsáveis pelo infeliz destino daqueles pobres diabos; pelos chefes das potências imperialistas empenhados em seus jogos sangrentos pela repartilha do mundo, e que jamais se sentarão no banco dos reús de quaisquer tribunais internacionais, e muito menos serão presos em flagrante enquanto promovem da boleia da Casa Branca, de Bruxelas ou de Berlim   a guerra civil, a fome e a perseguição étnica, religiosa ou política nas nações onde nascem os condenados que ora morrem desgraçadamente e a granel em terra ou mar.                 

‘Crise migratória’ atiça veia fascista

Àquela altura, os Estados europeus em geral buscavam fechar cada vez mais e a todo custo o cerco às centenas de milhares de pessoas lançadas às agruras da migração clandestina ou à condição de refugiados pelos engendros de guerra e miséria da geopolítica, demonizando e criminalizando-as tanto quanto se podia. Segundo o jornal espanhol El País, a Hungria, além da construção de muro anti-imigrantes ao longo de toda a sua fronteira com a Sérvia, preparava ainda um “pacote” de “endurecimento” das leis contra os “ilegais”. Estaria na pauta uma lei prevendo o seguinte: se um imigrante for encontrado pelas “autoridades” em situação irregular ou fora do “centro de acolhimento” que lhes tenha sido atribuído depois do toque de recolher (normalmente às 22 horas) poderá ser condenado a uma pena de até três anos de prisão.

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Repórter Petra Laszlo dá rasteira em refugiados na Hungria

Uma “autoridade” da República Tcheca ainda defendia abertamente que a solução para a crise seria “blindar” a fronteira externa da União Europeia. Um vice-“primeiro-ministro” tcheco dizia que, mais importante do que solucionar o problema dos refugiados, era salvar o espaço de livre circulação na UE, chegando a bradar: “temos que defender o espaço Schengen!”, e a pedir que as tropas da Otan se ocupassem em repelir o fluxo migratório nos Balcãs.

Como se já não faltassem evidências, exemplos de que a “crise” migratória atiçou mais a veia fascista dos governos europeus. Cameron se precipitou na TV para anunciar mais cercas, mais policiais e mais cães farejadores para impedir a entrada de “ilegais” pelo Eurotúnel, que liga a ilha britânica à França. Na Grécia, mais de dois mil migrantes-refugiados foram trancados em um estádio na ilha de Kos sob forte calor, e a maioria sem acesso a água e sombra, para serem “registrados”. Relatos dão conta de inúmeros desmaios e vários ataques de epilepsia. Na Hungria, onde o “primeiro-ministro” Victor Orbán chegou a cacarejar: “se deixarmos entrar todo mundo, será o fim da Europa”, a polícia encheu um trem com imigrantes sob a promessa de levá-los à Alemanha, mas no meio da viagem parou a composição no meio do nada para tentar “encaminhar” todos eles para um campo de refugiados; migrantes foram recebidos com bombas de gás lacrimogêneo quando tentavam atravessar a fronteira da Grécia com a Macedônia; a Eslováquia avisou que só receberia imigrantes cristãos; vários episódios de violentos ataques de grupos abertamente fascistas contra imigrantes foram registrados na Hungria, na Alemanha e na Grécia nas últimas semanas de agosto e primeiros dias de setembro.

Na República Tcheca, onde políticos pediam as tropas Otan contra o fluxo migratório dos flagelados das guerras imperialistas, a polícia começou a marcar imigrantes “ilegais” na verdade, refugiados criminalizados   com números escritos à caneta identificando o trem e o vagão no qual haviam chegado ao país, incluindo crianças de colo.

Mas a sanha de “blindagem” e militarização dos “governos” europeus contra os migrantes-refugiados que acorrem à Europa sofreu outra inflexão, ainda mais brusca, quando começou a circular na internet, no último dia 2 de setembro, com imenso alcance e estrondosa comoção em escala mundial, a imagem do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos de idade, deitado sem vida, como se estivesse apenas dormindo, à beira de uma praia na Turquia, de onde, na noite anterior, partira a embarcação à bordo da qual sua família fez uma mal fadada tentativa de chegar à ilha de Kos, onde o Estado grego prende refugiados em estádios, e acabou naufragando.

Imperialismo provoca saldo macabro na Síria

Não obstante as razões que fizeram com que a foto do menino Aylan gerasse uma comoção incomparavelmente maior àquelas geradas por outros e pregressos registros fotográficos de crianças vitimadas pelas desgraças do mundo, sobretudo crianças africanas, o fato é que a justa comoção desencadeada por aquela que afinal se tornaria a foto-símbolo da “crise” migratória foi a centelha para que partisse do povo as mais sinceras ações de solidariedade aos povos flagelados pelas guerras.

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Dezenas de milhares de pessoas ofereceram sua casas como hospedagem para refugiados em países como Holanda, Islândia e Grã-Bretanha. Diante disso, restou à maioria dos chefes políticos da UE pôr o discurso xenófobo no bolso, ao menos por enquanto, e começar a anunciar um sem fim de metas alegadamente “solidárias” (Cameron vai deixar entrar 20 mil refugiados sírios ao longo dos próximos cinco anos anos na Grã-Bretanha, Hollande vai deixar entrar 24 mil nos próximos dois anos na França, etc). Seus números redondos, porém, não os absolvem, em primeiro lugar, dos crimes de que UE é responsável em suas empreitadas neocoloniais, e, em segundo lugar, do fato de que seus países-membros incorrem diariamente em escancaradas violações de acordos internacionais como a Convenção de Genebra, cujo Estatuto do Refugiado estabelece “a proteção que um Estado oferece a pessoas que não são seus nacionais e cuja vida ou liberdade está em perigo por atos, ameaças e perseguições das autoridades de outro Estado”, e como a Carta de Direitos Fundamentais da UE, que estabelece aos seus signatários a “obrigatoriedade de registrar todas as solicitações de proteção internacional que sejam apresentadas”.

Em cinco anos da guerra civil açulada pela disputa interimperialista pela subjugação do regime reacionário de Assad na Síria, o saldo macabro já é de mais de 250 mil mortos e 11 milhões de pessoas obrigadas a abandonarem suas casas, entre as quais 4 milhões que cruzaram as fronteiras sírias em busca de refúgio em outros países, a maioria indo não para a Europa, como o noticiário atual pode levar a crer, mas sim para o Líbano, Jordânia, Iraque e Turquia, de onde o pequeno Aylan partiu na esperança de chegar até o Canadá, onde tinha uma tia cabeleireira, mas perdendo a vida ao tentar vencer os primeiros 20 quilômetros de mar.

Não obstante, o Estado alemão, destino final almejado pela maioria dos refugiados sírios que partem em sua marcha desesperada para a Europa e alcançado por muitos deles não porque Berlim permite, mas porque não pode fazer grande coisa , passou a ser pintado pelos monopólios da imprensa como amigo dos imigrantes.

Os chefes das potências imperialistas fazem discursos e reuniões de cúpula para debater a “crise migratória”, como se fossem benfeitores enquanto seguem cometendo os mais terríveis crimes contra esses povos.

Em seu poema intitulado “A paisagem do exílio”, o dramaturgo revolucionário alemão Bertolt Brecht referiu-se aos refugiados como “arautos de más notícias”. De forma brilhante, ele revela em seu poema que, como todo fenômeno é uma contradição, essa terrível situação também assim é. Além do seu próprio infortúnio, os povos que hora se lançam em êxodo pelo mundo acossados pela guerra e pela miséria revelam com sua fuga em massa e com seus mortos afogados ou sufocados em baús de caminhões uma das mais terríveis faces desse sistema genocida de exploração do homem, parasitário, em decomposição e agonizante. E são justamente essas massas exploradas e oprimidas, que, por mais dificuldades que enfrentem e por mais tempo e sangue que isso lhes cobre, darão os golpes que aniquilarão a besta imperialista. A Nova Grande Onda da Revolução Proletária Mundial varrerá o velho sistema de opressão e exploração e varrerá seus escombros e cinzas para o lixo da história.

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